Ao longo da minha vida profissional tenho lidado com estrangeiros que escolheram Portugal para investir ou viver. Vêm de todo o lado. Dos EUA ao Japão, do Reino Unido à Alemanha, da Suécia à Holanda, da Austrália a Israel. Portugal é um país pacífico com um clima fantástico, está dentro da União Europeia e fica a meio caminho para os EUA. Encarado nesta perspectiva não há lugar no mundo melhor para se viver que este canto à beira-mar plantado. Mas há um pormenor que volta não volta ouço dos estrangeiros com quem contacto, um facto que não deixo de registar: Portugal não é sítio para se ganhar muito dinheiro. Quem queira ficar rico não vem para cá; quem queira montar uma grande empresa escolhe outro país ou vai-se embora. Portugal não é lugar para grandes ambições, sonhos, empreendimentos. É o ideal para projectos pequenos ou pequenos departamentos de grandes projectos. É o que sobra aos que não conseguiram chegar ao topo ou o início do descanso dos que sonham com a reforma.

Porquê? Por que motivo as grandes empresas não domiciliam cá as suas sedes, os grandes empresários não se mudam para Cascais ou para o Algarve? Por que razão em Portugal não se cria riqueza com o trabalho?

Há dias a RTP transmitiu o debate que Mário Soares e Álvaro Cunhal protagonizaram para a televisão francesa, quatro meses antes do famoso confronto do “Olhe que Não”. Foi há 45 anos. No entanto, e tirando o registo histórico que é os dois falarem francês, o que se retira do confronto entre aqueles políticos é que debateram o sexo dos anjos. Discutiram o que era a essência do socialismo, quais seriam as verdadeiras forças democráticas e ainda os contra-revolucionários de direita que queriam derrubar a democracia que os comunistas defendiam. É interessante, e confrangedor ao mesmo tempo, darmos conta que passámos (perdemos é a expressão) décadas a discutir isto. Décadas para nos convencermos que aquilo não interessava, não nos era útil, não nos permitia viver melhor. Que nos prejudicava e nos empobrecia. Mas o pior nem é o tempo que perdemos. O pior é o tempo que perdemos para nada. É a noção do desperdício de tempo que se torna exasperante.

Se em 2020 ligarmos a televisão (agora privada e que Cunhal qualificaria de amiga do grande capital) deparamo-nos, por exemplo, com Francisco Louçã e Ana Gomes como comentadores de eleição. Não há dia em que alguém do PCP ou do BE (ou deste PS) não esteja na televisão a defender políticas falidas, discursos corrosivos da liberdade, formas de pensar distorcidas, que têm em comum o objectivo de delimitar a liberdade individual, a possibilidade dos cidadãos trabalharem condignamente, de investirem como se não fosse o pecado que já nem o catolicismo condena. Vivemos numa democracia e há total liberdade de expressão. Não é contra isso que me insurjo, mas sim contra a má-fé e o cinismo das suas intervenções, como continuamente caímos no erro de responder a declarações que revelam ignorância ou má-fé e que visam apenas direccionar a discussão, centrando-a nesses disparates por forma a esquecer os temas e soluções importantes. Escutar Cunhal, 45 anos depois, causou-me uma impressão imensa porque cresci com o espectro do líder-que-ninguém-se-atrevia-a-contestar do PCP. Já o tinha esquecido, mas ao ouvi-lo de novo dei-me conta que não se foi embora. O preconceito (a ideia previamente formada sobre um assunto ou alguém sem um fundamento sério que a sustente) continua nas acusações subliminares, nas afirmações que se baseiam em crenças e que são apenas isso, crenças, nas frases enviesadas e no tempo que perdemos a rebater o que não passa de um truque de retórica cujo objectivo é o de nos fazer perder tempo. O de esquecermos o essencial e nos afundarmos nos pormenores, factos secundários, pessoas, estados de alma e nunca no que importa.

Atente-se no descaramento que é a crítica ao acordo do PSD com o Chega nos Açores, ao mesmo tempo que se acha normal o do PS com o BE e o PCP. Uma duplicidade de critérios que estou à vontade para apontar, na medida em que até sou crítico de uma geringonça de direita. Uma duplicidade de critérios tão óbvia, que é ofensiva e de que há múltiplos exemplos: o SNS está em ruptura e o Governo não negoceia com os privados porque receia a comprovação implícita do sector privado; a pandemia está descontrolada porque as pessoas não se portaram bem, e não porque desde Abril o Governo não preparou o país para a segunda vaga; falta dinheiro para o SNS e o apoio escolar, mas há para a TAP só porque um ministro acha que o estado deve ter aviões. Na Noruega o governo recusou-se a conceder mais ajudas financeiras à Norwegian Air Shuttle. Fê-lo, porque os governantes se consideram responsáveis pelo destino do dinheiro público, que vem dos contribuintes a quem respondem politicamente. No fundo, a essência do que deve ser uma democracia. Em Portugal, porque continuamos no mesmo esquema mental de há 45 anos, há quem ainda se recuse a aceitar que Estado social não é ter aviões, mas proteger os desfavorecidos. Na Noruega os níveis de corrupção são ínfimos. Por algum motivo é considerado o sétimo país menos corrupto do mundo. Já em Portugal, onde é questionável enriquecer fazendo negócios, se enriquece corrompendo um sistema que pune e liquida quem queira jogar de acordo com regras justas.

Perdi parte do meu precioso tempo a assistir ao debate entre Soares e Cunhal porque quis percepcionar a mudança de mentalidades. Desisti defraudado, pois o tempo não passou, o país continua aprisionado pelo preconceito relativo ao dinheiro, à riqueza, ao mercado, ao trabalho, às empresas, ao capital. E é porque se mantém refém desse discurso intelectualmente pobre e atávico que continua sem cativar o dinheiro, a riqueza, o trabalho, as empresas e o capital que precisamos para viver melhor.

Somos orgulhosamente pobres. Uma pobreza impoluta apesar da miséria que significa para os que não têm sorte nem conhecimentos. Uma pobreza sem mancha, porque escondida. O mais curioso é como a falência intelectual desta gente os leva a adaptar a mantra de outrora. Sem que se dêem conta disso, que é a única parte desta história que tem graça.