Muita gente tem avisado para o risco de voltarem os défices orçamentais. Não foram apenas comentadores. Foi também o governo. A ameaça de as contas resvalarem parece agora ser a sua principal arma para dissuadir os outros partidos de sobrecarregarem o orçamento. Não sabemos se esse risco será levado a sério. É provável que não. O próprio governo, com os seus “aumentos”, não o tem levado a sério. Que se passa?
O PS fez do Estado um instrumento de clientelização eleitoral de grupos como os reformados ou os funcionários públicos. Ainda hoje, graças a isso, o PS é a primeira opção eleitoral dos mais velhos. Isto é por vezes descrito em tons de fado: não seria possível outra política em Portugal, a não ser a de aumentar pensões e de empregar mais funcionários, por mais que custe ao país. Acontece que não é verdade. Em Maio, o eleitorado reduziu o PS à sua expressão mínima. A ansiedade com a imigração descontrolada, a insegurança e a estagnação económica anulou o efeito da expansão orçamental. Já não basta aumentar pensões e criar empregos no Estado. Perante tal evidência, os dirigentes do PSD, enquanto maior partido, podiam ter-se proposto reunir os partidos não-socialistas à volta de reformas que correspondessem à vontade de mudança do eleitorado. Não se trataria de uma maioria de afinidades ideológicas ou de simpatias pessoais, mas de uma maioria organizada para viabilizar reformas decisivas. Com isto, o PSD não estaria apenas a exercer liderança, mas a dar à política o sentido e a disciplina que só lhe podem vir de um projecto claro.
Montenegro e os seus companheiros não foram por aí. Preferiram instalar-se como governo minoritário, e passar a mercadejar apoios avulsos entre o PS e o Chega, em nome da “estabilidade governativa”. É verdade: declararam o Chega “normalizado”. Mas apenas para efeitos de ocasional contrapeso aos socialistas. Puseram-se assim numa posição conhecida: é a do presidente Macron em França. Tal como Macron, fizeram da governabilidade o único princípio político: o que importa é que haja governo, e não que haja país. Em França, isso significou, esta semana, sacrificar a única reforma estrutural dos dois mandatos presidenciais de Macron: para se sustentar com os votos dos socialistas, o governo vai anular o aumento da idade de aposentação. A França, no entanto, está a alarmar os mercados com o seu descalabro financeiro. Que política é esta, que fez da “estabilidade governativa” um sinónimo de irresponsabilidade?
A recusa do PSD em liderar a maioria de direita que o país elegeu em Maio reduziu tudo a jogos parlamentares à volta de um governo minoritário, e destruiu qualquer sentido de responsabilidade. Devemos admirar-nos que ninguém resista ao disparate? O governo faz anúncios estapafúrdios, de “tutores de IA”. O Chega trata todos os outros partidos como iguais: é tudo do “sistema”. A IL inventou “linhas vermelhas” que só se aplicam ao Chega, mas não, como se vê em Beja, aos comunistas, isto é, aos partidários de Putin e da Coreia do Norte. Beja vai ter um governo de coligação PSD, CDS, IL e PCP. Na Assembleia Municipal de Lisboa, a maioria de direita elegeu uma mesa de esquerda. Não são acidentes: é o que acontece quando não há líderes, e só há intriguistas.
Não quero assustar ninguém, mas isto vai ficar caro. A razão é esta: os únicos ingredientes que permitem levar partidos sem um projecto comum a tolerar um governo minoritário são a despesa e o “deixa-andar”. Só nisso se podem entender. Em Maio, os portugueses quiseram romper com trinta anos de socialismo. O sistema, porém, não responde ao estímulo eleitoral que recebeu. Falta o quê? Liderança política, ou mais exactamente, liderança política no PSD.