Em França, o panorama eleitoral alterou indelevelmente a partir de 2007. Outrora marcada por uma combatividade estritamente confinada ao paradigma partidário entre candidatos ao centro – recordemos os intensos confrontos que opuseram Chirac a Mitterrand desde 1986 – a disputa presidencial entre a populista de centro-esquerda Royal e o desabrido de centro-direita Sarkozy foi jogada no limite da adequação para um combate numa democracia tão vibrante como a gaulesa. Para o vencedor eventual, mais do que duas propostas políticas e ideológicas para aquele Estado, estavam em jogo dois modelos de moralidade particularmente distintos: «[n]uma campanha presidencial, não podemos mentir. Não podemos ocultar quem somos e o que pretendemos. Não podemos esconder que tipo de líder político almejamos representar. Não podemos manter rodeios em torno de coisa nenhuma, nem podemos deixar de nos comprometer com algo ou alguma coisa». Especificamente, a lesão do caráter do adversário encontrou, amiúde, o seu espaço mediático: para a socialista, Sarkozy era uma «escolha perigosa para o Eliseu»; para o gaulista, a Royale faltava-lhe «temperança e calma».
Cinco anos volvidos, apesar de um mandato atolado em escândalos políticos diversos (ainda sem consequências jurídicas de monta) – do secreto financiamento de campanha por intermédio da já incapacitada Lilliane Bettencourt ao escândalo de corrupção de Karachi e aos alegados kickbacks negociados com o Paquistão pelo padrinho de casamento de Sarkozy, Nicolas Bazire – a impopularidade e censura pelo eleitor imputada ao então Presidente da República Francesa não proscreveu a sua recandidatura ao cargo político mais importante daquele ordenamento. Contra um banalíssimo projeto de Hollande, o incumbente, de regresso ao seu estilo político intempestivo e marcadamente contencioso, viria a ser penalizado pela insuficiência política do seu mandato e pela promiscuidade pessoal da sua entourage, abrindo as portas do Eliseu ao primeiro presidente do centro-esquerda em cerca de vinte anos. Todavia, de modo profundamente mais relevante, a insistência em recorrer às urnas como momento plebiscitário de uma liderança eticamente desastrosa gerou um terramoto eleitoral que viria a vitimar de vez a direita moderada, ancorando a política francesa em dois pólos radicais de esquerda e direita com um frágil e pouco legitimado centro ideológico e trazendo ao relento um clima de violência, outrora sublimada, de níveis pouco toleráveis para uma democracia ao estilo da França.
Apesar – ou por conta – de Maquiavel, (quase) todos os políticos tendem a avaliar a sua habilidade como mais próxima de Cesare Bórgia do que de Soderini ou Savoranola. Uma vez incumbidos de responsabilidade primo-ministerial ou presidencial, os atributos do poder – tanto pelos modos de vida passíveis de conceder aos seus aliados de primeira hora a troco da sua lealdade inamovível, pela condição privilegiada por ele garantida para participar nos desígnios políticos ou, não raras vezes como para favorecimento pessoal direto – incutem aos atores políticos a circunstância, como Weber antevira, de passarem a viver da política (ao invés de para a política ou simplesmente na política). Para isso, são amiúde quebrados limites morais sagrados, com a reedição de candidaturas indesejadas, a solicitação de uma absolvição de voz do Povo (que não é voz de Deus, como no velho panfleto) e a derrogação de postulados de uma ética republicana que muitos devem suportar e sobre a qual todos – eleitores e representantes – detém uma expectativa fundada de inviolabilidade incondicional. Com efeito, as palavras de John Adams mantém-se como truísmo: «O poder julga ser sempre de ótima alma».
Na sua candidatura a PM como SG do PSD, Montenegro padece desta mesma entropia gerada pela autoridade. Recuperando, como figuras de cartaz pelos seus distritos, personalidades repreendidas e demitidas por «imprudência», mantendo a altivez na relação executiva com o Parlamento, organizando, em público, um Plano inusitadamente revelado para preparar a recandidatura da sua comitiva e, mais grave, não adereçando de modo cabal os escândalos que enlameiam o seu nome, o atual líder do partido de governo impôs aos eleitores uma responsabilidade que não é (apenas) sua e excedeu todas as prorrogativas de leniência e indulgência que devem pautar um sistema democrático. Face aos mais recentes acontecimentos, o anterior PM tratou o tema com a virtude (pouco virtuosa) prescrita n’O Príncipe e, aplicando o mais cru realismo político, mergulhou o País em eleições, reeditando em simultâneo o mesmo plano de jogo-limite aplicado até aqui. Em ressaca por abstinência de poder e de forma hesitante e contraditória, o núcleo duro do Executivo procura um Perdão que o eleitor não pode conceder e, com isso, mostra à sociedade – e à saciedade – que ficar refém dos realistas políticos se exprime pela procura de uma reeleição a todo o custo – que nem o estatuto de arguido (que nos disse Montenegro, desejando ler telepaticamente Guerra, não ser possível) eventualmente travará.
A candidatura do PM demissionário é, evidentemente, um ato de legalidade que deriva daí a sua legitimidade mais primária. Numa leitura literal, esta figura não estende indevidamente o escopo das suas prerrogativas; entendendo que se encontra em condições morais e políticas para avançar, concretizá-la é uma opção política sobre a qual nada pode haver a dizer neste prisma. De resto, como nos mostrou a História, fazê-lo é estar disponível a menorizar a democracia como a conhecemos e a decretar uma derradeira oração fúnebre como a de Péricles sobre os fundamentos mais básicos desta modalidade política. A troco de ganhos pessoais e partidários de curto-prazo, o ex-PM entra em all-in político e declara-se disposto a pagar – e a fazer pagar – a todo o seu campo político os custos derradeiros de uma decisão errática, egoísta e, mesmo sob a lente maquiaveliana que acompanha este excurso, de virtú discutível e completamente dependente da boa fortuna.
Como nos ensinou Gilpin, «ninguém morre de amores por um realista político». Uma eventual vitória da coligação governativa, provável à data da redação deste artigo, resultará possivelmente de um apoio difuso e muito pouco convicto de um eleitor que depõe o seu voto no protesto perante uma inexistência de alternativas consistentes ao projeto político agora em curso e cujo suporte do Governo, menos do que plebiscitário ou confirmador da legitimidade moral da conduta do PM, é demonstrativo do estado combalido da democracia que hoje nos governa. Em português chã, Montenegro ganha por falta de comparência. Porque o PM não deixa de aparecer e a oposição não aparece, os eleitores portugueses, a estabilidade democrática, a ética republicana e os mínimos de conduta dos representantes agraciados com a honra de fazer representar os eleitores saem todos derrotados por goleada. E se, para o mesmo autor da citação que intitula o artigo, o realismo é necessário na Política Internacional, na Nacional nada mais presta senão um desserviço à Política, à Ética e a Sociedade.