Entrevista

Língua Franca: o português a conquistar o mundo

Há mais hip hop que junta os dois lados do Atlântico. Entrevistámos a metade portuguesa, Capicua e Valete, que nos falaram de política, sociedade, do poder da música e da língua portuguesa.

Da esquerda para a direita: Emicida, Valete, Capicua, Rael. A Língua Franca já tem presença marcada no Festival Super Bock Super Rock, dia 14 de julho

Fotografia: Vera Marmelo

Quatro artistas, dois países e um denominador comum: a língua portuguesa. A Língua Franca resulta da reunião de quatro MCs, dois portugueses e dois brasileiros que manipulam as coisas do hip hop como poucos. Capicua, do Porto, Valete, da Amadora, Emicida e Rael, de São Paulo.

Os quatro encontraram-se numa residência artística em Portugal e, com a ajuda dos produtores Fred Ferreira, Kassin e Nave, construíram um álbum que é mais do que uma compilação luso-brasileira: é um tributo à lusofonia.

Língua Franca é igualmente o nome do álbum que sai esta sexta-feira, dia 26. Não foi difícil de fazer, como nos contaram Capicua e Valete. No final da semana passada entrevistámos a metade portuguesa do quarteto, que nos explicou por que razão classificam esta banda como um projeto de lusofonia, um desafio que cruza experiências e culturas. Pelo meio deram-nos uma lição de história, partilharam preocupações sociais e sobre o futuro do rap lusitano.

Capicua vai estar em São Paulo, no Brasil, a fazer a promoção de Língua Franca, disco, banda, projeto. Ao longo desta semana, vai partilhar com o Observador algumas imagens e ideias dessa viagem.

Capa do álbum Língua Franca. É editado no dia 26 de maio

Estão contentes com o resultado final de Língua Franca?
Valete (V): Sim, eu estou. É muito difícil fazer um disco de grupo, são sete pessoas, quatro MCs e três produtores, todos com visões diferentes e que sabem bem o que querem. Talvez por isso o disco não tenha uma coerência sonora, mas se calhar era isso mesmo o que se pretendia.

Como é que vocês se encontraram?
Capicua (C): Foi numa espécie de residência artística, tivemos 10 dias num estúdio aqui em Lisboa, os quatro MCs e o Fred [Ferreira], um dos três produtores. Nesse período desenhámos o esqueleto do disco, os instrumentais, escolhemos os temas que íamos abordar, escrevemos muitas músicas em conjunto — aliás, o disco ficou quase todo gravado nesses dez dias – discutir refrões e quem é que entra em cada música.

Foi fácil?
C: Sim, já nos conhecíamos praticamente todos, só eu e o Rael é que não nos conhecíamos. Houve um ambiente muito amigável e criativo. Acho que isso nota-se bem no vídeo de “Ela”, onde aparecem imagens desses dias — já agora, vai sair um documentário em que se mostra o que se passou ali.

Além de ter sido muito fácil, foi muito estimulante do ponto de vista artístico, porque o Emicida e o Rael são muito rápidos, intuitivos e livres a escrever. Para nós que temos uma abordagem mais “portuguesa”, mais cerebral, mais ponderada, também puxou por nós, no sentido em que temos uma escrita filtrada pelas nossas inseguranças e dúvidas, isso obrigou-nos a ser mais espontâneos.

Ao mesmo tempo foi um bocadinho aquele regresso à forma “old school” de fazer rap, aquela coisa mais informal de fazer música em casa. Claro, com a experiência de quem já fez discos, foi por isso o melhor de dois mundos.

O rap português é muito diferente do brasileiro?
V: Não consigo ser um grande conhecedor, há muita produção de rap no Brasil, é um país enorme. Há dez anos eles tinham “recenseados” 10 mil rappers!

Sinto que há uma escola que é muito tradicional no Brasil que é a narração do que se vive nas favelas e ao nível instrumental alguma inspiração na costa oeste dos Estados Unidos. Depois há uma escola mais recente, do Emicida, que é um dos timoneiros dessa escola, que aceita fundir o hip hop com o MPB [Música Popular Brasileira], aceita arriscar mais, aceita viajar por ambiências africanas. Em relação ao texto, no Brasil o rap dos anos 90 era uma coisa que vinha da favela, denunciava as injustiças sociais…

C: Era mais politizada, mais “consciência negra”.

