1 Mas porque é que não te calas se verdadeiramente não tens nada para dizer?

A ideia assaltou-me mais de uma vez ao assistir à mais surrealista de todas as aparições públicas da ministra da Saúde desde que vivemos esta crise – e não têm sido poucos os actos falhados de Marta Temido. Mas esta segunda-feira foi demais. “Não estou a dizer que no dia 4 teremos o pior cenário, estou a dizer que os cálculos vão até dia 4 de Novembro e que o dia 4 traz um cenário de grande complexidade”, disse a ministra. Ou seja, pelas contas dela, a 4 de Novembro – que é já para a semana – a capacidade de resposta do SNS pode estar esgotada ou em vias disso e ela não sabe o que fazer. Ou só sabe que “é necessário que cada um faça o que está ao seu alcance.” Ou seja, salve-se quem puder.

Depois de quase meia-hora a mostrar gráficos e a debitar números incompreensíveis em televisão – gráficos e números que os jornalistas pediam há semanas ao Ministério da Saúde e o Ministério sonegava sistematicamente –, a ministra conseguiu passar uma mensagem de aflição. Ou então de simples desnorte.

Ela na verdade não tinha nada a dizer, e mesmo que tivesse é duvidoso que muitos a escutassem com atenção. E muito menos confiassem naquele discurso atabalhoado.

Por isso chega. Quando os números da pandemia não param de subir é altura de deixar de fingir que “fomos exemplares”, que “fizemos o nosso melhor” ou que “o SNS está preparado”. É tempo de deixar de viver na mentira e na ilusão.

2 A primeira verdade que temos de enfrentar é que o nosso sistema de saúde está a suportar mal os desafios colocados pela pandemia. Sempre esteve. E quando falo dos desafios da pandemia não falo apenas de evitar que se apanhe a doença e se morra de Covid-19 – falo também de como o sistema de saúde continuou, ou não continuou, a tratar as outras doenças e a evitar que outras mortes ocorressem. Considero por isso que olhar para a evolução da mortalidade em Portugal é fundamental, pois tanto me faz que se morra de Covid como de medo de Covid – todas mortes a mais, todas as mortes teoricamente evitáveis, são um mau sinal.

Ora em Portugal, entre 16 de Março e 21 de Outubro, morreram, segundo a DGS, mais cerca de 8.700 pessoas do que a média de mortes registada no mesmo período entre 2015 a 2019, como se assinala aqui. Deste total, apenas 2.229 mortes foram atribuídas à Covid, pelo que as outras terão sido pelas mais variadas doenças.

É impossível dissociar esse excesso de mortalidade das 100 mil cirurgias atrasadas, dos 6 milhões de consultas por realizar e dos 17 milhões de exames e diagnósticos por fazer referidos na carta aberta dos bastonários da Ordem dos Médicos.

Em termos percentuais, o excesso de mortalidade em Portugal (contas apenas até 20 de Setembro) era de 7,5%. Entre os 21 países da OCDE, só seis tinham registado até essa altura um excesso de mortalidade superior ao nosso: o Chile, a Espanha, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Bélgica e a Holanda. Não há pois nenhum milagre português, nunca houve: pagámos em excesso de mortes não-Covid o número relativamente moderado de mortos Covid que temos tido. Pior: o que deixámos para tratar no futuro, sobretudo no que respeita a doenças oncológicas, faz prever que este excesso de mortalidade se mantenha mesmo quando controlarmos o vírus SARS-CoV-2.

3 A segunda mentira com que não podemos continuar a viver é a de que “o SNS está preparado”. Sabemos que não está e foi isso que penosamente a ministra acabou por ter de admitir no final da sua funesta aparição, quando lá reconheceu, com a dificuldade de quem arranca um dente, que afinal sempre irá “reencaminhar os utentes que não tenham resposta no SNS para o sector privado”.

Num momento em que já há tantas cirurgias e consultas em atraso eu diria que esse momento já devia ter chegado, mas, como sabemos, a ministra não quer ser “empurrada”, a ministra continua a ter um preconceito ideológico contra o sector privado e, por isso, deixou chegar as coisas a este ponto, o ponto de ruptura. Aliás neste momento já só se discute mesmo quanto tempo é que o SNS aguenta.

Mas para além da pandemia, hoje o SNS tem um problema que só pode agravar-se com estas lideranças e as actuais obsessões. Pior: tem um problema que vai inevitavelmente agravar-se por via da lei de bases estatista aprovada pela geringonça no final da anterior legislatura. Nem contentores e contentores de dinheiro conseguiriam resolver de forma sustentada o problema que os quadros que a ministra mostrou não conseguiam esconder: o serviço público está a perder mais médicos do que consegue contratar, sobretudo médicos especializados. Não acontece ainda o mesmo com os enfermeiros, mas para aí caminhamos. Nenhum modelo de gestão com carreiras únicas e centralizadas, unicamente centrado no sector público e de “comando e controle” resolve isto. Mas este é um tema tabu.

