Vasco Pulido Valente foi sempre uma voz independente de todas as tutelas e de todas as clientelas — um homem livre, com um fundamental compromisso com a democracia liberal ocidental. Já tudo terá sido sobre o saudoso Vasco Pulido Valente. De entre todos as valiosas homenagens que li, neste e em muitos outros jornais, gostaria de realçar os textos de Miguel Pinheiro e João Marques de Almeida aqui no Observador. Muito certeiramente, ambos recordaram e sublinharam o compromisso fundamental de Vasco com a opção liberal-democrática ocidental.

Como recordou Miguel Pinheiro, Vasco Pulido Valente esteve com a oposição à ditadura antes do 25 de Abil; depois com Ramalho Eanes para pôr fim ao PREC; depois com a Aliança Democrática de Sá Carneiro para consolidar uma direita democrática e liberal; depois com o MASP de Mário Soares, em 1986, para provar que era possível uma esquerda democrática, liberal, ocidental, não terceiro-mundista e anti-comunista.

Além de tudo isto, ou na base de tudo isto, Vasco Pulido Valente foi sempre uma voz independente de todas as tutelas e de todas as clientelas — um homem livre, com um fundamental compromisso com a democracia liberal ocidental.

Não tenho realmente muito a acrescentar aos textos de Miguel Pinheiro e João Marques de Almeida, bem como aos muitos tocantes depoimentos que têm sido publicados — numa feliz manifestação da cultura demo-liberal que afinal ainda existe entre nós.

Apenas posso dizer que fui aluno de VPV no ISE (antigo ISCEF, agora ISEG) nos anos idos de 1972/73. Fui depois seu colega (junior) no Instituto de Ciências Sociais, fundado pelo saudoso Adérito Sedas Nunes. Estivemos juntos no MASP, na candidatura presidencial de Mário Soares, em 1986. Tivemos depois algumas animadas polémicas jornalísticas acerca de Cavaco Silva (que ele atacou e eu defendi) e da reunificação da Alemanha após a queda do Muro de Berlim (de que ele foi céptico e que eu defendi). Convergimos sempre, no entanto, num desportivo cepticismo acerca dos grandes planos federalistas supra-nacionais para a União Europeia.

Este pequeno detalhe leva-me a mencionar um aspecto do contributo de Vasco Pulido Valente que raramente tem sido mencionado: a sua profunda adesão à tradição liberal, descentralizada, aristocrática e moderada dos povos de língua inglesa, profundamente diferente da tradição despótica, centralista, igualitária e alegadamente democrática, da revolução francesa de 1789.

Acredito que foi essa tradição liberal de língua inglesa que esteve subjacente à sua crítica demolidora da experiência jacobina da nossa I República (1910-1926). Vasco foi, é bom recordar, um dos primeiros cronistas a recomendar entre nós a leitura do Telegraph de Londres (por muitos designado “Torygraph”) e da Spectator. Também por isto lhe estou grato.

Apesar do seu proverbial mau feitio (para dizer o mínimo), recordo com saudade um jantar em Oxford, algures na década de 1990, em que celebrámos animadamente a comum admiração pela tradição britânica da liberdade sob a lei — “the right to be left alone”, “live and let live” e “mind your own business”, foram as nossas referências preferidas. Receio ter de admitir, todavia, que Vasco foi capaz de nesse jantar beber mais whisky e fumar mais cigarros do que eu… (com a devida vénia à ortodoxia politicamente correcta que hoje pretende instaurar uma nova ditadura jacobina de costumes no Ocidente).