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Minorias

Racismo: o visível e o invisível

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Um país desenvolvido e focado no crescimento é um país que promove a mobilidade e o progresso social de comunidades vulneráveis, que entende que só tem a beneficiar com a verdadeira multiculturalidade

Ouve-se muito falar, em Portugal, da importância do diálogo intercultural e do respeito pela diversidade étnica, racial e cultural da população portuguesa ao mesmo tempo que se multiplicam iniciativas e acções de sensibilização de várias instituições governamentais, do poder local, de organizações da sociedade civil sobre estas questões. Tornou-se também recorrente, no discurso político e institucional, da esquerda à direita, promover a ideia de Portugal e dos Portugueses como um país e uma sociedade tolerantes e abertos ao Mundo, um País de verdadeira vocação universal. Afinal, como muitos advogam, o próprio DNA português é repleto de misturas de raças e etnias resultado do processo de expansão, e consequente miscenização, o que nos torna especialmente predispostos a ‘acolher e integrar’ pessoas de outras culturas. A acrescentar a este discurso, supostamente aglutinador, fica-nos bem hoje em dia defender um conjunto de causas que nos colocam do lado da ‘comunidade liberal e progressista’ como a defesa da igualdade de género, abertura à diversidade, o combate à discriminação, racismo, xenofobia, homofobia e a promoção da interculturalidade. Subescrevo inteiramente todas estas causas. Mas questiono-me de que serve defendê-las no abstracto?

Não querendo desvalorizar a importância da evolução do discurso político, o diálogo intercultural e a promoção da diversidade fazem-se de situações concretas e não a partir de ideias genéricas que se ficam pelas boas intenções, pelos relatórios e pelas declarações políticas. Em Portugal, o diálogo intercultural, a defesa da diversidade e o respeito pelas minorias, tem tendência a centrar-se nas confissões religiosas e nas comunidades de migrantes e refugiados. Mas qual o significado deste diálogo no contexto das nossas relações inter-raciais e da  condição das minorias que fazem parte integrante, há décadas, do nosso tecido social, como a população negra ou cigana? Quando realmente olhamos para dentro, podemos dizer que há um diálogo entre grupos e culturas? Podemos afirmar que somos uma sociedade onde predomina a diversidade e a inclusão étnica, cultural e racial? Inúmeros relatos e notícias recentes têm revelado que não

Estive dez anos fora do país em sociedades onde apesar de persistirem níveis de desigualdades sociais e étnico-raciais, a convivência com pessoas de várias culturas e raças no local de trabalho, nos serviços públicos, nas empresas, nas universidades, nos think tanks, nas instituições políticas, era a realidade do dia-a-dia. Dir-se-á que são sociedades produto de uma história diferente, com vagas de imigração de uma escala muito maior. Mas considerando que nos orgulhamos tanto da nossa vocação multicultural e capacidade de abertura, é de estranhar a realidade desproporcionalmente homogénea que caracteriza não a sociedade Portuguesa no seu todo, mas as nossas elites políticas, financeiras e sociais. Basta percorrermos as ruas de Lisboa para constatarmos que a diversidade cultural e racial da nossa população não tem qualquer expressão nos mais diversos sectores de destaque da vida pública e privada. Concretamente, se nos debruçarmos sobre a população negra e afrodescendente, que representa o maior grupo em proporção com a população nacional, é surpreendente constatar a sua falta de participação e representatividade política. Da esquerda à direita, apenas me lembro de um deputado negro, para dar um exemplo. Para além da gritante falta de participação política, as comunidades negras e ciganas têm sido remetidas a ciclos de pobreza e exclusão social que atravessam gerações e a sua mobilidade social tarda a acontecer.

Temos assistido à emergência de novos movimentos anti-racistas, organizações da sociedade civil que reclamam mais direitos, mais participação e intervenção política e social. Estas vozes exigem também o direito a expor a sua narrativa histórica e a promover o debate sobre o colonialismo, a escravatura, e atrocidades cometidas durante a época colonial. Na realidade, as questões da representatividade política e o debate de visões históricas são dois lados da mesma moeda.

Uma sociedade madura e verdadeiramente aberta à diferença é uma sociedade que não tem medo de discutir abertamente, não só as questões raciais do presente, mas também o seu legado histórico. Não se promove a coesão social, intercultural e inter-racial, sem procurar sarar as feridas do passado e assumir alguma responsabilidade histórica perante erros cometidos ao longo dos séculos. O país e a sociedade deram os primeiros passos em relação a um capítulo negro da história nacional, que reporta à expulsão dos Judeus, às conversões forçadas e à instituição da Inquisição no séc. XVI. Já em 1989, Mário Soares, apresentou um pedido de perdão à Comunidade Judaica pelas perseguições inquisitoriais de que os judeus foram vítimas em Portugal. Em 2008 foi inaugurado um memorial alusivo ao massacre de 1506 resultante da intolerância e fanatismo religioso. Está também prevista a abertura do museu judaico de Lisboa para 2019. Todas estas iniciativas revelam um impulso de reconciliação com o passado. O mesmo deveria acontecer, por exemplo, na relação do país e da sociedade civil com sua população negra e afrodescendente. Há sinais de mudança e uma maior consciencialização para estes temas mas é necessária a mobilização de todas as forças políticas em torno destas questões, e um esforço de considerar e discutir seriamente medidas, de resto já bem articuladas e reivindicadas por movimentos anti-racistas, como a revisão de manuais escolares; a recolha de dados estatísticos para melhor se conhecer a condição das comunidades; a adopção de políticas públicas específicas que vão de encontro às dificuldades e desafios manifestados; a construção de memoriais, museus e espaços de reflexão histórica.

Um país desenvolvido e focado no crescimento é um país que promove a mobilidade e o progresso social de comunidades vulneráveis, e que entende que só tem a beneficiar com a verdadeira multiculturalidade e não uma multiculturalidade de segundo plano, remetida para os extractos mais baixos da sociedade.

Esta preocupação deveria ser transversal a todas as forças políticas e não rotulada e imediatamente engavetada como ‘cavalo de batalha’ da esquerda. Trata-se de facto de uma questão fundamental para o progresso da sociedade no seu conjunto.

Numa sociedade onde o que dita a ordem do dia são notícias sobre a política económica e orçamental, obcecada com escândalos de corrupção e currículos de titulares de cargos públicos, diria que ainda temos um longo caminho a percorrer para promover a centralidade política destas questões. Infelizmente não é com a bandeira da diversidade, do combate à discriminação e racismo, que se ganham votos ou audiência de jornais, televisões e redes sociais.  A marginalização destes temas é, até certo ponto, o espelho de uma sociedade que ainda não teve de se debruçar verdadeiramente sobre eles e para a qual estes não constituem uma preocupação premente. Resta saber até quando.

Assessora para a Inclusão, o Diálogo Intercultural e a Acção Social no Gabinete de Vereação do PSD na Câmara Municipal de Lisboa

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