Luís Montenegro chegou Primeiro-Ministro com o objectivo político de refrear o crescimento do Chega. A estratégia seguida foi a de tentar resolver os problemas concretos das pessoas e dar respostas às maiores preocupações da sociedade portuguesa. Sem querer pôr em risco a política de consolidação orçamental, o governo subiu pensões e pagou reivindicações antigas. No meio alterou a lei dos estrangeiros, o que foi popular e se resume a uma alteração legislativa. Ou seja, não alterou interesses instalados. No entanto, e ao contrário do que seria suposto, o CH continua em rota ascendente: nas últimas legislativas, tornou-se a principal força política da oposição e André Ventura é apontado praticamente como certo na 2.ª volta das presidenciais. Se aí obtiver 30% dos votos, André Ventura fica uma percentagem que serve de alavanca para as legislativas. Como é que isto aconteceu?
Essencialmente, o governo nunca fez política e preferiu ser aceite como amigo do eleitorado. Pelo menos daquele que compõe a maioria. Ora, isso pressupõe não fazer grandes reformas, pois estas são impopulares. Se as implementasse o governo arriscar-se-ia a ter manifestações na rua, desta vez lideradas pela direita do CH. Ao se ficar pelo meio-termo, o governo limita-se a comprar tempo à espera de um milagre. De algo. O quê? Não sabemos. Nem o próprio governo sabe. É mesmo só esperar que alguma coisa aconteça.
Além de impopular, fazer reformas obriga que um governante faça política. As reformas requerem tempo. Também que as pessoas as percebam e as aceitem. Para isso os governos e os políticos têm de se convencer que não vivem tempos normais. Que os problemas não se resolvem com tostões e trocos. Que precisam de ser políticos. De fazer política. De falar com as pessoas. É indispensável que criem empatia. Que sejam verdadeiros, que errem e que não tenham vergonha disso. André Ventura está farto de errar e de se enganar. Poucos se importam com isso. Porquê? Porque, com esses erros, Ventura mostra-se como um político igual às pessoas que vêem nele alguém que lhes parece genuíno. Pode não ser. Não acredito que seja, mas a maioria julga que sim e isso é o que interessa quando fazemos política. Convencer a população a seguir um caminho determinado.
Convencer os cidadãos que as reformas significam sacrifícios, mas que no fim seremos recompensados. Montenegro não faz isto. Nem tem este discurso. É um governante de outro tempo em que o papel de um governante era distribuir benesses. Mas já não é só isso que se trata quando falamos de governos e de política. Ser político hoje é, acima de tudo, reconhecer uma identidade, indicar um caminho e percorrê-lo. Com cautela, mas também com confiança. Com vontade. Com gosto pelo incerto.
Sem rumo nem destino e menos ainda para oferecer que não seja ganhar tempo, o governo fica nas mãos de terceiros. Mais propriamente dos resultados das presidenciais. Como referi em cima é provável que numa 2.ª volta André Ventura consiga uma percentagem que torne possível uma vitória sua nas próximas legislativas. É o suficiente para que Ventura sinta a pressão popular para derrubar o governo quando for oportuno fazê-lo. Não o conseguirá sem o apoio do PS. Mas, por cada vez que o PS segurar este governo enfraquecido, André Ventura ganha mais votos. Com a continuação da deterioração dos serviços públicos (que o governo não resolve), haverá num momento em que os socialistas cedem. Nessa altura, termina o período de instabilidade política que mais não tem sido que a transição para o Chega do papel central que PS e PSD detinham na democracia portuguesa.
É curioso como as presidenciais de ’86 tenham marcado o fim de uma era na política e o início de outra mais tecnocrática, enquanto as próximas presidenciais serão o ponto de partida para o caminho inverso: o fim da política dos números e das estatísticas e o início do debate de ideias, do confronto ideológico e do combate cultural. Quem não perceber esta mudança ou não estiver pronto para ela pode sempre ir-se embora.