No início deste ano, em consequência de um atentado, 45 mil casas e mais de duas mil empresas viveram um apagão durante cinco dias (de 3 a 7 de Janeiro). As ligações de comboio foram interrompidas, várias escolas e lojas  fecharam. As comunicações por telemóvel caíram. Com as temperaturas a chegar aos dez graus negativos, milhares de pessoas enregelaram nas suas casas pois o aquecimento deixou de funcionar. Cinco hospitais foram obrigados a utilizar geradores de emergência. Segundo as autoridades uma mulher idosa morreu de frio. Tudo isto aconteceu não na frente de guerra da Ucrânia mas bem no centro da Europa, mais precisamente  na cidade que é agora apresentada como a sua capital política, Berlim. E a cobertura deste caso como foi? Vergonhosa.

Primeiro ignorou-se. Depois lidou-se com a sonsice do costume sobre a pertença ideológica dos autores de atentados quando estes se dizem de esquerda, o que os transforma automaticamente em activistas ou, vá lá, quando muito, em extremistas e, mais lá para o meio das notícias, em grupo de extrema-esquerda. Qualquer referência a terrorismo ficava por conta das autoridades alemãs devidamente citadas entre aspas.

Por fim, e perante a insistência dos ditos activistas em reivindicarem não só a autoria do atentados mas também as suas convicções ideológicas, admitiu-se que sim, em Berlim tinha acontecido um ataque ou “sabotagem”e sim os autores pertenciam a um grupo de extrema-esquerda que se designa Grupo Vulcão mas, coitadinhos, “invocando razões climáticas e pedindo desculpa aos mais desfavorecidas afetados pela sabotagem” e procurando acabar com a “ganância pela energia”. Num ápice, o foco das poucas atenções passou do atentado que visou os cabos  da central  de electricidade e de aquecimento de Berlim-Lichterfelde para a vulnerabilidade das infra-estruturas alemãs, matéria de que é culpado o governo alemão sem aspas nem meias aspas.  Em resumo, como se escrevia no PÚBLICO a propósito “do Grupo Vulcão que deixou Berlim às escuras? São classificados como “anarquistas” e “terroristas”, mas escolhem os alvos para denunciar a vulnerabilidade da rede energética e de cibersegurança alemã”. Em resumo, uns beneméritos!!!

Não deixa de ser sintomático e preocupante que num tempo em que tanto se fala de radicalização e discurso de ódio, se subestime o impacto da radicalização dos jovens em torno das questões  ambientais. Por exemplo, um formulário onde se podem assinalar respostas deste teor “Estou pronta para agir ……….., mesmo que isso implique enfrentar detenções e condenações em tribunal.” ou “Quero participar em ações diretas e ações de desobediência civil” seria visto com a pacata indiferença que lhe temos reservado caso o formulário em causa não estivesse na página da Climáximo, onde se procura  apurar da disponibilidade de participação dos seus simpatizantes em acções daquela organização?

Se isto não é um apelo à radicalização o que é então um apelo à radicalização? Uma radicalização que tem sido não só tolerada como incentivada por quem tem responsabilidades na matéria: em 2023, David R. Boyd, enviado especial da ONU para direitos humanos e clima, “recomendava ao governo português que criasse uma lei de protecção dos activistas ambientais.” Segundo o enviado especial das ONU “foram recebidas informações sobre assédio e acções judiciais estratégicas contra a participação pública dirigidas a activistas ambientais e defensores dos direitos humanos”. Traduzindo, o senhor Boyd, enviado especial da ONU para direitos humanos e clima, estava peocupadíssimo com o facto de as autoridades portuguesas não estarem a deixar  os activistas climáticos irromperem com as suas latas de tinta em acontecimentos públicos ou serem revistados quando pretendiam ir para as galerias do parlamento. (Entretanto o senhor Boyd virou-se para o impacto ambiental das operações militares israelitas em Gaza, de onde resulta que devemos ficar privados das suas observações durante algum tempo) .

Não é novidade que o terrorismo de esquerda sempre beneficiou duma tolerância ancorada no reconhecimento do que muitos achavam e acham ser a superioridade moral dos seus objectivos. A “crise climática” é apenas mais um pretexto nesse longo historial de violência, com a particularidade oratória nada irrelevante (para mais num tempo de vazio religioso) de incorporar a linguagem mística da redenção: há que salvar a humanidade da perdição, combater o apocalipse, salvar mesmo e quiçá sobretudo quem não quer ser salvo.

Por isso, no escasso tempo de vida útil deste texto, espartilhado entre o dia de reflexão e o momento em que saberemos em quem votaram os portugueses, reflictamos que reflectir a par do voto é a arma do povo.