Depois da primeira volta do sufrágio presidencial, a pergunta que se impõe é a seguinte: que ilações e lições tirar das eleições? Esta é a questão a que é necessário responder. “Sim, mas havia alguma necessidade de formular a questão com recurso à paronomásia, à assonância e até à ligeira aliteração”, perguntarão. E é aqui que me perdem, pois não percebi nada do que disseram. Eu vim cá hoje mais para falar de Seguro e Ventura.
Começando por Seguro. No discurso de vitória, o compagnon de route de Guterres, Sócrates e Costa, não tendo coisa alguma substancial para dizer, mas falando imenso como é timbre dos medianamente dotados que aspiram a soar a estadista, acabou por abordar um ponto que revela bastante mais daquilo que ele representa do que o próprio imagina. Disse Seguro que convida todos a unirem-se para derrotar “os extremismos e quem semeia ódio”.
Ora, vamos lá então ao momento TV Rural desta semana, para explorar a problemática da sementeira do ódio. Para começar, o ódio tem péssima imprensa. Chamem-me esquisito, mas eu tenho profunda aversão, por exemplo, à excisão feminina. E possuo também enorme repulsa pela castração química de crianças. São coisas pelas quais sinto mesmo, posso dizê-lo, ódio. Já António José Seguro, não sei se partilhará do meu ponto de vista, mas suspeito que o profundo “humanismo” de um confesso “progressista” e mais do que presumível fã do multiculturalismo, o levaria a exigir cautela na abordagem de tão multifacetados temas, no fundo não tendo coisa alguma substancial para dizer, mas falando imenso como é timbre dos medianamente dotados que aspiram a soar a estadista.
Agora, que se está a criar um enorme consenso — com sonsos, também, como é óbvio — em torno da figura do choninhas António José Seguro, está. O que não espanta, desde logo porque nestes tempos de historicamente diminutos níveis de testosterona, chonice é virtude. Mais ainda se praticada com afinco e não meramente sinalizada. A verdade é que está a aparecer gente de todo o lado para apoiar Seguro. O socialismo não punha tanta gente a mexer desde que até tetraplégicos saltaram, em rolamento dorsal, os escombros do recém derrubado Muro de Berlin.
Deste vasto elenco de figuras, constam quase todas as figurinhas que estão entre os mais directos responsáveis pelo atraso de vida do país os últimos 30 anos, claro, mas também alguns cristãos-novos, nomeadamente da Iniciativa Liberal. E se para os primeiros o caminho foi bem curto, para boa parte dos segundos foi, no mínimo, incrível: o sprint que várias figuras destacadíssimas da IL fizeram para, num ápice, irem dos louvores ao “¡Viva la libertad, carajo!” de Milei, ao apoio incondicional ao gestor socialista da nossa decadência, Seguro, foi de fazer corar de inveja o Usain Bolt.
Já se me pedem opinião sobre a eventual presidência de Seguro, diria que ao Presidente dos afectos era bom para Portugal não suceder o Presidente dos cuidados paliativos. O “mais valer prevenir do que remediar” é muito giro, mas dá jeito que o paciente ainda tenha batimento cardíaco.
Depois, há André Ventura, cujos defeitos me escusarei a enumerar. Para isso trabalha diária e afincadamente a esmagadora maioria da comunicação social portuguesa, naquilo a que se pode chamar uma, digamos, União Nacional para malhar no Ventura. Ora, como não sou fã do conceito, opto por realçar uma característica do líder do Chega que julgo difícil de contestar: a coragem. Sendo que indivíduos algo mais proeminentes do que eu, ainda que muito menos bonitos, tipo C.S. Lewis, diriam que a coragem não é simplesmente uma das virtudes, mas a forma de todas as virtudes quando estas são postas à prova, ou seja, quando há risco e perigo real.
Sim, de facto o Evil Knievel também era um tipo corajoso, e não é por isso que conduzir uma mota através de uma rampa com o intuito de transpor o Grand Canyon seja o melhor exemplo de como conduzir um país e respectiva gente. Mas não é menos verdade que, neste mesmo país, cada vez mais gente sente ter pouco a perder. Além de que, em terra de cegos, quem hesitaria ser conduzido pelo estrábico míope com princípio de cataratas que atire a primeira pedra. Mas não para cima do estrábico míope com princípio de cataratas, se faz favor.
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