Diante do ano escolar que agora se inicia, e depois de várias polémicas que marcaram este novo ano escolar mesmo antes de começar, não podemos fazer outra coisa que não seja congratular e apoiar quem ainda hoje deseja ser professor. Já não é novidade que a profissão, ao dia de hoje e com o que sabemos hoje das intenções do Governo para o presente ano letivo, não é tão atrativa como o foi outrora e as razões foram já debatidas, escrutinadas e esmiuçadas por especialistas na área ou por aqueles que se afirmam como tal. Portanto, a nossa intenção neste artigo não é participar nesse debate, não é sequer participar no debate oposto (isto é, indagar os motivos que levam alguém a querer ser professor; este tema poderá ser alvo de um artigo no futuro), mas deixar algumas recomendações a todos aqueles que participam no processo educativo: professores, pais, alunos, direções de escola, Ministério da Educação e a comunidade em geral.

Em primeiro lugar, alertar para a dissimulação que se faz relativamente ao problema da falta de professores através de uma semântica eufemística. Bem sabemos que se trata de um problema grave, mas tentar disfarçá-lo utilizando palavreado que não descreve nem resolve o problema não pode ser solução. Para enfrentar os problemas é preciso identificá-los e encará-los sem medo, mesmo que sejam palavras indesejáveis e que apontam erros que foram cometidos continuamente ao longo de sucessivos governos.

Seguidamente, pedir aos pais e encarregados de educação e alunos que tenham paciência com professores sobrecarregados e desmotivados. Não é fácil, num universo de centenas de alunos que cada professor tem no seu encargo, atender simultaneamente a todas as necessidades e pedidos que lhes são dirigidos. E os professores, além da escola, também têm famílias e afazeres, apesar de muitos lhes exigirem inteira disponibilidade, não respeitando fins-de-semana nem feriados, folgas ou descansos.

Evidenciar também o contínuo trabalho desenvolvido pelas direções escolares, que abdicaram de férias para que o ano letivo pudesse iniciar-se da melhor forma possível. Antes de criticar de forma gratuita, deve-se tentar compreender o que levou a determinadas decisões, sendo cientes que também as direções das escolas devem cumprir determinados regulamentos e as suas decisões dependem da aprovação dos superiores hierárquicos.

Por fim, uma nota aos professores. Ensinar não é despejar matéria nos alunos, requer mais que o conhecimento científico ou técnico das matérias que ensinam. Ensinar exige um compromisso profundo com os valores democráticos e um conhecimento do ambiente, capacidades e dificuldades dos alunos. É preciso conhecimento didático e pedagógico que nem todos os professores não profissionalizados possuem, tendo sido ignorados e desprezados professores em formação que tiveram já aprovação teórica a essas disciplinas. Ensinar requer estudo constante e permanente, um estudo que se deve prolongar toda a vida para que sejamos dignos de ensinar uma só hora.

Portanto, é necessário estabelecer uma comunicação permanente e constante entre todos os membros da comunidade educativa. É preciso construir uma ponte de respeito e compreensão entre todos os intervenientes da educação. E esperar que terminem os enganos e as mentiras, os eufemismos ou as hipérboles, para que a realidade da educação seja real e tenha um futuro bem mais luminoso que a escuridão do presente.

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