4 O mito de que “fizemos o nosso melhor” é isso mesmo: um mito. Desde muito cedo que a gestão política da crise pandémica começou a acumular erros e muitas das “grandes verdades” proclamadas ao longo dos meses pelos nossos dirigentes já entraram para o anedotário nacional. Recordar-lhas far-lhes-ia bem pois obrigá-los-ia a mais modéstia e menos arrogância quando hoje proclamam novas “verdades”.

No início tudo pareceu correr muito bem porque as pessoas tiveram medo, assustaram-se com o que estavam a ver acontecer em Itália e em Espanha, e fecharam-se em casa mesmo antes de o Governo dar ordens para isso. Depois tudo se complicou porque as mensagens começaram a ser contraditórias, incoerentes e cacafónicas. Agora a cereja em cima do bolo de meses de avanços e recuos foi o espectáculo das multidões na Fórmula 1 este fim de semana quando no próximo fim de semana o Governo quer impedir que as pessoas circulem entre concelhos e parece obcecado com as idas aos cemitérios no Dia de Finados. Quem decide desta forma acaba por não ser levado a sério.

Como se isto não chegasse, mais de 45 anos passados sobre o 25 de Abril vimos os portugueses continuarem a ser tratados como seres pouco alfabetizados que não podiam ter acesso a toda a informação, um tesouro que as autoridades guardavam a sete chaves e nem com os cientistas partilhavam.

E 44 anos depois de aprovada a Constituição da República demasiados acharam natural vivermos em estado de excepção, com limitações fortes às nossas liberdades que não teriam sido necessárias – que se revelaram de resto desnecessárias – se tivesse havido desde o início a pedagogia adequada e um clima de confiança saudável.

A verdade é que não “fizemos mesmo o nosso melhor” porque nunca conseguimos baixar suficientemente o número de infectados durante o Verão para recuperar a confiança dos mercados turísticos e para aliviar a pressão sobre os hospitais de Lisboa, para eles poderem preparar o Outono e o Inverno.

A verdade é que enquanto isto acontecia se foi sempre encontrando bodes expiatórios tão esotéricos como os trabalhadores da construção civil ou as “bodas e baptizados”, acabando por fim a nossa incontornável directora-geral a apontar o dedo aos… “cidadãos”.

5 Sim, claro, os cidadãos. Também os cidadãos. Não vou sacudir a água do capote. Um dia havemos de olhar melhor para o que explica como alguns países, mesmo dos mais ricos, estão a ter tanta dificuldade em lidar com a pandemia, incluindo com esta segunda onda, e outros conseguiram dominá-la relativamente bem e sem terem de declarar estados de excepção e mandarem os polícias para as ruas.

Uma coisa parece indiscutível: os resultados da Ásia são melhores que os da Europa, e não falo de ditaduras, falo de democracias como o Japão ou a Coreia do Sul. E comparo com países como a França, o Reino Unido ou a Holanda. Podia citar outros, mas estes chegam. Sendo que mesmo nas democracias ocidentais houve substanciais diferenças de comportamento e resultados, tudo a merecer atempada reflexão.

No El Pais o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han propõe uma explicação: o civismo. Atenção que não é a única, pois no seu interessante texto também refere que nas culturas orientais se preza menos a liberdade e o individualismo, e por isso mesmo ele prefere viver em Berlim “com o vírus à solta” do que no seu mais protegido país. Mas a tese da cultura cívica não deve ser descartada, pois se há coisa que temos deixado degradar nas nossas sociedades é toda e qualquer valorização do civismo. Há décadas que a noção de responsabilidade se vem dissociando da de liberdade, há décadas que só falamos de direitos e não de deveres.

Julgo que bastará olhar para uma sala de aula em Seul e outra em Lisboa para ter noção de que na primeira não se obtêm apenas melhores resultados nos testes PISA, também se cultiva uma disciplina que por cá é desconhecida e que muito contribui para que a profissão de professor do ensino básico seja uma das actualmente menos desejadas.

Tal como bastará olhar para a limpeza das ruas em Nova Iorque ou em Singapura para perceber que estamos perante duas culturas cívicas bem diferentes.

Prezar a liberdade e o direito ao individualismo não é sinónimo nem de bandalheira hedonista, nem de bufaria egoísta. O civismo é outra coisa e de facto anda por aí muito esquecido. Talvez seja altura de o recordar ao ver o que nos está a suceder com o raio deste bicho.