Há um momento, quando constata que o jovem activista lhe vai despejar tinta em cima, em que percebemos que Rui Rocha está a pensar de que forma vai reagir à primeira demão. Naquele milissegundo, antes de decidir como se iria comportar, Rocha há-de ter ponderado todas as situações em que ambientalistas fanáticos protestaram através do lançamento de tinta. Iria reagir com fleuma, como Luís Montenegro, a 28 de Fevereiro do ano passado? Com bom humor, como Fernando Medina em 20 de Outubro de 2023? Com frieza, como Duarte Cordeiro no dia 26 de Setembro de 2023? No fim, optou por reagir com imobilidade, como “A Rapariga com o Brinco de Pérola” (27 de Outubro de 2022). Em vez de fazer como outros políticos que têm sido atingidos, comportou-se como uma das pinturas que também têm sido alvo destes justiceiros climáticos: “Os girassóis” de Van Gogh (14 de Outubro de 2022), “Os Palheiros” de Monet (22 de Outubro de 2022) ou “Morte e Vida” de Klimt (15 de Novembro de 2022). Faz algum sentido, porque a Iniciativa Liberal adora quadros. É o seu eleitorado. Está sempre a defendê-los, principalmente se trabalham em multinacionais e ganham bónus chorudos.

Naquele instante, ali parado, enquanto começava a saborear a tinta verde em pó, Rui Rocha parecia uma obra de arte. Só faltava uma placa dourada com o título: “O boneco”, de Milei.

O arremesso enquanto arma de protesto é um método utilizado desde a pré-história. Quando os primeiros bebés de Neanderthal  perceberam que atirar o guisado de mamute ao chão irritava os pais, passaram a deitar a mão a toda a sorte de mistelas para arreliar a família quando estavam birrentos. Como estes petizes primitivos, os jovens de agora também demonstram o seu descontentamento através da projecção de imundice.

Ao contrário do que dizem na sua propaganda política, o problema deles não é com a sexta extinção, é com a extinção da sesta. Ali na passagem dos 4 para os 5 anos, ocorre um período sensível em que as crianças deixam de fazer a sesta. Habituados a dormir a meio tarde, a súbita retirada desse período de descanso mexe com a disposição dos pequeninos. A falta de óó transtorna-os. Aparece a birra do sono, com o mau-feitio associado e o atirar de substâncias que deixam nódoas na roupa. Os meus filhos também faziam fitas enormes, atiravam a papa, parecia que o mundo acabava se não vissem imediatamente a 37a repetição do episódio em que o pai da Porquinha Peppa rebola na lama. Enfim, nada que não se resolvesse com uma soneca. Ou um tautau.

Porém, a partir de uma certa idade, a birra já não tem a mesma compreensão. Aborrece. É quando a criança aprende novas formas de protesto e de testar os limites. A minha predilecta é o amuo. Porque é silenciosa. E dá umas fotografias muito engraçadas. Principalmente quando, já adultas, voltam a vê-las e perguntam:

“Porque é que eu estava com esta cara de parva?”

“Porque não te deixámos ir maquilhada de Lady Bug para a primeira-comunhão”.

Anseio por uma acção de protesto em que, em vez de atirarem coisas, os jovens cruzem os braços, franzam o cenho e se virem para a parede. Espero que não demore.

Tal como as dos meus filhos, as reivindicações destes jovens activistas também são exigências que, se satisfeitas, acabariam por os prejudicar. Comer o sétimo pacote de Oreo não faz tão mal à saúde como acabar com o fóssil até 2030.

Sei que falar do aprumo destes guerreiros é um cliché e que o asseio não reflecte o mérito da causa, mas acho um bocadinho hipócrita estes militantes do clima estarem sempre a gritar “Just Stop Oil” quando têm a pele tão sebosa. Primeiro, tratem da vossa Zona T, pá. Just Stop Oil, tudo bem; mas primeiro, Just Stop Oily Skin.