Quando olho para o mundo, o que mais me custa ver não é a expansão do poder da China, nem as guerras no Médio Oriente, nem sequer a guerra na Ucrânia. O que mais me custa ver é o declínio da Europa. Sou de um país europeu, trabalho noutro país europeu. Tenciono viver sempre na Europa. Estou convencido que os meus filhos viverão na Europa. Por isso, o futuro da Europa é o que mais me preocupa.
Neste momento, as lideranças políticas europeias, em Bruxelas e nas capitais nacionais, estão perdidas. Percebem que as suas ilusões, os seus erros, a maioria das suas políticas chocaram de frente contra um muro chamado realidade, e não sabem o que fazer. O antigo PM do Luxemburgo e Presidente da Comissão Europeia antecipou o fracasso europeu quando afirmou: “Nós sabemos o que havemos de fazer, só não sabemos como ganhar as eleições depois.” Juncker disse isto há mais de 15 anos. Continuamos exactamente na mesma. Os partidos políticos europeus, da esquerda à direita, continuam a colocar a vitória nas eleições à frente do que deve ser feito. Agora andam todos aflitos sem saber o que Trump vai fazer. Os países europeus dependem mais dos Estados Unidos, do que Musk depende de Trump, mas a maioria dos europeus só se preocupa com o dono do X. É patético.
A Europa depende dos Estados Unidos na defesa. Porquê? Porque os seus governos julgaram que os Estados Unidos estariam sempre disponíveis para defender a Europa e nunca investiram a sério na defesa. Ainda hoje muitos países europeus não cumprem os seus compromissos assumidos com a NATO, e investem menos de 2% do PIB na defesa (incluindo, infelizmente, Portugal). Trump disse aos europeus para gastarem mais dinheiro na defesa e cumprirem as suas obrigações. É lamentável que os governos europeus precisem que Trump lhes diga o óbvio.
Agora a Europa também depende dos Estados Unidos em relação à energia. Os Estados Unidos já são o segundo maior exportador de gás e o maior exportador de LNG para a Europa. Com Trump as exportações de gás dos Estados Unidos vão crescer, desde logo para tentar travar o aumento de tarifas comerciais pela administração norte americana, e a dependência energética também se vai agravar. Os Estados Unidos tornaram-se num dos maiores produtores de energia do mundo porque começaram a explorar o gás e o petróleo de xisto. Também há grandes reservas na Europa, mas os europeus não as exploram. Não o fazem por causa da oposição de dezenas de ONGs e movimentos políticos ambientais, e da natureza burocrática dos processos de licenciamento. As ONGs e as burocracias europeias preferem que a Europa dependa dos Estados Unidos e de Trump. E está a acontecer o mesmo com a exploração do lítio. O que significa que a dependência da Europa no sector dos carros elétricos em relação à China vai acentuar-se.
A Europa também está inteiramente dependente dos Estados Unidos no sector digital.
Podem os europeus viver sem o software produzido pela Microsoft? Não podem.
Podem os europeus viver sem o hardware produzido pela Apple? Não podem.
Podem os europeus viver sem a Google? Não podem.
Podem os europeus viver sem as redes sociais como o Facebook, o X e o Instragram? Podiam, mas detestariam.
Podem os europeus viver sem as compras na Amazon? Podiam, mas com a Amazon, a vida é muito mais fácil.
Na inteligência artificial, nos satélites, no cloud, nos semicondutores, as mesmas empresas americanas e outras vão continuar a estar muito mais avançadas do que as europeias. Ora, os europeus não são menos capazes do que os americanos. Aliás, Silicon Valley está cheia de europeus. O problema é o ambiente de investimento na Europa. Os europeus preferem regular a arriscar, e preferem conservar a inovar.
Nas últimas décadas, na Europa, a cultura socialista e social-democrata, que coloca a regulação legislativa e a intervenção do Estado acima da iniciativa privada, dos investimentos de risco, do empreendedorismo empresarial, triunfou sobre o verdadeiro espírito capitalista. A dependência em relação aos Estados Unidos é uma das consequências do triunfo desde consenso social-democrata na Europa. Voltando a Juncker, só pensaram em ganhar eleições, agora vão ter que agradar a Trump. É muito triste e dramático para os europeus.