Luís Montenegro e Marcelo Rebelo de Sousa aproveitaram as mensagens da praxe de Natal e Ano Novo para deixar umas notas sobre algumas características que nos definem colectivamente e que, por muito romantizadas que possam ser, ajudam a explicar o atraso do país e a degradação das suas instituições.

O primeiro-ministro defendeu que “temos de nos desprender da mentalidade do ‘deixa andar’ e temos de adquirir e trabalhar a mentalidade da superação, a mentalidade do irmos mais longe (…), a mentalidade de Cristiano Ronaldo. Os portugueses têm talento” – cada povo tem as referências que constrói e numa terra que em grande parte vive da e para a bola, termos Ronaldo já é uma imensa dádiva.

Já Marcelo Rebelo de Sousa, preferiu o conforto de citar Eça – é sempre mais suave recorrer aos clássicos do que dizer as verdades por palavras nossas.

À boleia do escritor, lá foi falando do país dos “fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo”, do “desleixo”, da “constante trapalhada nos negócios” e da ”esperança constante em algum milagre” que nos vá safando.

É difícil não concordar com este retrato parcial do que somos – a par de outras características que também fazem de nós um povo adorável.

O que talvez Luís Montenegro e Marcelo Rebelo de Sousa não soubessem enquanto escreviam os seus discursos é que, naquele preciso momento, algumas das mais insignes instituições do país estavam a construir um exemplo perfeito do “deixa andar”, do “desleixo” e da “constante trapalhada” com que se gerem processos que deviam ser banais e sem história.

O caso dos boletins de voto que foram impressos com 14 nomes para uma eleição onde apenas 11 foram formalmente admitidos é algo de inimaginável até ao momento em que se torna realidade.

Protagonistas: o Parlamento, que faz as leis, e o Tribunal Constitucional, a Comissão Nacional de Eleições e a secretaria-geral do Ministério da Administração Interna, que têm que as aplicar quando se trata de processos eleitorais.

O que nos levou a este desfecho está descrito timtim por timtim num comunicado da Comissão Nacional de Eleições – os burocratas são sempre excelentes a fazer a autópsia da desgraça que não conseguiram evitar, sobretudo quando podem apontar as responsabilidades aos burocratas do lado.

Resumindo: para que os boletins de voto sejam impressos e cheguem atempadamente a todas as representações portuguesas espalhadas pelo mundo para o voto dos emigrantes, a definição dos nomes que neles vão constar tem que ocorrer antes do processo de validação das candidaturas.

Foi assim que o Tribunal Constitucional, tendo recebido 14 candidaturas, fez primeiro o sorteio da ordem dos nomes no boletim antes de verificar a conformidade de todas. Só depois concluiu que três dessas candidaturas seriam excluídas por não respeitarem as regras. Mas aí já era tarde, as rotativas já estavam em marcha.

Não estranhe, por isso, quando exercer o seu direito de voto. O primeiro nome que aparece no boletim é o de Ricardo Sousa. Mas este não conta. É a fingir. Tal como os nomes de Joana Amaral Dias e o de José Cardoso. Nenhum dos três foi admitido, mas lá estarão os seus nomes e fotografias no meio dos restantes 11 – esses sim, legítimos candidatos.

Não é a primeira vez que isto acontece. Nas eleições presidenciais de 2021, o boletim de voto também incluiu o nome de um candidato não admitido: Eduardo Baptista. Como é que, em cinco anos, as doutas e respeitáveis instituições envolvidas não encontraram uma forma de resolver este complexo problema que desafia as mentes mais brilhantes do planeta:  como definir um calendário do processo eleitoral que evite esta degradante vergonha?

Talvez pedir ajuda a Cristiano Ronaldo? Seja como for eu não me sentaria numa cadeira da IKEA que tivesse sido montada por estas entidades. Processos básicos não são o ponto forte delas.