“Estou com uma gripe daquelas, nem me aguento em pé!” disse o Manuel. “Toma um antibiótico que ficas bom num instante!” aconselhou vivamente a Maria.

Tudo errado, mas a história continua.

“Toma aquele dos 3 dias, é impecável, até te arranjo. Tenho uma caixa em casa!” prontificou-se a Maria para ajudar o seu amigo.

E não é que o Manuel tomou e em 3 dias ficou bem? E porquê?

A gripe é uma infeção vírica e os antibióticos não atuam nos vírus. O que se passou foi a evolução natural da doença e o Manuel ter ficado curado graças à luta do seu sistema imunológico (as suas defesas) contra o vírus da gripe. Mas o Manuel a e Maria ficaram a pensar que o milagroso antibiótico curou a doença e, assim, uma crença e atitude perigosa põem em risco a saúde do Manuel e de toda a sociedade.

Os antibióticos são medicamentos extraordinários que salvam vidas, mas que estão a sofrer pelo seu sucesso, pois o seu uso por todo o mundo, nos humanos e animais, levou ao desenvolvimento de resistências pelas bactérias. E muitas destas, algumas até chamadas de “superbactérias”, conseguem mesmo resistir aos antibióticos e levar à morte do hospedeiro (o nosso Manuel, que durante a vida tomará vários antibióticos desnecessários, selecionará bactérias resistentes, que um dia podem, oportunisticamente, provocar uma infeção fatal).

Este assunto é muito sério e preocupante. Já se morre mais em Portugal, por ano, por infeções associadas a cuidados de saúde (as tais bactérias resistentes) do que por acidentes de viação.  A Organização Mundial de Saúde mostrou a seguinte previsão realista e assustadora. Se o uso de antibióticos se mantiver da forma atual (uso excessivo e desadequado nos humanos e animais), as resistências e consequente falha do tratamento podem matar 10 milhões de pessoas até 2050 e, por essa altura, infeções banais de hoje poderão ser fatais.

Este assunto é sério e preocupante para todos nós.

O que podemos fazer?

Em primeiro lugar está a prevenção. Se menos infeções houver, menos antibióticos utilizaremos. Medidas como higienização das mãos e o uso de máscara reduzem comprovadamente a transmissão de certo tipo de infeções. A vacinação das doenças preveníveis tem também elevado impacto na redução das infeções e na utilização do antibiótico. Já que falamos de gripe, apesar de ser causada por um vírus, esta pode levar ao desenvolvimento de uma pneumonia por bactérias e, aí sim, com necessidade de antibióticos. Vacinando para a gripe, estamos também a prevenir pneumonias. Tomar um antibiótico não acelera a cura da gripe! O Manuel tomou um de 3 dias, que é potente, com um largo espectro de ação, ou seja, “mata” indiscriminadamente muitos tipos diferentes de bactérias, e quanto mais largo o espectro, mais resistências provoca.

Em segundo lugar, usar o antibiótico como um bem precioso! Devemos usá-lo só quando necessário e não pressionar os profissionais de saúde a prescrever ou dispensar antibióticos desnecessários. Devemos, ainda, usar o antibiótico na dose certa (as tomas e horas corretas) e durante o tempo necessário (nem todas as infeções implicam tomar a caixa toda). Não devemos fazer automedicação, isto é, tomar antibióticos por própria iniciativa.

Em terceiro lugar, devemos procurar conhecer um pouco mais sobre as doenças. Quantos saberão que a maioria das amígdalas com pus acontecem em doenças virais (que não necessitam de antibiótico) e que quase todas as unidades de saúde de Portugal possuem um teste rápido com zaragatoa, que ao colher material nas amígdalas permite saber se a infeção é bacteriana ou viral?

Em quarto lugar, a Covid19 veio e gerou um aumento o uso de antibióticos, o que quer dizer que temos ainda mais resistências com que lidar.

O assunto é sério e preocupante. Faça parte da solução. Prevenção, educação e uso racional do antibiótico. Procure mais informação e seja um agente de mudança. Se encontrar os amigos Manuel ou Maria, explique-lhes que as decisões individuais, neste assunto, interferem também com a saúde de todos, pois todo o antibiótico desnecessário vai promover o aumento de resistências nas bactérias de todos nós!

Foi também neste sentido, que foi lançada a campanha “Responsabilidade é o Melhor Remédio”, uma iniciativa que tem como principal objetivo sensibilizar médicos, farmacêuticos e população em geral para a importância da utilização responsável do antibiótico através da disponibilização de milhares de materiais informativos nas farmácias e centros de saúde de todo o país.

Proteja o antibiótico pois ao longo da sua vida vai necessitar deste remédio.

Artigo elaborado no âmbito do Dia Europeu do Antibiótico que se assinala a 18 de novembro.