25 de Abril

O Governo Ensombrado vai ao circo

Autor
  • Manuel Castelo-Branco
3.297

Se hoje é possível um programa como o Governo Sombra, foi porque o Copcon de Otelo não vingou. Porque apesar de serem “apenas” 17 vítimas mortais, as FP25 foram desmanteladas e os seus membros presos.

Domingo de Páscoa – um dia de família. Já terminado o festejo pascal, ligo a televisão e vejo Otelo Saraiva de Carvalho – Óscar – convidado do Governo Sombra, programa emitido pela TSF e TVI24, para falar, pasme-se, sobre o 25 de Abril, a liberdade e democracia. Otelo, esse mesmo, o líder do Copcon, responsável pela emissão de vários mandados de captura em branco e pela criação das Forças Populares 25 de Abril/FP-25A, julgado e condenado no tribunal, pelo assassinato de 17 vitimas inocentes.

Meritório, os autores fazerem um programa sobre o 25 de Abril, a democracia e a liberdade. Muito questionável, o facto de terem convidado a personagem que mais atentou contra esses valores: pelo medo e força das armas – Otelo Saraiva de Carvalho.

Otelo não é um herói, como foi apelidado pelo moderador de sorriso cúmplice no semblante. Heróis foram outros, mesmo que anónimos, mesmo que reconhecidos tardiamente. Heróis foram todos os que defenderam a liberdade e a justiça, que lutando contra Otelo Saraiva de Carvalho, seja contra Copcon, mas principalmente contra as FUP/FP25, anularam a força dos seus ideais e o poder das suas armas. Heróis foram todos os que pagaram com a vida, desde Policias, GNRs, agentes da Direcção Geral do Combate ao Banditismo, juízes, procuradores, altos funcionários do Estado, que cumprindo o seu papel com empenho, dedicação e sentido de dever, defenderam o Estado de Direito. Heróis foram ainda os empresários, gente anónima ou um bebé inocente, morto num atentado à bomba, e classificado pela organização como um erro técnico. Heróis foram também as viúvas, os órfãos, os irmãos, pais, familiares violentados na perda, da qual nunca recuperaram.

E se hoje é possível um programa como o Governo Sombra, foi porque o Copcon de Otelo não vingou. Porque apesar dos vários mandatos de captura em branco, as prisões arbitrárias, existiu um 25 de Novembro, que repôs os valores do Estado de Direito.

Porque apesar de serem “apenas” 17 vítimas mortais, assassinadas de forma covarde e à queima roupa, sete baleados, felizmente falhados, que não resultaram em vítimas mortais, mais de 20 atentados à bomba, assaltos a bancos, ameaças, intimidações e coações e extorsões, as FP-25A foram desmanteladas, os seus membros presos, julgados e condenados. E, no entanto, apesar de nunca se terem arrependido, pedido desculpa às vítimas ou sequer renunciado à luta armada, foram indultadas e amnistiadas, não chegando por isso a cumprir a totalidade da pena

Otelo, não é um herói da liberdade — não foi por causa dele, que hoje vivemos em liberdade e democracia, mas foi apesar dele, que a conquistámos. As FP-25A não foram o custo da estabilização do regime democrático e muito menos a face negra da revolução. Foram antes consequência das acções lideradas por este homem, que se aproveitou de um Estado fraco para tentar conquistar o poder, pelo medo e a força das armas.

Escusado foi por isso o estilo de avozinho pândego, meio inofensivo e com certeza muito divertido, despertando sorrisos e cumplicidades à direita e à esquerda entre os presentes.

Este homem representa o pior que existiu em Portugal no pós 25 de Abril. Fazer o 25 de Abril não dá créditos para assassinar, intimidar ou extorquir. Imagino que os participantes do programa também saibam isso, mas preferiram ceder ao circo mediático e ao humorismo fácil. O que ganharam em audiências perderam em credibilidade e autoridade.

Convidar o chefe de um bando de assassinos, bombistas e assaltantes de bancos, é em primeiro lugar, ofender as famílias daqueles que perderam um ente querido, mas principalmente é recontar a história da liberdade e democracia. Não o confrontar com o passado das FP-25A é ser cúmplice numa narrativa onde os assassinos são elevados à categoria de heróis e as vitimas de vilões. Pedir-lhe um autógrafo no final, em memória de uma tarde bem passada – como fez um dos comentadores – entra no reino da cumplicidade, conivência e irresponsabilidade.

Ao mesmo comentador, personagem que, desde há anos, me habituei a ler e seguir com interesse, bastante assertivo às permanentes faltas de ética, ausências de sentido de Estado e erros na justiça – o mesmo que pediu um autógrafo ao avozinho pândego, mas nem por isso inimputável, precisa que lhe relembremos um pouco de história.  De facto, o ponto alto do programa é quando Otelo/Óscar diz que esteve preso injustamente cinco anos, ao que o referido comentador, sentado à sua direita, diz “sim, eu sei”. Terá sido um indesculpável lapsus línguae, uma ironia que não captei ou então o maior exercício de hipocrisia que conheci até hoje. Deixo-lhe aqui, alguns excertos que constam do processo público do julgamento e condenação de Otelo Saraiva de Carvalho e seus cúmplices na organização terrorista FP 25A:

  •  “ESTÁ PROVADO que o Projecto Global/FP 25 fundado e dirigido por Otelo Saraiva de Carvalho, Pedro Goulart e Mouta Liz e outros é uma organização terrorista armada…” *
  • “ESTÁ PROVADO que esta Organização terrorista visava a destruição, pelas armas, do regime democrático português, constituindo em Portugal, uma organização de terrorismo urbano….”*
  •  “ESTÁ PROVADO que os réus terroristas se propunham a criar a instabilidade permanente em Portugal, pondo em causa a paz pública e a economia nacional, bem como as instituições do Estado”*

O processo das FP-25A foi o maior falhanço da justiça, desde o 25 de Abril. Os crimes foram julgados e provados em tribunal — apesar da sentença nunca ter transitado em julgado – mas os seus membros não cumpriram a totalidade da pena. Foram indultados e mais tarde amnistiados, por crimes que nunca se arrependeram. A amnistia pode ser jurídica, mas a memória não pode nem deve prescrever.

Filho de umas das 17 vitimas assassinadas pelas FUP/FP 25 de Abril

*Caso FP-25 de Abril –  Alegações do Ministério Público – Ministério da Justiça

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