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É verdade que o Dr. Francisco Louçã, com aquele ar de superioridade moral com que sempre fala ou, melhor dizendo, ensina o povo imbecil que, para ele, somos todos nós, foi muito indelicado no modo como se referiu à corajosa intervenção, na Assembleia Municipal de Lisboa, da Professora Doutora Aline Hall de Beuvink, deputada do PPM. O Dr. Louçã, que evidentemente sabe tudo, não sabe História, nem como se deve comportar um professor universitário, que também é Conselheiro de Estado e do Banco de Portugal. É pena.

A irritante arrogância do Dr. Louçã, a que a SIC deu cobertura sem contraditório, tem tudo a ver com a ideologia que professa. De uma teoria política responsável por mais de cem milhões de vítimas, em todo o mundo, não se esperam, como é óbvio, boas maneiras. Portanto, esta não é uma questão pessoal – o Dr. Louçã merece, como qualquer ser humano, todo o respeito – mas ideológica, que decorre da natureza anti-humanista e antidemocrática da sua opção política.

O socialismo do Dr. Louçã parece-se tanto ao nacional-socialismo do Dr. Goebbels que, “no passado dia 19 de Setembro [de 2019], a União Europeia colocou comunismo e nazismo em pé de igualdade, depois de aprovar no Parlamento Europeu uma resolução condenando ambos os regimes por terem cometido ‘genocídios e deportações e foram a causa da perda de vidas humanas e liberdade em uma escala até agora nunca vista na história da humanidade’” (Observador, 15-10-2019). Os totalitarismos manipulam as pessoas, também pela linguagem e, como são peritos em desinformação, fizeram crer que o comunismo é – imagine-se – democrático! Mas, desde quando é que o marxismo-leninismo, seja ele trotskista, estalinista, maoísta ou outro, foi alguma vez democrático?! Quando é que alguma vez, na História, um país comunista foi democrático?! Quando é que um comunista, estalinista ou trotskista, foi democrata?!

É triste que, depois do estrondoso fracasso do comunismo, em todos os países do mundo em que foi implantado, sempre à força, ainda haja quem o defenda. Mas não é menos lamentável que, também agora, não falte quem exalte as falsas virtudes democráticas e antifascistas do comunismo. É verdade que lutou contra o regime de Salazar, mas também contra o regime democrático instaurado a 25 de Abril. Se fez frente ao Estado Novo, foi para implantar outra ditadura, de que o PREC foi exemplo. Devemos estar gratos ao assassino, que nos defende de outro assassino, para depois nos matar?! Devemos agradecer a Hitler, por ter lutado contra Stalin, e vice-versa?! Não se pense que o comunismo contemporâneo já nada tem a ver com essas práticas antidemocráticas porque, em Novembro passado, no último congresso do PCP, o pré-histórico Albano Nunes afirmou que o capitalismo tem de ser derrubado pela força (DN, 27-11-2020). Que democracia é esta, que quer impor pela força o que nunca conseguirá pelo voto?!

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O Dr. Louçã, não tendo podido negar o que a deputada do PPM corajosamente disse, na Assembleia Municipal de Lisboa, truncou a sua intervenção e refugiou-se na troça, que é o elogio que o vício presta à virtude. Se de alguma crítica é passível o discurso da erudita e destemida deputada municipal não é certamente por excesso, mas por defeito. Sim, Dr. Louçã, comeram-se criancinhas e não foi apenas no terrível Holodomor.

Quando, em 1958, Mao Zedong (melhor seria chamá-lo Péssimo Zedong!) lançou o ‘Grande Salto em Frente’, trinta milhões de chineses morreram à fome. Tão dramática situação provocou inúmeros casos de canibalismo, a que também está associado o regime de Pol Pot, no Cambodja: “Pin Yathay refere dois exemplos concretos: uma ex-professora que devorou parcialmente a irmã e, numa enfermaria de hospital, a partilha do cadáver de um jovem” (O Livro Negro do Comunismo, Quetzal, p. 689). Está a ver, Dr. Louçã? Afinal, isto de comer criancinhas não é nenhuma lenda reacionária, para assustar papalvos, mas a verdade histórica sobre os regimes comunistas, que a tanto obrigaram os que condenaram à morte pela fome. Não é um mito do anticomunismo primário, mas uma verdade de que os comunistas, não tendo a coragem de reconhecer, fazem troça. Que vergonha!

Não obstante esta hipocrisia, há uma coisa que todos nós, quaisquer que sejam as nossas opções ideológicas ou preferências políticas, devemos agradecer ao Dr. Louçã. Sim, digo-o sem ironia: Portugal deve estar grato ao Dr. Louçã. Porquê? Muito simplesmente porque, defendendo o socialismo, na sua expressão mais autoritária, recordou-nos uma coisa de que muito boa gente anda esquecida e que, afinal, é óbvia: o Dr. Louçã e o Bloco de Esquerda (BE) são comunistas.

