Francisco Sá Carneiro fundou o Partido Popular Democrático em 1974. Por razões de necessidade tática, mudou-lhe o nome, em 1976, para Partido Social Democrata. Situou-se à direita do Partido Socialista e, apesar das proclamações programáticas iniciais em prol do socialismo, ditadas pelas contingências de uma revolução que se radicalizara na extrema-esquerda, Sá Carneiro protagonizou a direita do novo regime e afirmou-se sempre como um liberal. Fora, aliás, precisamente numa denominada “Ala Liberal” do marcelismo que iniciara a sua carreira política. Acreditava na iniciativa privada como dinamizadora da sociedade e da economia, embora não enjeitasse uma intervenção moderada do Estado, como sucedia nos países europeus democráticos de então. Dentro do PSD foi sempre contestado pela ala que se situava mais à esquerda, que defendia compromissos com o PS, com o general Ramalho Eanes e a ala militar do regime, ao tempo muito forte e ameaçadora. Rejeitou-os sempre, o que o fez perder meio grupo parlamentar e demitir-se da liderança do partido, para voltar mais forte e com as águas separadas e menos poluídas. Quando se preparou para disputar eleições legislativas que o podiam levar, e levaram, ao poder (1979), não hesitou em constituir um bloco de direita alternativo ao socialismo democrático de Mário Soares e do Partido Socialista, a Aliança Democrática. Essa frente eleitoral de direita era constituída pelo seu partido, pelo CDS e pelo PPM, com colaborações avulsas dos «Renovadores», que tinham saído do PS. Ganhou a primeira maioria absoluta democrática do pós-25 de Abril e, com ela, governou pouco menos de um ano, até morrer tragicamente. Mas, ainda assim, deu início a um ciclo político que demonstrou que a direita podia e sabia governar em democracia; promoveu reformas contra-revolucionárias; começou a restituir aos proprietários o pouco que a Constituição de 76, ainda então fortemente ideológica e marxista, permitiu que se devolvesse;, bateu-se pelo regresso dos militares à caserna e por um poder civilista e democrático. A esquerda mais extremada nunca lhe perdoou. Quando morreu, as paredes das cidades estavam cobertas por pichagens do PC e da extrema-esquerda com o slogan «Sá Carneiro caloteiro!», que davam eco a uma miserável campanha difamatória que contra ele o jornal comunista O Diário – A verdade a que temos direito moveu.

A morte de Sá Carneiro provocou um transtorno compreensível na direita e um interregno na liderança reformista da AD que, agora chefiada por Francisco Pinto Balsemão e Freitas do Amaral, perdeu a chama e o fulgor reformistas. A coligação partidária acabaria numa zanga entre os seus líderes, mas, verdadeiramente, porque a sua continuação já não tinha razão de ser. Os governos que se seguiram foram os do pantanoso Bloco Central, que juntou PS e PSD, para evitar a falência do Estado e um abalo tumultuoso no ainda muito recente regime democrático.

Em 1985, o antigo Ministro das Finanças da Aliança Democrática, Professor Aníbal Cavaco Silva, tomou o PSD de assalto no célebre congresso da Figueira da Foz, ao qual se deslocara para, cinicamente, fazer a rodagem do seu novo carro de marca Citroen. Cavaco conquistou os congressistas com a promessa de lançar uma pedrada no charco profundo do Bloco Central e pôr fim imediato a essa ideia que continuava a pairar no PSD e no PS. Fê-lo e, em seguida, ganhou três eleições legislativas consecutivas; uma primeira, com maioria simples, que não lhe permitiu cumprir a legislatura, e as duas seguintes, com maiorias absolutas de um único partido. Os seus governos abriram o país à economia privada, realizaram, juntamente com o PS, em 1989, a segunda revisão constitucional, na qual a componente marxista da regulamentação económica ficou severamente abalada. Realizou privatizações do que fora nacionalizado em 75, abriu importantes setores, como a comunicação social, à iniciativa privada, e os seus governos, com qualidades e defeitos, permitiram o progresso de Portugal. Hoje, é ainda odiado por muita esquerda e por toda a extrema-esquerda, que o desconsideram como se fosse um parvenu e um parolo, ela, que proclama a revolução em salões decorados com cetim e lustrosos tapetes persas. A esquerda caviar lusitana, que nunca levou a bem que um homem de origens modestas a tivesse reduzido à insignificância com dez anos no governo e outros tantos na presidência da República, começou a definir-se por contraponto a Aníbal Cavaco Silva. Querem vê-los, hoje ainda, a espumar? Falem-lhes no «homem de Boliqueime». É infalível.

