Não sei se é a realidade se são as direções dos jornais europeus, mas alguma coisa está a dar argumentos às boas almas esclarecidas (que, aqui, é sinónimo de ateias prosélitas) que ensaiam novamente uma equivalência entre todas as malvadas religiões que, como se sabe, só provocam caos e mortandade. Tal como fizeram depois do 11 de Setembro. Ora vejam.

Um jornal judaico ultra-ortodoxo apagou as três líderes europeias do sexo feminino da fotografia da manifestação de Paris do último domingo. Parece que o corpo feminino não é modesto (que bom, diria eu, mas os senhores ultra-ortodoxos não concordam) e deve por isso ser tapado. Como as três senhoras estavam bastante agasalhadas, que estava frio, presumo que as caras femininas também não sejam modestas.

Na Arábia Saudita alcançou-se uma importante conclusão teológica: os bonecos de neve são anti-islâmicos. Incitam, por alguma razão misteriosa, à luxúria e ao eroticismo. (Talvez seja o facto de tanta mulher totalmente tapada levar até a entusiasmos com as formas arredondadas dos bonecos de neve, ou quiçá um eventual prazer sensorial enquanto se molda a neve com as mãos. Penso que é melhor não inquirirmos mais.) E as vozes dos que se convencionou chamar muçulmanos moderados (são os que não apregoam os benefícios de matar infiéis, incluindo os ultra-reacionários) já se fizeram ouvir com nova ofensa à conta da primeira capa do Charlie Hebdo depois do atentado. Sem perceberem que, a ser provocação, é muito pálida depois da gigantesca provocação que é um ato terrorista com mortes. Regressando à Arábia Saudita, país com tão simpático regime, o blogger contestatário Raif Badawi já recebeu as primeiras 50 chicotadas (públicas) e iniciou a pena de dez anos de prisão por ‘insultos ao islão’.

Perante isto, o que se fez do lado da Igreja Católica por estes dias? Bem pior. O Papa Francisco associou-se ao movimento pela amamentação em público e uma revista francesa republicou capas do Charlie Hebdo satirizando papas e até Jesus Cristo.

Digo eu: ainda bem que a clique multicultural europeia tem tudo controlado. Na Grã-Bretanha protegeu uma tentativa de islamizar a educação pública na zona de Birmingham e tenta-se fingir que os crimes ditos de honra não são um sintoma alarmante que vem das comunidades muçulmanas. Theo van Gogh foi assassinado porque era um provocador – teve o que mereceu – e Ayaan Hirsi Ali precisou de se refugiar nos Estados Unidos, que pela progressista Holanda era vista como uma maçadora que incomodava gente suscetível e obrigava a polícia a fornecer-lhe (a contragosto) segurança.
O antissemitismo dispõe do judaísmo, mesmo aquele que é mainstream e apelativo, que há gente que aprecia mais as sociedades islâmicas opressivas do que o imperfeito mas democrático e liberal Israel.

E do cristianismo trata a boa esquerda anticlerical, onde ainda não se recuperou das crises da adolescência e das saudáveis contestações da idade à cultura judaico-cristã onde cresceram. O Podemos, em Espanha, fala já em terminar as celebrações da semana santa em Sevilha. Valha-nos isso. Alguém que entenda que todas as manifestações de cristianismo têm de ser banidas do espaço público – ao mesmo tempo que nos convida a sermos tolerantes, abraçarmos culturas diversas e aprendermos com os bons valores muçulmanos.

Com sorte também lidarão convenientemente com os europeus muçulmanos sensatos, como o presidente de câmara municipal de Roterdão, que aos imigrantes muçulmanos na Europa aconselhou (mal foi eleito) pararem de se ver como vítimas e partirem se não se quisessem integrar; e repetiu o conselho de forma mais gráfica depois do atentado ao Charlie Hebdo.

Um apontamento final sobre as reações ao terrorismo do passado recente e do mais distante.

António Costa tem uma perturbadora tendência de se aproveitar politicamente da desgraça alheia. Desta vez foi um atentado terrorista, que deu a boa ideia ao líder do PS de reunir em frente à sede da CML inúmeros socialistas eminentes (os oficiais e Adriano Moreira) para uma fotografia com a folha ‘je suis Charlie’. Não fica bem usar um edifício público nem vítimas de terrorismo para aproveitamentos partidários, mas há mais que se diga da fotografia.
Não quero fazer parte dos censores de Charlie que houve por cá nos últimos dias. Quem quiser ser Charlie, seja. Mas convém lembrar que nenhum dos senhores que se fotografou com ar pesaroso em frente à CML manifestou qualquer incómodo pela posição do governo português – expressa através do MNE Freitas do Amaral, depois explicitamente apoiado por Sócrates (antes de ter sido assaltado pelo grande amor à liberdade de expressão; pelo menos quando é a sua, bem entendido) – face à violência e ameaças do mundo islâmico aquando da primeira impressão das caricaturas de Maomé num jornal dinamarquês.

A posição oficial do PS foi, então, de condenar a ‘provocação’ que foram as caricaturas; ‘não era essencial’ condenar a violência, mais relevantes que a liberdade de expressão eram ‘as ofensas enormes que tinham sido feitas a toda a comunidade islâmica com a publicação dos cartoons’ (Público, 2/3/2006). Os protestos da direita parlamentar face a esta posição do governo descartaram-se com a sobranceria socrática costumeira.
Costa e companheiros de fotografia já são Charlie. Para evidenciarem coluna vertebral só lhes falta repudiarem a ignomínia do seu partido em 2006.