Há coisas que acontecem na nossa vida e que nos ficam para sempre na memória. Imagens que teimam em não desaparecer, tão reais, como se fizessem ainda parte do presente.

Certo dia, entrei pela tua casa adentro. Entrei para cuidar de ti, das tuas feridas. Afinal, é uma das minhas tarefas quotidianas: fazer visitações domiciliárias. Sou enfermeira!

Entrei. Olhei para ti. Uma mulher com cerca de cinquenta e poucos anos, cabeça quase rapada, olhar vazio nuns olhos escuros, uma deformação no nariz, como se durante muito tempo estivesses estado a fazer pressão sobre ele, e algumas cicatrizes. Ah, e não falavas, não dizias uma única palavra sequer…

“Problemas neurológicos”, disse o familiar.

Dormias num colchão, no chão. Sim, “para evitar quedas”, também me disseram. Passavas muito tempo sozinha. Uma eternidade…

As visitas, que me marcaram para todo o sempre, aconteceram. Os dias foram passando e a comunicação e empatia floresceu. Fui estimulando a resposta ocular; comecei a ouvir sons, uma vontade de comunicar, mas era difícil, eu sei.

Começou a custar-me estar tão pouco tempo contigo, sentia que precisavas de apoio, sentia que precisavas de mim…

Durante uma das minhas visitas, vi um caderno escrito em cima da cómoda. A letra era a marcador verde e muito trémula, dizia:

“Diz à enfermeira Sandra que gosto muito dela.”

Olhei para o familiar. Nunca nada me havia transmitido.

Peguei no caderno, sentei-te e dei-te o caderno para que pudesses escrever. A verdade é que, a muito custo e com a letra trémula, tu começaste a escrever. Esperei com calma que terminasses. Mas só eu queria que escrevesses…

“Diga ao meu marido para me fazer mais companhia.”

Tentei interceder junto do familiar. Não houve qualquer reação.

Compreendo que acompanhar alguém nesta situação, dependente para tudo, ao fim de alguns anos, seja extremamente desgastante. Oh, se é! E saí, destroçada, mais pela indiferença e pelo contorcer de um sorriso forçado por parte do familiar.

Nunca te esqueci…

Como serias tratada? Pensei tornar-me num apoio maior. Cada vez que me vinha embora parecia que o teu olhar não me largava, custava-me sair, por receio de ti, indefesa.

Num outro dia, entrei e já não existia o caderno.

Vi-te nua, de fralda, sentada no chão, em cima do azulejo frio, com as pernas dobradas como uma criança, a comer bolacha Maria, a tua pele estava cianosada, fria, os lábios roxos. O tempo estava frio e a janela do quarto estava aberta.

Algo confusa, questionei-me: “O que se passa aqui?”

Pedi roupa, vesti-te, cuidei das tuas escaras e aconcheguei-te com os cobertores no colchão. Outra vez aquele olhar…

E eram tantas as dúvidas que me assaltavam!

Decidi aparecer de surpresa e, oh, quanto acertei! Foi-me barrada a entrada. Estavas, segundo me disseram, “na banheira, de molho”.

Uma senhora com escaras e de molho na banheira!

Claro que percebi. Fui fazer outro domicílio e avisei que voltaria.

Entrei, finalmente.

Vi o rasto de sangue, desde o WC ao quarto. Questionei e ofereci apoio para uma cadeira de rodas. Sei que é difícil, pesado, desconfortável carregar sozinho um corpo sem reação. Mas disseram-me que já tinham cadeira de rodas.

O que poderá um enfermeiro de família fazer nestes casos? Denunciar a negligência, apoiar psicologicamente, apoiar socialmente. Como se podem sentir impotentes os profissionais de saúde!

Na visita seguinte, fui acompanhada pelo assistente social. O objetivo seria conhecer as necessidades, colchão anti – escaras, calcanheiras, cadeira de rodas, apoio para alimentação e higiene. Talvez o cuidador aceitasse e pudesse descansar um pouco…

Nada foi aceite! Nada! O objetivo, nesse instante, mudou: a vigilância da situação, a tua proteção, dar a entender que estávamos atentos e que queríamos cuidar de ti.

Visita seguinte. Fui acompanhada pela médica de família para dar a conhecer o nosso interesse pelo teu bem-estar. Já passei por algumas situações que tive de denunciar. E a demora na solução, na retirada do familiar de casa, simplesmente não aconteceu antes da sua partida. Pensei várias vezes que poderia ter sido eu a responsável de maior agressividade e negligência.

O que devemos fazer então?

Enquanto pensava no que seria profissionalmente correto e pessoalmente aliviador, tu desististe. Levava-te sempre para casa em pensamento. Que impotência!

Numa segunda-feira, recebi a notícia que te foste, que partiste. Foi há muitos anos, é verdade. Tão verdade, como é certo que ainda hoje não te esqueci. O sentimento de impotência ainda se mantém, persegue-me. Trago em mim a tua imagem tão real, as letras verdes, a tua pele roxa, o teu olhar na despedida…

Sinto que te dei o meu melhor, mas carrego-te nas minhas memórias recentes. Uma impotência que dói, um peso. Pergunto-me porque o sinto se, na realidade, estas situações fazem parte do meu quotidiano. Por que razão me marcaste tanto? Talvez tenha percebido que não tinhas mais ninguém. Que esperavas por mim, que sentias o meu carinho e por isso aquele olhar na despedida. Um olhar que, de vazio, passou a ter muita informação. Éramos cúmplices… fazia-te carinhos na face antes de sair e recebia um agradecimento do teu olhar.

Um cuidador e eu… mais ninguém.

Doía-me sentir que ficavas aprisionada nesse corpo imóvel e que também não te era permitido comunicar. Quantas vezes saí chocada!

Senti-me também atada. Pensei apenas em visitar-te com mais frequência. Entrei em conflito interior. Não podia, como enfermeira de família, envolver-me tanto! Estava a fazer tudo o que me era possível. Mas porque é que me continuava a sentir assim? Talvez por me sentir tão repleta quando de ti cuidava e tão vazia quando saía.

A dita, a maldita, impotência…

E no momento em que soube que partiste, surgiu a dúvida: se quiseste deixar esse corpo que te aprisionava na solidão ou se morreste de tristeza. Foi o que mais me marcou. A dúvida.

Hoje, depois desta partilha, sem que o objetivo seja culpar alguém, pois nunca sabemos o que está por trás de algumas atitudes ou falta delas, sinto-me aliviada. Hoje, consigo perceber que dei o meu melhor, que a dúvida não será importante esclarecer. Posso até pôr a hipótese de que esta emoção tenha sido sentida só por mim, que toda a minha interpretação do teu olhar fosse apenas um sentimento de proteção por ti, um sentimento de “mãe” por receio da tua dependência, por receio que sentisses fome, sede, medo. Hoje, apesar de todas as memórias tão nítidas, já não me interessa o motivo da tua partida, pois estejas onde estiveres, estarás melhor, em paz, estarás livre.

Nunca te esqueci, mas hoje decido que te quero recordar de outra forma.