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Junta-se agora em direto a este jornal o dirigente da associação ambientalista Quercus, Domingos Patacho. Bom dia, obrigada por estar conosco. Estamos a falar aqui de 10% do Parque Natural da Serra da Estrela. O que se está a perder em termos de biodiversidade? É possível fazer esse balanço?
Muito bom dia. Eu acho que podemos fazer só um balanço muito prévio, porque a área ainda está a ser afetada por grande incêndio, portanto, tem que se verificar no terreno a severidade do que o fogo teve e sabemos que os impactos são muito grandes, mas não se consegue fazer ainda uma avaliação. Isso vai ter que ser nos próximos tempos, com visitas ao terreno e tentar ver de que forma é que foram afetados, para ver também qual é a capacidade de regeneração que eles têm e as intervenções que são necessárias para repor os ecossistemas.
O que é que torna único este parque natural, Domingos Patacho?
Torna-o único por ser o maior parque natural em Portugal. É um maciço com vários geossítios classificados no Estrela Geoparque pela UNESCO. É também uma zona especial de conservação da Rede Natura 2000, por ter diversos habitats protegidos com interesse pra conservação da natureza, onde existem espécies, algumas delas são quase únicas no mundo. Se formos ver ao nível da fauna, por exemplo, existem espécies que são endemismos ibéricos, que só existem na serra da Estrela e no norte de Espanha e mais local nenhum no mundo. Portanto, não estamos a falar de um território qualquer. São áreas, de facto, muito vastas, que também é difícil conter o incêndio depois de ele ter tomado essa dimensão que tomou ao fim do primeiro ou segundo dia. De qualquer das formas, tem que se avaliar bem a progressão e a forma como se pode conter o incêndio pra não aumentarem mais os impactos.
Claro, estamos quase com uma semana de incêndio e não é a primeira vez que este parque arde de uma forma considerável. Já vimos o mesmo acontecer, por exemplo, em 2017. Como é que se pode evitar que isto aconteça?
Bem, essa é uma boa questão. Primeiro, reduzindo as ignições. Neste caso, entendendo a investigação que está a ser feita, o fogo começou de madrugada, teve origem, provavelmente, originada pela mão humana na sua ignição. Mas há muitas ignições, há muitos fogos que começam por negligência, pelas fogueiras, pelas queimas que são feitas pra tentar destruir alguns dos sobrantes da agricultura ou da floresta e que depois descontrolam. E nessa vertente, através da sensibilização, consegue-se reduzir o número desses fogos e os meios ficarem focados apenas em poucas ocorrências que são menos bem-intencionadas, digamos assim. Isso é essencial. Depois, obviamente, tem que haver uma estruturação da paisagem ligeiramente diferente, mais em mosaico, com espécies mais resilientes ao fogo. Se formos ver, por exemplo, em Manteigas, as zonas que arderam com maior intensidade são precisamente as áreas de castanheiros, de folhosas, que permitiram que o fogo progredisse mais devagar e portanto, também facilita depois a sua própria regeneração. Isso tem que ser avaliado posteriormente, mas pode ser uma lição pra percebermos que se tivermos espécies que são mais adequadas ao território, em princípio, os fogos apesar de existirem na mesma, progridem de uma outra forma.