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Janeiro marca o início de um “novo ano”. Renova-se a esperança, formulam-se desejos, mesmo que as previsões indiquem mais um ano de incerteza, com mais mudanças, que continuarão a pôr à prova a capacidade de adaptação e reinvenção de pessoas e organizações.

Primeiro “estranhámos” as mudanças que, aos poucos, se foram “entranhando” no quotidiano. A era digital há muito anunciada começou a ser consciencializada. Reorganizaram-se serviços, ajustaram-se formas de trabalhar, de ensinar, de aprender, de colaborar e de inovar, integrando as ferramentas digitais. Foi um período de grande esforço de adaptação.

As pessoas e as organizações anseiam por alguma estabilidade, que lhes permita planear atividades, retomar hábitos e consolidar mudanças. Neste ano, prevê-se o regresso gradual aos modelos “presenciais”, mas não se pode perder de vista o “digital”. As pessoas evidenciam o desgaste com constantes reuniões digitais, mas já não equacionam deslocações de várias horas para participar em reuniões de rotina. Desejam voltar à experiência de compra na loja, mas querem ter a possibilidade de comprar on-line. As soluções precisam de ser flexíveis!

Em 2022 continuarão as mudanças impulsionadas pela inovação tecnológica, com ritmos ainda mais acelerados. Vão ter um efeito disruptivo, conduzindo a novos paradigmas em domínios tão diversos como: o funcionamento das cidades – cidades inteligentes; a prestação dos cuidados de saúde – monitorização inteligente de doentes com “internet das coisas”; a logística – juntando 5G e geo-localização por satélite. Estamos para além de uma perspetiva meramente evolutiva. Vamos precisar de “desaprender” os modelos de gestão e organização baseados no passado. Precisamos dum mindset diferente – flexível, curioso, de contínua aprendizagem.

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A título de exemplo pensemos no trabalho. Antecipamos com alguma segurança que no futuro serão usados modelos “híbridos”. Embora estudos recentes realcem um conjunto de desafios colocados pelo trabalho remoto – produtividade, comprometimento com resultados, distanciamento do cliente, desconexão emocional com a organização – as empresas, se quiserem atrair talentos, particularmente em áreas qualificadas e com escassez de oferta, vão precisar de oferecer flexibilidade com propostas inovadoras e soluções híbridas. Será que os modelos atuais de gestão de “recursos humanos” conseguirão dar resposta ao novo paradigma? Notícias recentes relatam as dificuldades enfrentadas por empresas nos EUA face à demissão massiva dos trabalhadores em 2021. A reação imediata foi responder com incentivos financeiros, sem investigar a causa profunda para esta mudança de atitude. Desta forma, os incentivos financeiros foram percecionados como uma mera “transação” sem fortalecer os laços com as pessoas.

Com a adoção mais abrangente das plataformas digitais e das redes sociais como forma de intermediação no mundo do trabalho, as pessoas diversificaram as suas fontes de rendimento, desenvolveram outras formas de socialização que constituem alternativas ao que era a mais-valia do emprego tradicional.

Trabalhar a partir de casa abriu portas a um conceito mais abrangente da “casa”, em que se fundem as experiências da realidade física e do mundo virtual. Os nómadas digitais trabalham em qualquer lugar, motivados pela descoberta e a aprendizagem de novas culturas, transformando estas vivências em conhecimento tácito. Este é apenas um ponto de partida para um “admirável mundo novo”.

A partir destes exemplos podemos perguntar-nos: vamos continuar a enquadrar pessoas nos modelos que temos? Ou vamos optar por uma abordagem inovadora que estimula a criatividade individual e a capacidade de auto-organização de forma flexível como sugerem as novas tendências? Esta mudança de ano é um bom momento para promover um “pensar diferente”, soltar amarras e encorajar ideias “incomuns”, trilhar novos caminhos, acreditando que os méritos do risco superam as virtudes do status-quo, apoiadas em lideranças inspiradoras, ambiciosas na visão e pragmáticas na ação.