Obrigadinho, Dr. Louçã, por desmentir tão categoricamente a actual dirigente do seu partido que, numa lírica tentativa de branqueamento ideológico, disse que “o programa do Bloco é social-democrata” (Observador, 2-9-2019)! Por este andar, qualquer dia afirma que o BE é democrata-cristão, à conta do deputado Pureza, que se diz católico. Obrigadinho, Dr. Louçã, por desmascarar os sorrisinhos sonsos com que as irmãzinhas Mortágua disfarçam o mais hediondo regime totalitário. Obrigadinho, Dr. Louçã, por nos recordar que a linha que separa os partidos democráticos dos que o não são, não existe apenas na direita, mas também na esquerda e é a fronteira que o Dr. Mário Soares nunca atravessou, porque sabia bem, pela sua experiência pessoal e pelo PREC, que qualquer comunismo – seja do PCP ou do BE – é um totalitarismo que se opõe, na teoria e na prática, à democracia.

Obrigadinho, Dr. Louçã, por nos ensinar que, afinal, os comunistas não comiam criancinhas ao pequeno-almoço. Tem toda a razão: também comeram jovens e adultos e não foi só ao pequeno-almoço, mas sempre que não havia mais nada para comer, com excepção das criancinhas, como acontece com frequência nos países comunistas. Por favor, não negue a evidência histórica desta monstruosidade, a que o comunismo obrigou os milhões de inocentes que condenou ao canibalismo, para não morrerem à fome. Respeite as vítimas e a verdade e, já agora, aprenda com a deputada e Professora Doutora Aline Hall de Beuvink, que não só sabe a História de que, talvez por ignorância, escarnece, como sofreu na sua própria família os horrores do Holodomor. E, por favor, não desista nunca de nos ensinar e educar, porque nós, o povo estúpido e ignorante, estamos muito gratos pelas suas magistrais lições.  

ESCLARECIMENTO

  1. Numa reportagem da SIC, transmitida no passado dia 6, fui referido como sendo próximo da extrema-direita e do Chega o que é, obviamente, falso. Lamento o pouco profissionalismo e ética de quem, para este efeito, não só abusou da minha boa-fé, como tergiversou as minhas declarações, que reduziu à sua mínima expressão e descontextualizou, por forma a concluir falsamente a minha proximidade ao Chega.
  2. Ao contrário do que se faz supor, não tenho nenhuma relação com nenhum partido político, nem nunca falei com o presidente do Chega. Ao contrário da extrema-direita xenófoba, sempre fui contra a discriminação étnica (Observador, 20-2-2021).
  3. Sou, por opção pessoal e vocação sacerdotal, distante de todos os partidos e próximo de todas as pessoas: já aqui publicamente elogiei o humorista Ricardo Araújo Pereira, ateu confesso e comunista (Observador, 29-6-2019), e até ‘canonizei’ Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda (Observador, 6-10-2018). Sou pela verdade, sem ser contra ninguém.
  4. Como qualquer cristão coerente, sou contra a eutanásia, que é uma questão moral, mais do que política. Se, por isso, sou próximo do Chega, também o sou do PCP, que é igualmente contrário à eutanásia. Sempre agi em sintonia com o magistério da Igreja e as directrizes da Conferência Episcopal Portuguesa. Sempre estive unido ao Papa Francisco e, nessa entrevista, explicitamente o defendi, negando que estivesse a prestar um mau serviço à Igreja, segundo acusação formulada pelo presidente do Chega.
  5. Ao contrário do que se diz nesse documentário, na última eleição presidencial defendi publicamente o candidato Rebelo de Sousa, pressupondo que é contra a eutanásia, por ser um católico coerente, apesar dode o actual Presidente o não ter dito explicitamente. Com efeito, Ventura e o candidato do PCP, foram os únicos que declaramdeclararam ser contra a eutanásia. É óbvio que o candidato do Chega teria ficado beneficiado, se eu o tivesse apresentado – como poderia ter feito, segundo as declarações dos próprioscandidatos presidenciais ao Público de 14-1-2021 – como o único candidato presidencial merecedor do voto dos católicos, o que não fiz, para não restringir a liberdade de voto dos católicos. Nessa crónica (Observador, 16-1-2021), procedi “em defesa da liberdade das consciências”, denunciando “o clericalismo dos que, em nome da fé, querem impor aos católicos o voto da sua preferência”. Dois anos antes, já tinha escrito o que desde sempre defendi: “A fé não deve ser instrumentalizada a favor de nenhum partido. Não há, nem pode haver, um ‘voto católico’, mas os cristãos devem votar de forma coerente com a sua fé (Observador, 28-9-2019).
  6. Sendo uma presença habitual na imprensa portuguesa há já vários anos – com várias centenas de artigos de opinião no Público, I, Observador, etc. – só por crassa ignorância, ou manifesta má-fé, posso ser referido como próximo de qualquer partido da extrema-direita, da direita, do centro, da esquerda ou da extrema-esquerda.