Nesta altura do mês de Abril surge a necessidade de refletir, um pouco mais, sobre a liberdade de expressão. E como está ela nos dias que correm? Evoluiu, certamente. Transformou-se e mudou de ares. Está melhor? Pior? Diferente. Primeiro, é importante entendermos o conceito e termos uma noção da sua essência, para que possamos explorar o seu conteúdo e os seus cantos. Explorei o tema e as suas nuances, e sabiam que “a liberdade de expressão é um direito humano, protegido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e pelas constituições de vários países democráticos”? – Esta última parte estava destacada e eu verifiquei: Portugal está na lista.

Embora seja apenas a minha perspetiva sobre o assunto, o que estou a escrever, vou ser muito factual. A nossa liberdade de expressão permite-nos partilhar e manifestar os nossos pensamentos, as nossas ideias, as nossas crenças. Esses nossos pensamentos, ideias e crenças são influência de tudo o que experienciamos e já experienciámos. De tudo o que lemos, vemos e ouvimos. De tudo o que nos rodeia e que nós rodeamos. E somos livres de pensar, idealizar e acreditar no que entendermos. Mas e se tudo o que lemos, vemos e ouvimos, for a “liberdade de expressão”, ou seja, o pensamento, a ideia, a crença, de outro? Ou de outra? (Para não haver chatices!) Adotamos, sem querer, o mesmo ponto de vista. Começamos a ver as coisas do mesmo prisma. Percebo.

Às vezes, reparo que toda a gente diz o mesmo, ou tem a mesma opinião, sobre um tema do momento. Todos partilham os mesmos conteúdos, a mesma notícia, a mesma perspetiva. E, outras vezes, também dou por mim a fazer o mesmo. Às vezes, porque me influenciam, e me deixo influenciar, sem querer. Sem perguntar porquê. Sem perceber o outro lado da história. Às vezes, penso: “se toda a gente acha isto, é porque é verdade que assim o é.” Às vezes, estou desinformada. (Ou mal informada?) Mas, outras vezes, pergunto: “porque é que toda a gente acha que isto assim é?” – e vou constatar factos. Factos. Vou aos porquês e aos dois lados da história. E o que descubro e constato eu? Que, às vezes, o outro lado da história é mais difícil de descobrir. Demora mais tempo e dá mais trabalho a encontrar e constatar… Contudo, há sempre uma ou outra fonte credível que o expõe com mais clareza.

A verdade nisto tudo é que os órgãos de comunicação social, e as redes sociais, pensam muito por nós. E esquecemo-nos de procurar o outro lado da moeda. Esquecemo-nos de dar uso ao espírito crítico. Num mundo com cada vez mais influencers, estimam-se cada vez mais influenciados. E as opiniões “chapa 5” cada vez mais evidentes. A nossa “expressão” está inconscientemente a ser controlada por forças terceiras, que a tornam menos nossa e que nos tornam menos livres, sem sabermos. Somos robots? Não. Ainda não… E preocupo-me porque se não há oposição para discutir, não há partilha de ideias e não há evolução.

Para ser mais fácil expor o meu ponto de vista, vamos aos exemplos? Vou começar por um tema mais leve e comum: “As feministas online”. Se somos mulheres, vamos concordar com tudo o que nos é dito por elas. “Porque é que temos de nos depilar, e os homens não? Porque é que os bolsos das calças dos homens são maiores que os das mulheres?” E vamos partilhar. E vamos fazer força para que todas pensemos assim. As redes sociais e os órgãos de comunicação estão, também, a fazer força. A união faz a força e a força faz a união. É normal. Entendo que seja necessário…

Mas e se uma mulher ponderar e disser: “Porque é que só os homens é que vão para a guerra? Porque é que os homens pagam mais para entrar em discotecas?” Várias situações vão acontecer a esta mulher: vai ter um medo esquisito, um receio introvertido, de manifestar a sua opinião mais pensada e diferente das restantes, de ser criticada por não estar a ser cem porcento apoiante das do seu género, de ser chamada de hipócrita, de ter de se justificar e de ter de se calar. Isto acontece. Isto é ter liberdade de expressão? É importante que nos percebamos uns aos outros. Não temos de concordar. Temos de respeitar. Aqui não há melhor nem pior, há diferente.

