António Costa venceu, sem deixar margem para uma sombra de dúvida. Venceu um certo carisma, uma personalidade definida, um passado de esquerda impoluto, uma auto-confiança tranquilizadora, uma promessa de um governo firme apoiado num consenso político-partidário alargado. Não venceu nada mais do que isto, mas venceu. Como diria Seguro, “ponto final”. Foi, de facto e para já, uma vitória da esquerda socialista, que esta legitima e justificadamente saboreou com alegria, finalmente liberta tanto das arguições herdadas do reinado de Sócrates como de uma liderança incapaz de a redimir do legado ominoso deixado pela governação do engenheiro. Do triunfo de Costa nestas primárias saiu um PS de cara lavada e cabeça levantada.

Era natural esperar que toda a esquerda tivesse pelo menos de 24 horas de regozijo. Mas ainda Costa irradiava uma compreensível felicidade sob os holofotes da noite de 28 de Setembro, e já Jerónimo de Sousa, de rosto carrancudo e voz zangada, surgia nos ecrãs avisando o povo de que as primárias não tinham passado de uma “farsa” destinada a encobrir as “políticas de direita” e as vergonhosas cumplicidades com que o PS vivera no passado e continuaria a viver no futuro, com Costa ou sem ele ou com outro qualquer. Embora o rosto sulcado de raiva parecesse genuíno, é bem possível que a real intenção de Jerónimo fosse a de desde logo elevar o preço da uma futura – hipotética – benevolência. Mas para começo de conversa as palavras ameaçadoras (ou despeitadas?) do chefe do PCP não auguram nenhuma cordura para os tempos mais próximos, ou até para todo o sempre. O Partido Comunista Português continua parado há cem anos.

Mas não podem deixar de surpreender as reacções arrogantes e presunçosas vindas logo no dia seguinte dos que se situam à esquerda do PS e constituem uma obscura nebulosa a que se convencionou chamar “partidos emergentes”, que ninguém sabe quem nem o quê representam, a não ser as luminárias e os interesses dos que se assumem como as suas estrelas. Estes, sem saberem sequer o que valem, uma vez que o número de seguidores nas redes sociais ainda não conta como votos, já se sentem, modestamente, em posição de ditar condições a António Costa.

Daniel Oliveira, pelo “Forum Manifesto” (?), já decretou que Costa “não pode falar tanto com Rui Rio como com a esquerda”, sob pena, subentende-se, de se tornar imprestável para uma aliança, acordo ou até simples conversa. Costa não deve ser tentado por um “bloco central” e também está proibido de se fiar numa hipotética “maioria absoluta”, não só porque é “improvável” como seria “pouco benéfica para o país”. Com tudo isto, Costa, se se portar bem, então poderá “dialogar” com o “Fórum”, tendo embora muito presente que “dialogar não é apoiar e só pode dialogar quem deixar bem claro quais são as diferenças.” Aguardamos que Oliveira explique bem as suas diferenças.

Rui Tavares, que o seu “Partido Livre” (?) não conseguiu instalar no Parlamento Europeu, também sabe, certamente através de um oráculo desconhecido, que uma maioria absoluta do PS “não é o que os portugueses vão querer”, e sabe igualmente que os portugueses desejam ardentemente “um governo de esquerda com uma alternativa concreta para governar.” O “Livre” ajudará nessa missão patriótica, com uma condição: Costa que não sonhe em governar “ao centro”. Outro modesto, que também não se coíbe de falar em nome dos portugueses.

Quando tanta inanidade prolonga a frustração provocada pela desertificação política e intelectual da esquerda radical, como aliás da esquerda moderada e social-democrata representada pelo Partido Socialista português e seus congéneres europeus, eis que irrompe em Espanha um sinal de esperança numa renovação séria e criativa. Pedro Sánchez, um homem jovem até há pouco desconhecido, que arrebatou o PSOE e foi eleito seu secretário-geral, não tem complexos de esquerda nem teme ser acusado de seguidor ou servo de Mariano Rajoy. Identificou as pretensões soberanistas da Catalunha como o “principal problema político” que ameaça a Espanha, uma vez que envolve “a ruptura do Estado e isso altera a ideia mesma do que é a Espanha.” (El País, 22.9.14, pp. 31-32)

