A recente capa da revista Time em que António Guterres aparece com água por cima dos joelhos em Tuvalu, um dos países mais ameaçados pela subida dos oceanos, é um alerta tremendo sobre o estado a que o nosso planeta chegou e os limites que foram (irreversivelmente?) ultrapassados, fazendo antever que o ponto de “não retorno” está a chegar (foi atingido?).

Com efeito, se em todo o século XX a temperatura média registou um acréscimo de 0,76ºC, a previsão é que num futuro próximo a temperatura suba entre 1,1 a 6,4ºC, dependendo das medidas mitigadoras que sejam desenvolvidas, o que poderá conduzir a fenómenos extremos, cada vez mais evidentes, desencadeando danos irreversíveis nos diversos ecossistemas.

Neste contexto, alguns partidos políticos têm manifestado publicamente as suas preocupações sobre o futuro do planeta.

Exemplo disso é o recente cartaz do Bloco de Esquerda – “Não temos um Planeta B” – que serviu de mote a uma questão provocatória colocada pelo meu filho Tomás: é preciso ser de esquerda para defender o ambiente?

Esta pergunta, que deveria ter uma resposta óbvia, reflete um sentimento, que progressivamente se tem entranhado na sociedade portuguesa, de acordo com o qual a defesa do ambiente está intimamente associada aos partidos de esquerda e que a direita (ou o centro-direita), por princípio, não se interessam, ou têm desprezo por essas matérias.

Mas o que é que a História nos diz sobre isto?

O artigo “Environmental disaster in eastern Europe”, publicado no ano 2000 pelo Le Monde Diplomatique, é lapidar quando refere que “ao optar pelo desenvolvimento económico através de uma industrialização acelerada e uma agricultura intensiva, a União Soviética e os países da Europa Oriental mostraram pouco interesse pelo meio ambiente. A bacia do mar Aral foi transformada numa enorme plantação de algodão, enquanto atividades nucleares concentraram-se no mar de Barents, apesar da fragilidade dos ecossistemas locais”.

Na realidade, a defesa do ambiente nunca foi aspeto doutrinário dos países da “cortina de ferro”, cujos políticos e cientistas aderiram de forma efusiva ao princípio da biosfera “auto-purificavel”, com as consequências que o Le Monde Diplomatique bem ilustra.

E em Portugal, a defesa do ambiente é património da esquerda?

Percorrendo os programas eleitorais para as eleições de 1979 encontramos alguns elementos que nos poderão ajudar a dar uma resposta: “Os recursos naturais são limitados […] se não se fizerem economias, se continuarmos como até agora, poremos em risco as gerações futuras. E não é forçoso que a política de desenvolvimento assente no esgotamento dos recursos naturais”. Esta frase não pode estar mais atual e foi retirada do programa eleitoral da Aliança Democrática.

Cerca de oito anos depois, e onze anos depois do reconhecimento constitucional dos direitos do ambiente, é aprovada a primeira Lei de Bases do Ambiente (Lei n.º 11/87, de 7 de abril), resultado do Projeto de Lei n.º 12/IV que tinha um autor: o PSD.

Em face do anterior, facilmente se conclui que a esquerda nem sempre teve preocupações ambientais e que o centro-direita, que maioritariamente não se revê nas políticas “anti-ambiente” de Donald Trump, tem um extenso e importante legado em matérias de defesa do qual não se pode envergonhar.

Na realidade, a defesa do ambiente é – tem de ser – um desígnio nacional, aliás, multinacional e os partidos de centro-direita têm de ter a coragem e a inteligência de o assumir.

Professor universitário