Todos aprendemos, na História de Portugal, que os Descobrimentos Marítimos serviram o propósito de criar uma rota de comércio entre a Europa e o Oriente que fosse alternativa à Rota da Seda terrestre. Aprendemos também que a Rota da Seda era demorada, extremamente perigosa e controlada pelas caravanas dos árabes muçulmanos. É impressionante que passados estes anos todos se volte a falar com tanto entusiasmo da Rota da Seda e estes caminhos estejam a ser redescobertos numa altura em que a Humanidade se vira para o Espaço e para o ciber-espaço. Para quê então revisitar a História?

O Presidente da China Xi Jinping introduziu em 2013 o projeto One Belt One Road (OBOR) ou as Novas Rotas da Seda. Um ambicioso projeto de investimentos que visa afirmar a presença chinesa em todo o hemisfério oriental, relançando as ligações terrestres e marítimas entre a China e o Ocidente. É como se a China tivesse olhado para o Globo e tivesse optado por abraçar todo o seu hemisfério, do meridiano de Greenwich até ao Pacífico.

Um braço, mais a Norte corre por terra em ferrovia desde a China até à Europa. Ramos deste braço passam pela Ásia Central, a Rússia e entram na Europa pelo Leste; outros corredores deste braço, da Ásia Central, derivam para Sul do Mar Cáspio, entram no Irão e chegam à Europa pela Turquia.

Outro braço vem por mar pelo Sul da Ásia, passa do Estreito de Malaca para o Índico Africano, o Mar Vermelho, cruza o Canal de Suez e entra na Europa pelo Mediterrâneo.

A aposta da China é uma aposta de afirmação por investimento semelhante à dos EUA após a 2a Guerra Mundial. Exige o mesmo tipo de fundos do Plano Marshall e o mesmo tipo de instituições multilaterais que, por exemplo, o Banco Mundial. Parte do mesmo pressuposto de abundância de capitais e recursos, porque passou a América de Truman no pós-Guerra. Os paralelismos são interessantíssimos e o sucesso dos americanos no pós-Guerra seguramente deixa um misto de otimismo para a iniciativa chinesa e de muitas incógnitas.

Desde logo, a primeira incógnita é sobre a oportunidade da iniciativa. O Plano Marshall era um óbvio plano de reconstrução num Mundo devastado pela Guerra. Tinha um objetivo claro de sarar feridas e de restabelecer a uma prosperidade perdida ou interrompida pela Guerra. Tinha um espírito muito desenvolvimentista, do partir do zero, do evitar erros passados.

O OBOR não tem nada disso ou terá muito pouco de desenvolvimentista. A China não tem o complexo do “fardo do homem branco” ou a obrigação moral dos americanos de levar o desenvolvimento e a democracia ao Mundo. A China entende que esta iniciativa como comércio e promoção de negócio. O crescimento e o desenvolvimento serão consequências naturais do OBOR e não as suas causas. Não se trata de dar o peixe ou ensinar a pescar. Trata-se de trocar peixe por recursos locais. Este é logo um ponto de pragmatismo que deve ser ponderado quando se olha para o OBOR.

Um outro ponto relacionado é que não há aqui um objetivo imperialista de expansão política da China. A expansão global da influência chinesa é feita por dependência económica e não política. Ou seja, conquanto que haja condições de aproveitar bem as oportunidades de negócio com ganhos para ambas as partes, a China continuará pacificamente a sua expansão económica. A dimensão política ou de potência militar é apenas uma necessidade de afirmação internacional e o reflexo histórico de a China não voltar a ser vista como um peão menor no tabuleiro internacional.

Outra dimensão fascinante do OBOR é o tipo de investimento e a dimensão financeira. Tratam-se de infraestruturas de transportes que vão precisar de enormíssimos recursos de capitais, seja dinheiro, seja tecnologia, sejam pessoas, seja capital diplomático. Estamos a falar de 3 triliões de dólares!

É ponto assente e amplamente admitido pelo governo chinês que o OBOR vai precisar enormemente de um contributo de empresas privadas, pasme-se, sobretudo em Parcerias Público-Privadas. Ora o capitalismo chinês é sobretudo um corporativismo de estado, pelo que as grandes empresas chinesas que participarem nestas PPPs serão primordialmente versões mais ou menos encapotadas do próprio Estado chinês. Mas o OBOR pretende ir muito mais além de PPPs com empresas chinesas. Abre a porta a empresas internacionais, o que cria inúmeras oportunidades no Ocidente. Será interessante perceber se as empresas europeias têm capacidade para olhar para estas oportunidades com um pensamento verdadeiramente europeu, ou se optarão por abordagens nacionais. A resposta aqui, infelizmente para a Europa, parece evidente.

Na dimensão financeira, há ainda aqui um ponto que os chineses aprenderam também dos americanos no Plano Marshall: serão bancos chineses e empresas chinesas a atuar primordialmente nestes negócios. Logo, uma parte substancial dos benefícios reverterão para a China e não ficarão nos países intervencionados. Mas não podemos esquecer que na Rússia já se criam fundos de investimentos exclusivamente para o OBOR, ou que empresas francesas estão particularmente ativas nas PPPs na China.

Uma terceira dimensão absolutamente surpreendente é a geopolítica. A China atira-se para um projeto que, de enfiada, a coloca para tudo o que é zona de conflito na História da Humanidade. Desde a Ásia Oriental, contra os habitantes mongóis da qual os seus antepassados construíram, à “la Trump”, a Grande Muralha, até ao Leste da Europa, onde os conflitos entre o domínio russo e a influência ocidental são uma realidade, passando pelo escaldante Médio Oriente. Tudo isto o OBOR de Xi Jinpin aborda com enorme candura e com a convicção de que não há nada na política que os negócios não consigam resolver. Para que todo o braço terrestre do OBOR funcione, a China precisa da anuência de Putin, dos líderes das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, do Irão e da Turquia. Tudo isto antes de entrar na Bielorrússia, na Ucrânia e finalmente na União Europeia. Para o braço marítimo o OBOR vai direitinho à Costa Oriental da África ao encontro da Somália, Quénia, Tanzânia e Moçambique, para não falar do Mar Vermelho e do Canal de Suez. À China interessa ainda esticar o OBOR para a Costa Atlântica, estilo Mapa Cor de Rosa, onde Angola assume um destino primordial.

Resumindo, a China parece querer nos nossos dias fazer de costas o percurso original de Marco Polo por terra e por mar o caminho das nossas Descobertas, que substituíram a Rota da Seda original. Ao fazer os dois caminhos ao mesmo tempo vai ser confrontada com um milénio de História de conflitos e dificuldades. Será fascinante nestes tempos tão acelerados ver como os resolve. Nós, portugueses, temos muito que partilhar com a China sobre a nossa experiência também ela feita mais de comércio e negócio, que de conquistas e guerras.

Muito do que temos a fazer é juntar peças do puzzle. Por exemplo, o OBOR encaixa na perfeição nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDG) da ONU do nosso Secretário Geral. Valia a pena, o eng. Guterres olhar com atenção para estas iniciativas.

Impressiona acordar em 2017 e perceber o enorme génio dos nossos antepassados que trilharam caminhos sistematicamente redescobertos. É uma experiência que nos deve encher de orgulho, mas que nos enche também de responsabilidade. E que nos abre portas para os novos mundos.