Quando Artur Mas, presidente da Generalitat da Catalunha, aprovou no Parlamento catalão a eufemisticamente chamada “Lei de Consultas”, na verdade um autêntico referendo premeditado para abrir a porta à auto-determinação, Sánchez, em nome do PSOE, subscreveu “a posição do governo que – palavras dele  no citado “El País” – inclui a impugnação da lei de consultas e a convocatória que, sobre as suas disposições, fará o presidente da Generalitat, bem como a adopção das medidas necessárias para que a consulta em questão possa realizar-se.”   Tal como Rajoy, Sánchez considera o referendo “inconstitucional” e ilegítimo: a “comunidade de vida” que historicamente se converteu naquilo que é a Espanha e propriamente a constitui, não pode “ficar nas mãos de uma só parte das que a integram”, devendo esta questão ser resolvida “por todas elas”. Mas, continua Sánchez, o mero impedimento do referendo, por si só, não resolve a frustração dos catalães que inevitavelmente resultará de um 9 de Novembro cancelado, data para a qual Artur Mas entretanto já marcou a chamada “consulta”, fiado ou esperançado em que as “mobilizações de rua” obrigarão Madrid a vergar a cerviz (El País, 28.9., p.14).

A solução, segundo Sánchez, estará então numa “reforma pactuada da Constituição” que “incorpore uma perspectiva federal”. Não apenas para resolver o problema da Catalunha, o que no entanto por si só a justificaria, embora apenas 30% dos catalães sejam indefectíveis independentistas. Porém a Constituição de 1978, votada pela esmagadora maioria dos espanhóis, necessita hoje de ser “actualizada” no que se refere às suas disposições autonómicas. Mas esta actualização tem de recolher a anuência de todos os espanhóis, e não apenas a aprovação unilateral de uma ou algumas das partes que ao longo da História, em conjunto, após “gerações e gerações de homens e mulheres”, como fruto comum do “seu trabalho, das suas frustrações”,   criaram uma entidade a que chamaram “Espanha” e como tal é reconhecida por si mesma e pelo mundo inteiro. Ora “a auto-determinação  viola a unidade da soberania espanhola.”

Esta linguagem, este pensamento, para mais vindo da esquerda – mas uma esquerda liberta do policiamento de um qualquer Partido Comunista e respectivos apêndices radicais – surpreende e promete num país, como o nosso, que ignora a sua História e despreza o legado das gerações passadas. Inversamente, Sánchez e o PSOE estão conscientes de que a acção política não deve nem pode submeter-se ao objectivo prioritário de impor a indisputada superioridade partidária e a exibição da autoridade incontestada do Chefe. Por outras palavras: que o sectarismo mata toda a tentativa de mobilizar uma nação, no seu conjunto, em torno de uns quantos objectivos nacionais.

Por isso Sánchez convida Rajoy a considerar uma série de temas a incluir numa “reforma constitucional pactuada”, que vão desde os pilares do Estado de Direito (liberdades, direitos e garantias individuais) até aos pilares do Estado Social. Na sua agenda estão, por exemplo, o reconhecimento constitucional de “novas formas de famílias”, a protecção real e eficaz da saúde, a garantia do “direito ao trabalho e à habitação” e demais “políticas sociais que cristalizam o Estado de bem-estar”. Mas, acrescenta, “Não é uma lista de condições prévias. É uma proposta que, num exercício de responsabilidade, dirigimos a todos para começar a trabalhar com lealdade e com a vontade de, mediante encontros e renúncias mútuas, alcançar um acordo.”

Li o artigo de Pedro Sánchez e pensei: aqui está uma esquerda desinibida e dinâmica, acertada com o mundo actual, uma esquerda útil, sem o espalhafato optimista de um Renzi nem a pertinácia agressiva e provavelmente estéril de um Valls. A “reforma constitucional pactuada” que Pedro Sánchez reclama não será abortada por pré-condições que a inviabilizam nem será negociada com a mira de ganhar tudo. E será “submetida ao referendo de todos os cidadãos.” Eis uma boa lição de política para a petulância dos novos “partidos emergentes” e para a audácia presunçosa de partidos já instalados que, embora muito minoritários ou em estado de decomposição, se atrevem, sem pudor nem modéstia, a falar como representantes de todo o povo português. E uma boa lição também para o “arco governativo”, que, empenhado antes de mais na sua auto-conservação, tantas vezes permanece surdo às frustrações que afectam sectores sociais merecedores de contemplação, se realmente queremos uma sociedade inclusiva e não retalhada em campos antagónicos. Infelizmente, esta “inclusividade” não se resolve apenas com subsídios e reformas eleitorais.