Música

Entre 1978 e 1988, o que fez o punk por aqui?

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Há um novo documentário que conta a história do punk em Portugal entre os anos de 1978 e 1988. Passou na última madrugada, repete na próxima, sexta às 00h30 na RTP Memória. Falámos com um dos autores.

Autor
  • André Almeida Santos

Hugo Conim (Clockwork Boys) e Miguel Newton (Mata-Ratos) juntaram forças para documentar um período mal estudado da música popular portuguesa: a primeira vaga do punk-rock português, o período entre 1978 e 1982. O resultado é “A Um Passo da Loucura”.

Estivemos à conversa com Miguel Newton que nos explicou o que os levou a investigar este momento particular do punk português e se essa vaga teve alguma influência nas suas carreiras musicais, principalmente no caso dos Mata-Ratos, que surgiram imediatamente depois, já numa segunda vaga do punk, em 1982, ou o papel que os Xutos & Pontapés interpretaram nesta história.

O que vos levou a investigar a primeira vaga do punk-rock português?
Tinha essa vontade e curiosidade pela história do punk. Fiz uma pós-graduação em Estudos de Música Popular na Universidade Nova e percebi que uma das coisas que poderiam ser estudadas numa perspectiva mais científica era o punk. O Hugo Conim também tinha interesse por esse período. Ele é cineasta, eu tenho know-how e o interesse em saber histórias, principalmente dessa primeira vaga do punk-rock português, que não apanhei, entre 1977-1982. E houve alguém que nos pôs em contacto um com o outro porque tínhamos o mesmo interesse. Foi só preciso isso para fazer isto acontecer.

Como é que se processou a vossa pesquisa?
Sempre fui interessado pelo punk e por fazer parte dos Mata-Ratos tenho a experiência vivida. O Hugo também, como parte dos Clockwork Boys. Ambos somos interessados e coleccionadores de discos e tudo o mais relacionado com o punk. Conhecemos as pessoas, houve bastante facilidade no contacto e na investigação. Depois foi só construir um guião e perceber com quem queríamos falar. E deixámos que essas pessoas falassem.

E qual foi a história mais fascinante que descobriu dessa primeira vaga?
Foram várias. Como elemento dos Mata-Ratos, essa primeira vaga interessava-me particularmente, porque os Mata-Ratos começaram em 1982, passámos ao lado de bandas como os Aqui D’el-Rock, Os Faíscas e os Minas e Armadilhas. Ou seja, começámos a ouvir punk britânico e não tínhamos sequer a perceção de que essas bandas tinham existido. Quer dizer, tinha a perceção que os Aqui D’el-Rock tinham existido, mas não como uma banda punk, julgava que eram uma banda do boom do rock português. Até os cheguei a ver ao vivo… e na altura não percebi. A minha curiosidade passava também por perceber de onde é que tinham tomado conhecimento do punk, se era por ouvir discos na rádio ou por outra razão qualquer. Ouvimos histórias curiosas, o Emanuel Ramalho d’Os Faíscas falou-nos de uma viagem ao Sabugal, em 1978, num Fiat 127, para irem tocar num baile de finalistas. Imagina a aventura, uma banda punk, em Portugal, em 1977 e 1978, num baile de finalistas. É uma coisa que não passa pela cabeça.

E as bandas eram principalmente de onde?
De Lisboa. Descobrimos uma que não tinha consciência da sua existência, os Curto-Circuito, de Coimbra, banda do Paulo Eno.

E eles tocaram?
O Paulo Eno é uma personagem curiosa, porque tem um atestado de insanidade mental. E havia dúvidas da existência da banda, porque não há nenhum registo deles. Mas depois de falar com pessoas de Coimbra, que estiveram envolvidas no meio musical e colaboraram em projetos com o Paulo Eno, como os Objectos Perdidos, os 77, com pessoal dos Parkinsons, eles disseram que se o Paulo disse que a banda existiu, é porque existiu. Na entrevista fiquei com a ideia de que foi uma banda que não passou da garagem. E que os concertos que deram aconteceram na garagem, para amigos.

E as bandas de Lisboa?
As que ficaram conhecidas seriam essas, Minas e Armadilhas, Aqui D’el-Rock, Os Faíscas e logo a seguir os Xutos & Pontapés.

E nesse período tocavam sobretudo em Lisboa?
Pelo que conseguimos apurar, até se movimentaram. Foram a Vila Viçosa, Covilhã e a muitos outros sítios. Logo que começou a haver essa divulgação do punk isso ficou facilitado. Havia revistas como a Música & Som e outras que começaram a falar de punk. E havia as festas de finalistas nos liceus, havia sempre quem tinha interesse em levar essas bandas. O que é curioso. Tínhamos acabado de sair da revolução e as coisas iam avançando lentamente mas também muito rapidamente.

Mas todas elas tiveram uma curta duração, certo? Mesmo os Xutos, eram bem diferentes nessa altura…
Sim, o punk dos Xutos foi de curta duração. É assim que entendo, pelo menos. Evoluíram para outra coisa. Outros também evoluíram, foi o caso d’Os Faíscas, ressurgiram depois com os Corpo Diplomático e alguns elementos foram para os Heróis do Mar. Os Aqui D’el-Rock passaram para os Mau-Mau, que era uma coisa mais New Wave. A grande diferença entre a primeira e segunda vaga será essa: é que para essas bandas o punk durou dois anos, para nós ainda continua a existir. Eu já estou há 35 anos nos Mata-Ratos.

Mas chegou a ver os Aqui D’el-Rock ao vivo e não tinha noção de que eram punk?
Eles tocaram no primeiro concerto de uma banda não portuguesa que eu vi, o concerto da Lene Lovich, no Pavilhão Dramático de Cascais em 1980. Quando os fui ver já gostava de punk, mas não tinha noção de que havia uma banda punk em Portugal. A primeira banda que me deu essa ideia em Portugal foi os Xutos & Pontapés, com o “Sémen” no 78/82.

E que influências essas bandas deixaram?
Para mim nenhumas. É um exercício engraçado. A minha perceção é a de que as bandas da minha geração, como os Grito Final, os Ku de Judas, essas bandas passaram um bocado ao lado, não tiveram influência para nós. Têm hoje, porque há pessoas que têm um movimento saudosista, feito por pessoas que não viveram na altura. A maior parte nem era nascida quando essas bandas existiam. E fazem repescagem do que seria as origens do punk em Portugal.

E não há muita documentação sobre isso, pois não?
Eu gosto de ver isto numa perspetiva sociológica, um bocado à Bourdieu. Há um capital cultural que as pessoas adquirem. Há pessoas que têm essa função de recolher o pouco que há do passado, o que saiu nas revistas. Na televisão é mais complicado, porque ninguém tem acesso, e sabemos que há material que existe, porque as pessoas falam nisso, mas não estão disponíveis. Provavelmente já foram destruídas, já ouvi, não sei se é mito ou realidade, que na RTP não guardaram tudo no passado.

Também já ouvi isso.
Por exemplo, os Minas e Armadilhas, do Paulo Borges, ele contou-nos que foram tocar a Vila Viçosa, num concerto com os Xutos e os UHF, em 1979, e que foi filmado pela televisão. Até hoje ninguém viu essas imagens. Mesmo abordando a RTP eles não conseguem ir lá. Mas pronto, há essas pessoas, que fazem essa recolha. É um capital e as pessoas que fazem isso adquirem um certo estatuto. Se apareceres com uma folha de um jornal que nunca ninguém viu, é um sucesso.

Mais info aqui.

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