V: Em Portugal, o rap tem uma raiz de classe média. Os primeiros rappers vinham da classe média, mesmo os dos guetos. No Brasil a coisa vinha mesmo lá de baixo. Hoje é mais ligeira, mais pop, tem uma mensagem mais tranquila. Nós por cá temos alguma diversidade, mas agora está a aparecer uma linha mais parecida com o que se faz nos EUA, uma linha com mais… hedonismo.

C: É mais materialista, mais de ostentação. Na raiz do rap brasileiro está mais a cena Black Panther [movimento político e social], mais negra e politizada. Depois abriu, tal como aqui em Portugal, para muitas outras derivações, mistura de rap com MPB, com funk, etc. Depois, cada região tem o seu estilo. Há subgéneros, como aqui. Hoje tens rappers nerds que falam de banda desenhada, tens rappers competitivos, românticos, dark, tens todo o tipo…

V: Mas há um vazio político no rap português que se nota muito. Eu até tenho medo…

C: Oh, tu fazes rap de intervenção, eu também…

V: Não é isso. Nós somos todos MCs de gerações anteriores. Creio que pode acontecer a falência do rap de consciência em Portugal.

C: Mas sabes que isso chega a um extremo e depois dá a volta.

V: Sim, mas tem de dar a volta com pessoas dispostas e preparadas para fazer isso, e eu não sei se há uma juventude…

O que é que lhes falta?
V:
Sabes, eu lido muito com jovens. Criei uma associação na Damaia para ajudar jovens desprotegidos, para os ajudar na inserção social. E o que vejo naqueles adolescentes não é só a despreparação escolar mas um desinteresse muito grande pelo que se passa em Portugal e no Mundo. Eu nos anos 90 tinha de ver o telejornal com o meu pai, OK? E eu que não valorizava isso percebo hoje a importância que teve. Os miúdos hoje tem tanta opção para se entreterem que eles sabem muito pouco das coisas do mundo. Sabem das coisas que gostam, mas ao nível da política e da economia sabem pouco, menos do que a minha geração.

C: Isso também se passa não só nos jovens, também com os adultos. Hoje em dia as pessoas parece que têm medo de utilizar a palavra “política”, como se fosse uma palavra conspurcada que contagia tudo à volta. Acho que as pessoas têm de perceber que uma coisa são os partidos e a política partidária, outra coisa é a política enquanto visão do mundo, enquanto ideia de projeto para a sociedade. É bom que as pessoas tenham espírito crítico e desconfiem do poder, mas também é bom que as pessoas não tenham medo de expressar opiniões, de falar em política, muito menos no meio artístico, em que há uma espécie de ideia de que os artistas têm de ser assépticos para não chatear ninguém, para não comprometer o dia de amanhã.

Acho que isso se alargou à vida em geral, as pessoas têm medo de perder o emprego, sobretudo depois da crise, criou-se uma situação quase de autocensura, as redes sociais também policiam muito as pessoas… Se vivemos num mundo em que falar de política é assim tão “arriscado” e “impróprio”, claro que os mais jovens não crescem num meio onde é normal haver discussões políticas em casa, em que é normal ler artigos no jornal e discordar. Vivemos uma fobia tão grande do contraditório e do debate, dessa coisa tão entusiasmante que é discutir projetos de sociedade e utopias, que nos anos 70 era tão bom e agora é o diabo, como é que podemos exigir dos mais jovens que eles se interessem, não é?

Já nos disseram que o hip hop português e brasileiro contam histórias diferentes. Como é que a Língua Franca faz esse cruzamento?
V:
Uma graça que tem o disco tem a ver com a diferença que temos. Acho que é das coisas mais engraçadas do disco. Eu sou dos subúrbios de Lisboa, a Capicua é do Porto, o Emicida e o Rael são de São Paulo, mas de zonas diferentes da cidade. Os quatro temos histórias e percursos pessoais e profissionais diferentes. É muito difícil fazer discos em grupo, muito difícil mesmo, porque tu podes escolher um tema muito genérico mas depois é difícil ter a coerência no tema. Mas isso trouxe a beleza, porque são quatro perspetivas diferentes sobre um mesmo tema.