O “à vontade” com que se escreve sobre temas como “as alterações climáticas” ou “o feminismo”, e o medo com que eu escrevi esta pequena defesa aos homens, sendo eu mulher. Perceberam? Confuso. É tão leve e livre comentar temas corriqueiros da atualidade, temas da moda; e tão complexo, e até ousado, discutir temas mais “fora dos tabloides” e menos apoiados pelos media, no geral. É com muita apreensão, cuidado e coragem que proferimos elogios ao trabalho do presidente Donald Trump; e é com naturalidade, quantidade, e, às vezes, sem detalhe e de graça, que conversamos sobre as conquistas da jovem ativista Greta Thunberg. Na minha opinião, nada tem um a ver com o outro, mas se ambos forem descritos com base em evidências da realidade, factos, ambos devem ser respeitados, e falados com a legitimidade esperada, deixando o estigma silencioso de lado, o qual ninguém questiona e todos ignoram. Este estigma que vive escondido no “politicamente incorreto”.

Não deveríamos ter receio, e não deveria ser tão difícil discutir uma opinião diferente da proposta (ou imposta) pelas revistas, jornais e telejornais. E também não deveríamos adotar opiniões alheias porque sim, ou porque as páginas que acompanho nas redes sociais me disseram para eu adotar. Há candidatos às presidenciais norte-americanas a pagar aos gestores de algumas das páginas mais influentes de redes sociais como o Instagram para conquistarem o voto das camadas mais jovens. Estes jovens não vão perguntar os porquês. E o mundo vai continuar assim, cada vez mais manipulado e preso de ideias. Estamos a evoluir de um extremo para o outro. Antigamente, éramos muito conservadores e reprovados pelos mais liberais; agora somos demasiado liberais, mas controversamente, não damos liberdade para tudo, nem para todos. É uma espécie de liberdade fingida, que só parece, mas não é. Não fazemos porque queremos, fazemos porque os outros fazem. Quem diz fazer, diz falar, ver, ouvir, etc. E escrevi o “etc.” com pena e preocupação. Somos marionetas da opinião pública.

O regime do Estado Novo marcou o país com um seletivo e rigoroso controlo dos meios de comunicação, censurando todo o texto, imagem ou som que pusesse em perigo a satisfação do povo, por assim dizer. A Censura tinha como objetivo influenciar consciências e manipular ideias e comportamentos, fazia valer a aparência em detrimento da realidade. Os portugueses viviam num “país faz de conta” e não sabiam.  O 25 de Abril veio acordar o povo, cultivar o pensamento livre e o espírito crítico, veio mostrar as realidades. Veio mesmo? É importante refletir sobre todas as possíveis analogias entre o antigamente e a atualidade, face aos factos. É importante dar uso ao espírito crítico antes de aceitarmos e absorvermos os conteúdos que lemos, vemos e ouvimos. O Lápis Azul vem agora noutros moldes… Se as grandes organizações e individualidades ofertarem apoio e incentivos, mesmo que inocentes, aos meios de comunicação, estão consequentemente a assegurar que uma boa imagem sua será passada ao publico, e do publico para o publico, entre ele, entre nós. Isto acontece e nós sabemos, o que acentua a nossa responsabilidade enquanto seres críticos e pensantes.

Uma comunicação social livre é o instrumento-chave para uma Democracia franca, e sem Democracia não existe liberdade de expressão, nem pluralidade de ideias, nem progresso. Cabe-nos a nós revalidarmos a liberdade de expressão conquistada em 1974.