Quando o mundo parece destravado, arranjar uma religião pode ser uma tentativa sincera de freá-lo – uma ferramenta para o que parece ser um desastre iminente. O problema é que, se assim for, tornar-se religioso vira mais um meio do que um fim. Confesso que olho com alguma suspeita para fenómenos destes. Quando a esmola é grande o pobre desconfia e quando a religião cresce o pastor também.
Tendo em conta que o assunto da relação entre religião e política arrasta milénios de grandes debates, simplificá-lo corre riscos óbvios de caricatura. Ainda assim e se tiver de olhar para um novo interesse pela religião facilitado pela era digital, alinho com os que detectam no fenómeno um apelo do cristianismo cultural numa época que parece de ser de desagregação social.
Uma vez que não sou sociólogo mas pastor, considero este cristianismo cultural uma tentativa bem-intencionada de curar prioritariamente os males do mundo, em vez dos males da própria pessoa – e é claro que estou a usar uma dicotomia. Não é por acaso que algumas das pessoas que na esfera política hoje dão nas vistas por falar em cristianismo têm mais genica para apontar pecados aos outros do que confessar os seus.
Ao escrever isto não quero desvalorizar a coragem que pode existir nestas novas vozes. Se o mundo não tivesse perdido décadas nos excessos do sentido contrário, enlouquecido em utopias progressistas impostas por privilegiados, não teríamos estes novos exageros. Por cada burgesso que aparece hoje com um discurso retro-religioso de correcção abrutalhada das fantasias revolucionárias, foram antes suportados dez alucinados do polo oposto.
Mas reconhecendo que a minha fé se vulgariza na boca destas novas vozes reaccionárias, assumo também que nos faz falta gente que publicamente invoque o cristianismo para prejuízo próprio. Como assim? Se Cristo for proclamado sobretudo para exibir a superioridade dos meus argumentos, será complicado acreditar nele como um Salvador de pecadores. E este novo cristianismo cultural que surge coloca Jesus mais a entregar prémios a vencedores do que a levantar derrotados.
Num mundo que deixou de acreditar no pecado, de pouco adianta pregar a salvação. O problema moral maior do nosso tempo é sentirmo-nos tão saudáveis. Jesus diz uma coisa impressionante no Evangelho de João. “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos, por isso, o vosso pecado permanece”. Numa cultura que não sabe perder, os cristãos serem vencedores é levar areia para a praia. Jesus ao curar aquele cego também estava a ensinar que quem via pior eram todos os outros.
Quando Jesus trata de nós, desistimos de ser a solução para os outros. O cristianismo não começa na solução mas no problema que nos antecede: somos chamados a ser pacientes antes de nos fazermos passar por médicos. Todas as fraquezas óbvias dos cristãos são uma parte fundamental da cura do mundo. Se o cristianismo se oferecer para curar o mundo, antes de se dar a ser curado por Cristo, fará o trabalho do diabo e não de Deus.
Nesse sentido, e com toda a intencional simplificação do argumento, desejo que este novo cristianismo cultural se dê mal. Espero que todos estes campeões da moral aprendam antes da coroação pública, a confissão privada. Também não desejo o triunfo dos seus adversários. Nessa medida, quero que a nova direita e a velha esquerda morram no inferno para que alguém possa finalmente começar a entrar no céu. Não porque ganhou mas porque soube perder com graça.