Mas discutiam muito?
C:
Nem por isso. O facto de sermos MCs do mesmo género… para começar, somos pessoas que gostam de música. Gostamos de misturar o rap com outros sons, de pôr o rap ao serviço de causas, falar de coisas que nos preocupam, temos referências musicais próximas, gostamos de MPB, de rap consciente, de fado, sabes… partilhamos um conjunto de coisas, mesmo que tenhamos uma visão diferente do mundo é como aquela linha do Carlos Tê, “é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa” [“Primeiro Beijo”, Rui Veloso].

O tema “Ela”, por exemplo, é uma música que fala sobre a música, onde cada um de nós fala sobre a sua vivência, sobre a relação que tem com a música e sobre como a música salvou a nossa vida de formas diferentes. Tens quatro MCs a cantar sobre o mesmo tema de formas diferentes, com sotaques diferentes, com palavras diferentes dentro da nossa mesma língua franca, e aquilo faz sentido. Somos quatro naipes do mesmo baralho [risos].

No vídeo de apresentação a Capicua diz que “o disco nunca está fechado até chegarmos ao palco”. O que é que podemos esperar dos vossos concertos?
V: Ainda não sabemos o que vai acontecer [risos]. Vamos ter um tempo de ensaio, claro, mas acho que vai ser especial, porque no fundo vão ser cinco concertos num só. Temos um concerto de Língua Franca, mas depois cada um vai tocar temas próprios. Vai ser muito rico. Acho que o tempo que nos vão dar vai ser curto para darmos aquilo que gostaríamos de dar.

C: Ou seja, vamos ter canções da Língua Franca, com canções das nossas discografias, mas o mais possível em parceria uns com os outros.

O Caetano Veloso elogiou a Língua Franca e nessa declaração utilizou a expressão “temos de dominar o mundo” [referindo-se à língua portuguesa]. Como é que vocês interpretaram isso?
V: Acho que há um desaproveitamento gigante da língua portuguesa. Responsabilidade para toda a gente, artistas, dirigentes, para toda a gente. Nós temos de aproveitar este património cultural imenso. A Capicua participou num projeto no Brasil chamado “Terra do Rap” que juntou alguns rappers da lusofonia. Temos de reproduzir isso mais. O Língua Franca pode ser o início de um movimento musical lusófono…

Pode então ser o início de qualquer coisa maior?
V: Espero que sim. Para as pessoas isto pode ser só um projeto luso-brasileiro, mas para mim é um projeto da língua portuguesa em primeiro lugar, e eu espero que a continuação seja uma coisa cada vez mais lusófona, menos luso-brasileira e mais lusófona, que numa “parte II” tivéssemos MCs guineenses, por exemplo.

C: Acho que o Caetano Veloso tem essa grande paixão pela língua portuguesa e é um grande defensor e divulgador da língua portuguesa no mundo, e nós também nos identificamos com esse amor e com essa missão. Ele ter dado essa “benção” é um orgulho e significa que faz parte do mesmo fluxo de divulgação da língua, sem a baixa autoestima que nós às vezes temos (agora menos), aproveitando estes últimos dez anos de lua-de-mel com a música cantada em português que finalmente estamos a valorizar, há cada vez mais festivais só com música portuguesa, ganhámos a Eurovisão, enfim, há muitos sinais de que estamos de bem com a nossa música, e acho que temos de aproveitar o exemplo dos brasileiros, que nunca tiveram complexos de inferioridade e sempre mostraram a sua música ao mundo com orgulho e prestígio, e nós fazermos o mesmo.

E também sentir que este tipo de projetos não é aquela velha tentativa de exportar ou internacionalizar a música, não, nós já estamos no mundo, porque este disco sai ao mesmo tempo nos dois países. Não é aquela coisa do “vamos fazer aqui um disco e depois vamos tentar vende-lo lá fora”, não, é uma parceria que acontece nesta zona franca que é a Internet e a música internacional e nós estamos nesse movimento. É a música portuguesa e a língua portuguesa num bom momento e cada vez mais a conquistar o mundo.

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