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Aparelho do PS ameaça ministro para colocar “boys” em gestão hospitalar

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O presidente do PS da Guarda ameaça tirar "confiança política" ao ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, se não nomear dirigentes do partido para a gestão hospitalar do distrito.

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Caro senhor ministro, ou coloca boys do PS para a Unidade Local de Saúde da Guarda ou retiramos-lhe a confiança política. De uma forma genérica, foi esta a ameaça feita na última sexta-feira pelo presidente da Federação Distrital do PS da Guarda, António Saraiva, ao ministro da Saúde, através de um e-mail enviado para o ministério, ao qual o Observador teve acesso e que já tinha sido noticiado pela rádio Altitude.

O ministro decidiu nomear para a Unidade Local de Saúde (ULS) da Guarda Isabel Coelho, que não é militante socialista mas tem um currículo adequado à função. O dirigente do PS — que não tem a maioria na comissão política distrital — transmitiu ao ministro que “a federação do PS da Guarda” não pode “concordar e aceitar a proposta de equipa para integrar o próximo Conselho de Administração” da ULS.

O Observador sabe que há um mal-estar no PS da Guarda por causa deste mail “ridículo”, como classifica um dirigente socialista do distrito. “Estamos a insistir na convocação de uma Comissão Política Distrital para pedirmos a cabeça do António Saraiva”, afirma o mesmo socialista com assento neste órgão partidário.

No email ao ministro, António Saraiva diz diretamente que está a pedir que os cargos de gestão sejam ocupados por militantes do PS, escrevendo que, “em termos locais e distritais, não é possível que um Conselho de Administração de uma estrutura como é a ULS da Guarda não integre um único elemento de plena confiança das nossas estruturas locais e concelhias”. No mesmo texto, o presidente da federação distrital socialista considera que a escolha de independentes “é o desacreditar do PS em termos distritais”, bem como da “afirmação” da estrutura e significa o “arrastar de graves consequências políticas.

O dirigente socialista lamenta ainda que apareçam nos órgãos de gestão “clínicos que chegaram a pertencer a conselhos de administração do Governo PSD.”

Depois desta exposição, vem a ameaça velada ao ministro, dizendo que convocou o secretariado e os autarcas para uma “posição conjunta” sobre esta situação e avisando que pode passar por:

Demonstrar publicamente a nossa não confiança política aos responsáveis por esta decisão e à equipa, e, mesmo ao desvincular dos órgãos distritais por parte de alguns membros para além de puderem vir a cair candidatos autárquicos”.

E-mail enviado pelo presidente da Federação Distrital da Guarda

Para aumentar a pressão, o e-mail foi enviado também à secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, ao secretário nacional para a administração, Luís Patrão, ao secretário nacional para a organização, Hugo Pires, e aos dois deputados eleitos pelo distrito, Maria Antónia Almeida Santos e Santinho Pacheco.

Contactado pelo Observador, António Saraiva considera que a interpretação que tem sido feita ao email “está distorcida da realidade” e que, “perante boatos”, sentiu que era necessário fazer um “alerta ao ministério para esta questão”. E atirou: “Foi um alerta ao ministério, tudo o resto são fait divers.” E, para demonstrar que não está desconfortável com a administração escolhida pelo ministro, até revela: “A pessoa que está indicada para presidente do conselho de administração, fui eu que dei a indicação aí para baixo.”

Fonte da distrital do PS explicou ao Observador que o atual presidente da Federação queria colocar dois membros do seu secretariado na gestão da ULS: Nuno Laginhas ou o antigo presidente da Associação de Dadores de Sangue, António Carlos Santos (que há anos esteve envolvido numa polémica de inscrição de militantes em massa através da associação de dadores). Mas o ministro não só nomeou uma independente, como a independente recusou-se a escolher boys para a estrutura, utilizando como critério as habilitações. A mesma fonte diz que o atual presidente da Federação está numa atitude “vergonhosa” a tentar “partidarizar” a administração hospitalar. Lembra ainda que “neste momento ele nem sequer tem a maioria da comissão política, por isso não pode falar em nome da federação”.

A federação da Guarda do PS tem uma história recente atribulada. As eleições para a federação foram anuladas este ano em fevereiro, depois de ter sido detetado que havia um candidato morto nas listas de António Saraiva. O conflito que se desenvolveu depois desta polémica, que ainda tinha a ver com a eliminação de membros da lista que desafiava a da linha do poder vigente no distrito, levou à desistência de Eduardo Brito, deixando Saraiva como único concorrente.

Antes de António Saraiva, o presidente da Federação era José Albano Marques, que obtinha sempre votações recorde nas eleições internas da federação, sobretudo no seu concelho, Celorico da Beira. Foi acusado por outros dirigentes, ao longo de anos, de inventar militantes, de fazer militantes que não sabiam que o eram. Seria o caso de um dos nomes que se perfilavam para aceder à administração da ULS, que era um dos operacionais de Albano Marques.

Ao que o Observador apurou, o ministro da Saúde terá desvalorizado a pressão feita pela estrutura distrital e recusa nomear gestores com base na lógica do aparelho e da pertença partidária. O Observador fez ainda questões ao ministério da saúde, estando ainda a aguardar a resposta às mesmas.

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