Esta semana, ficámos a saber que a CGTP quer “a Paz”. Atenção: não quer “a paz”, em minúscula, porque isso seria uma demonstração de fraqueza reivindicativa — quer “a Paz”, em maiúscula, porque na vida todos temos de ser ambiciosos. Foi, então, com maiúscula que “a Paz” apareceu num dos cartazes empunhados por um jovem na manifestação organizada há dias, de forma conjunta, pela CGTP e por uma entidade denominada Conselho Português para a Paz e Cooperação, sob o original lema “Paz Sim! NATO Não!”.

Na convocatória emitida pela CGTP, explica-se que “a guerra é cada vez mais intensa em diversos pontos do mundo”, revela-se que “a União Europeia aposta na continuação dos conflitos”, gesticula-se contra o “discurso belicista” e vocifera-se contra a “escalada militarista”. O “Grande Satã” desta manifestação foi, como já se percebeu, a NATO. Dinis Lourenço, orgulhoso membro do conselho nacional da CGTP, denunciou que esta aparentemente odiosa organização tem sido “um fator de desestabilização e de ingerência por todo o mundo”.

Algumas almas mais delicadas poderão olhar para tudo isto com perplexidade. Por um lado, a NATO não interfere nas relações laborais, não dita o valor do salário mínimo, nem se senta no Conselho Económico e Social. Por outro lado, os patrões portugueses não têm a capacidade de influenciar o “militarismo” da NATO, ou a falta dele. Sendo assim, sobra a pergunta palpitante: o que é que uma central sindical tem a ver com a NATO? Vocês respondem: nada. Eu respondo: tudo.

Esta história é muito velha — é a história de um truque que o PCP aplica com diligência e disciplina há 75 anos. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética começou a preparar o seu confronto particular com o Ocidente. Para enfraquecer a unidade das opiniões públicas na Europa e nos Estados Unidos, Moscovo ordenou aos partidos comunistas locais que criassem e dinamizassem movimentos “pela Paz”. Era uma “causa” que podia juntar toda a gente: novos e velhos, gordos e magros, cabeludos e carecas — e, mais importante do que isso, comunistas e não comunistas. Afinal, quem, no seu perfeito juízo, poderia ser contra “a Paz”? Quem, exceto um incorrigível fascista, poderia ser contra as flores e as pombinhas? Ninguém, claro — e esse era o ponto. Os cartazes exigiam “a Paz”, mas, na verdade, o que esses movimentos pretendiam era pressionar pela desmilitarização dos países ocidentais para que eles ficassem incapacitados de resistir à expansão da União Soviética.

A tática foi a mesma em todo o lado — incluindo em Portugal. Para tentar juntar o máximo de pessoas possível à volta desta “causa”, incluindo os muito apropriadamente chamados “idiotas úteis”, foram criadas organizações de fachada que eram, na realidade, comandadas de forma ventríloqua pelo PCP. Em agosto de 1950, os comunistas portugueses ergueram a primeira Comissão Central da Comissão Nacional para a Defesa da Paz. Depois do 25 de Abril, surgiu, funcionando da mesma forma telecomandada, o Conselho Português para a Paz e Cooperação. O truque era sempre o mesmo: o PCP mandava, mas não aparecia.

Apesar de tudo, as pistas estão lá. Se perdermos um minuto a olhar para os órgãos sociais do Conselho Português para a Paz e Cooperação, percebemos que a presidente da direção nacional é Ilda Figueiredo — foi candidata autárquica pelo PCP às câmaras do Porto, Gaia e Viana do Castelo; foi eurodeputada; e pertenceu ao comité central do partido. Percebemos que uma das vice-presidentes é Deolinda Machado — foi candidata pelo PCP a autarquias e ao Parlamento. Percebemos que uma das vogais é Ana Sofia Calado — foi candidata à Assembleia da República pelo Partido Ecologista Os Verdes, outra organização benemérita que não sobreviveria sem o oxigénio comunista. E percebemos que na direção nacional se encontra Isabel Camarinha — ex-secretária-geral da CGTP.

E assim se completa o círculo: Isabel Camarinha é militante do PCP; depois ocupa a liderança da CGTP; a seguir, aparece na direção do Conselho Português para a Paz e Cooperação; e agora organiza a manifestação desta semana, que juntou, de forma harmoniosa, precisamente a CGTP e o Conselho Português para a Paz e Cooperação. Um espírito incauto que tenha lido as notícias sobre este protesto viu as referências à CGTP e ao Conselho Português para a Paz e Cooperação, mas não encontrou nunca qualquer vaga indicação relativa ao PCP, que é o principal interessado numa manifestação que serve inteiramente os seus propósitos políticos.

É tudo uma grande ilusão, especialmente útil quando, como agora, os comunistas perdem força eleitoral. Parece que são muitos, mas na verdade são sempre os mesmos. Só espanta que o PCP ache que, ao fim de 75 anos, continuamos a cair em histórias da carochinha.

Ouça “O Bom, o Mau e o Vilão”, com Miguel Pinheiro, de segunda a sexta na Rádio Observador, pelas 8h20, ou a qualquer hora em podcast.