O fim do cavaquismo partidário de novo remeteria a direita para a irrelevância. Pior do que isso: quando, de novo, ela foi com Durão Barroso e Paulo Portas para o governo, com a promessa de romper com tudo o que significavam o socialismo e o estatismo do PS, traiu a confiança dos seus eleitores e dos Portugueses. E não, não me refiro somente à fuga para Bruxelas do Primeiro-Ministro que tinha lido nas estrelas que, um dia, salvaria Portugal. Refiro-me, sobretudo, ao compromisso eleitoral de promover um «choque fiscal», que, afinal, se traduziu no seu exacto contrário, num aumento de impostos mal formou governo. Da fuga para Bruxelas e do erro fatal do Governo Santana-Portas, resultaria a primeira maioria absoluta do Partido Socialista, sob a mão clientelar de José Sócrates. Depois de uma reeleição e de mais uma falência do Estado, Pedro Passos Coelho chegaria ao poder no PSD e no país. Com o compromisso de o liberalizar  transformar profundamente.

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A rutura financeira do Estado e o pedido de intervenção externa acionado pelo Governo falido de José Sócrates comprometeram as intenções reformistas de Pedro Passos Coelho, sempre condicionado pelos objetivos financeiros e de tesouraria, que tinha de cumprir perante a troika. Ainda assim, Passos fez reformas importantes e liberalizadoras na economia. No seu último ano de mandato, tardiamente e com as forças conservadoras socialistas recompostas, deu evidências do que poderia ser um Governo liderado por si, sem os constrangimentos que durante três anos tivera de cumprir. Os Portugueses entenderam-no bem e, contra a ordem natural da austeridade que lhes teve de aplicar, deram-lhe a vitória nas eleições seguintes, às quais se apresentou em bloco eleitoral formado com o CDS (PaF). O sistema constitucional e a astúcia de António Costa não permitiram, porém, que continuasse a governar por mais quatro anos.

O que devemos, então, retirar da história da nossa direita da Terceira República? Que ela só é capaz de convencer os eleitores quando lhes oferece uma alternativa reformista à governação da esquerda. Sá Carneiro rompeu com o PREC, Cavaco com o socialismo dirigista e Passos com o estatismo asfixiante. Sá Carneiro teve a sua missão interrompida prematuramente por uma morte estúpida, ainda hoje sentida, Cavaco cumpriu o essencial e Passos Coelho não teve oportunidade de realizar o que verdadeiramente o levou ao poder. Hoje, sete anos depois de uma governação protagonizada por um Governo da frente de esquerda mais radical que nos governou desde 1975, com o país de novo nas mãos do Estado e com a iniciativa privada a ter de pedir autorização ao Governo para poder respirar, a direita só fará sentido no Governo se oferecer aos Portugueses uma alternativa clara ao socialismo e ao estatismo. No fim de contas, trata-se de fazer com que o país possa crescer para além do Estado e que a sociedade portuguesa seja suficientemente adulta e livre para não ter de viver sempre no sobressalto da pedinchice das ajudas externas e das «bazucas» europeias. Por enquanto, a direita não foi capaz de propor essa alternativa ao país. E só uma liderança firme, descomplexada e com intenções verdadeiramente reformistas será capaz de o fazer.