A um ano das eleições legislativas, a vitória de António Costa nas primárias do PS levanta questões sobre como o candidato socialista a primeiro-ministro vai gerir o percurso até lá. Os movimentos e partidos políticos emergentes acreditam que uma maioria absoluta para o PS é “improvável” e “pouco benéfica para o país”. Diálogo à esquerda, sim, mas para isso, diz o comentador e membro do movimento Fórum Manifesto Daniel Oliveira, é preciso que António Costa se demarque do Bloco Central – “não pode é dizer que tanto fala com Rui Rio como com a esquerda”.

Ao Observador, Daniel Oliveira afirmou que a associação política Fórum Manifesto está disponível para dialogar com os partidos de esquerda, nomeadamente com o PS. E o facto de António Costa ter sido eleito como candidato a primeiro-ministro faz diferença no estabelecimento dessas pontes de negociação: “É mais fácil dialogar com António Costa do que com António José Seguro porque é mais fácil dialogar com um líder mais forte”, diz.

Mas para o comentador, que sublinha que dialogar não é “apoiar” e que “só pode dialogar quem deixar bem claro quais são as diferenças”, António Costa tem de decidir primeiro se está disponível para um Bloco Central ou para um governo de esquerda, porque, diz, “não se trata de uma questão de aritmética, mas sim de uma questão política“.

“O que António Costa não pode fazer é dizer que tanto fala com Rui Rio como com a esquerda”, afirma, sublinhando que tem de haver uma demarcação clara do candidato socialista e uma “proposta credível de rutura” para convencer os descontentes da política. “Se o candidato do PS recusar a ideia de perpetuar o arco da governação, então abre espaço para diálogo e nós, enquanto projeto político, estamos dispostos a dialogar”, diz.

Para Daniel Oliveira, no entanto, é clara a presunção de que os partidos mais pequenos da esquerda iriam beneficiar em termos eleitorais se António José Seguro estivesse na liderança do PS, como aconteceu nas eleições europeias de maio. Mas depois do desfecho de domingo à noite, Daniel Oliveira defende que “não há dúvidas” de que “António Costa vai ser primeiro-ministro”, resta é saber “com que resultado e com que expectativa” vai chegar até lá. Ou seja, “se vai ser eleito por ser bom ou pelo adversário ser mau”. Em todo o caso, é “muito improvável” que vá ter maioria absoluta.

Também Rui Tavares, fundador do partido Livre, acredita que uma maioria absoluta para o PS de António Costa não é muito provável, “nem é o que os portugueses vão querer”. Mas para Rui Tavares, a expectativa sobre uma futura governação de António Costa é elevada: as próximas eleições legislativas podem representar “uma viragem na política em Portugal”, podendo ser “o caminho para um governo de esquerda com uma alternativa política concreta para governar”.

Mas isso só acontecerá dependendo da forma como António Costa sair da “encruzilhada” em que se encontra: “Ou governa ao centro ou aproveita o momento histórico e dá o primeiro governo de esquerda que Portugal nunca teve”. Mostrando-se “disponível para dialogar”, o dirigente do Livre sublinhou ainda a ideia de que “os portugueses não vão querer uma maioria absoluta de um partido que já revelou não ser bom a governar sozinho”.

Mas não foi só à esquerda que os partidos emergentes acompanharam com atenção as primárias socialistas. O movimento Nós, Cidadãos, dinamizado por Mendo Castro Henriques e Rui Rangel, também viu com “agrado” a extensão democrática das eleições primárias. Mas ao Observador, Mendo Castro Henriques não se quis pronunciar sobre a vitória de António Costa e a derrota de António José Seguro, porque, diz, “o debate destas primárias não revelou ideias”, apenas “personalidades e carisma”.

Sobre um futuro cenário eleitoral, um dos promotores do movimento Nós, Cidadãos, diz que ainda é “cedo” para falar sobre legislativas. “Primeiro, é preciso falar em programas verdadeiramente eleitorais e mostrar que há soluções credíveis”. Só depois se deve começar a falar em governações para 2015, diz.

António Marinho e Pinto, que vai fundar o Partido Democrático Republicano, não esteve disponível.