Crítica de Livros

Selma Lagerlöf, o anel maldito e as histórias que confortam

A vontade de inquietar o espírito humano tem remetido para o esquecimento obras meritórias como "O Anel dos Löwenskölds", de Selma Lagerlöf, como escreve Jorge Almeida.

Getty Images

Autor
  • Jorge Almeida

Título: O Anel dos Löwenskölds
Autor: Selma Lagerlöf
Editora: E-Primatur
Páginas: 127
Preço: 12,51 €


Encontram-se frequentemente descrições da literatura como a arte que, por excelência, visa inquietar e desassossegar o espírito humano e resgatá-lo da letargia que o consome. Não são raras as vezes em que, nessas mesmas descrições, se encontra o elogio daquilo que mais não é do que a interrogação pela interrogação e a exibição espalhafatosa da dúvida. Daqui parece decorrer que qualquer texto que pretenda “confortar” o espírito humano é necessariamente desinteressante.

Devido à proliferação acentuada do primeiro tipo de descrições no pensamento crítico contemporâneo, parece ser cada vez maior o fosso que se abre entre os textos valorizados pela sua capacidade para inquietar e os textos condenados pela sua capacidade para confortar, como se estas duas “espécies” não partilhassem características e se excluíssem mutuamente. Assim, toda a interrogação, por mais banal que seja, tem sido descrita como deliciosa, e qualquer moral, por mais original que seja, tem sido descrita como insípida. Esta predilecção actual pelo primeiro tipo de descrições tem remetido para o esquecimento obras meritórias como O Anel dos Löwenskölds (1925), de Selma Lagerlöf, primeiro volume da trilogia respeitante às histórias em torno deste anel.

Neste primeiro volume da trilogia, as narrativas à volta do anel roubado do túmulo do General Löwensköld decorrem ao longo de várias décadas do século XVIII e relatam as peripécias, geralmente trágicas, que ocorreram a todos aqueles que, directa ou indirectamente, se cruzaram com o objecto roubado e as suas diferentes reacções à natureza maravilhosa que caracteriza a grande maioria dos acontecimentos, num rol que vai da crença absoluta ao cepticismo inabalável.

Comum a todas as peripécias, depois de cometido o pecado original (aliás, o episódio do roubo do anel é uma paródia do episódio da tentação de Adão e Eva presente no Génesis), é a vingança post mortem levada a cabo pelo General Löwensköld e as suas tentativas demoradas, e algo desajeitadas, para recuperar o seu anel. Apesar de a acção se centrar nesta figura do Além, a colocação da etiqueta “género fantástico” a este texto não pode esquecer que O Anel dos Löwenskölds questiona os limites desse mesmo género, sobretudo pela forma como apresenta as manifestações do mundo não-empírico.

Se num primeiro momento o texto mostra como fenómenos empíricos (como por exemplo, o incêndio da quinta do casal que assaltou o túmulo do General) são descritos pelas personagens mais supersticiosas como manifestações do fantástico (“O General deitou-lhe fogo!” (p.21)), num segundo momento mostra como as aparições do fantasma do General na sua antiga casa se tornaram tão reiteradas que os habitantes se acostumaram à sua presença ao ponto de lhe encurtarem o nome para um amigável “Gen’ral!” (p. 90).

De um modo algo semelhante ao de O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, o sobrenatural transforma-se, com o desenrolar da história, num fenómeno corriqueiro e a ambiguidade relativa à existência de um mundo não-empírico, que habitualmente se mantém irresolúvel nas narrativas do género fantástico, esboroa-se ao longo do texto, pois a existência de um fantasma no mundo verosímil é facilmente perceptível nos capítulos finais, quer para as outras personagens, quer para os leitores.

Todavia, como acontece em todas as boas histórias, sejam elas mais ou menos fantásticas, não é por se desvendar um mistério que a narrativa se torna mais pobre ou menos misteriosa. Lagerlöf parece deslocar a ambiguidade de uma função meramente narrativa, a de sustentar os acontecimentos sobrenaturais, para a sua caracterização das acções humanas.

Exemplo paradigmático disto mesmo, e da complexificação das personagens aparentemente simples desta história, são as acções do Capitão Löwendsköld, filho do já citado General. A primeira impressão que o texto dá deste homem é a de alguém que se destaca pelo desleixo, uma vez que é responsável por deixar o jazigo do seu pai aberto, não obstante ser do conhecimento público que ali jazia o valioso anel cobiçado por tanta gente. Só muitos anos mais tarde é que o leitor volta a encontrar o Capitão, precisamente no dia em que este diz ter ouvido a alma do seu pai lamentar-se por o anel lhe ter sido roubado. É também no momento em que narra este acontecimento paranormal que o Capitão descobre quem possui o anel e, imediatamente, é tomado por desejos de vingança que o levarão a organizar uma demanda em busca do objecto roubado.

Esta transformação súbita do carácter do Capitão parece dever-se à suposta aparição lamuriosa do fantasma do seu pai, mas Lagerlöf, muito subtilmente, deixa algumas pistas que sugerem que esta alteração repentina pode ser motivada por outras coisas, nomeadamente pelo facto de o Capitão referir en passant que os seus filhos apenas consideram heróicos os feitos bélicos da geração do avô (o General), e não a reconstrução e a manutenção da paz que ocuparam os esforços do Capitão e da sua geração. Assim, enquanto mostra um homem com uma motivação simples, a de corrigir o erro que cometera outrora, Lagerlöf tem a capacidade de sugerir, quase imperceptivelmente, que existem outros motivos, como o desejo de se heroificar perante os filhos, na génese da decisão de recuperar o anel.

A complexificação das personagens parece contrastar com uma estrutura narrativa que segue um encadeamento simples (crime, punição, correcção, recompensa) tantas vezes usado na concepção de ficções morais. Esta simplicidade é, porém, desejada por Lagerlöf, uma vez que a autora confessou várias vezes o seu desejo de emular estilisticamente na sua prosa uma certa oralidade, daí que tenha chegado a perder a paciência com a sua tradutora americana Velma Howard por esta ter a tendência para encher as traduções de floreados artificiosos que não existiam no original.

A ambição de emular um “estilo oral” está profundamente ligada a uma concepção pessoal do que significa esse estilo. A oralidade, para a escritora sueca, é o estilo das histórias de aventuras que se contam à lareira. Isto está patente de modos distintos em O Anel dos Löwenskölds, desde a escolha de uma narrativa ‘fantástica’ até àquele momento estranho em que o narrador interrompe a ficção num instante de suspense puro para fazer considerações sobre os efeitos das histórias que são contadas “ao crepúsculo, junto da lareira”.

A história deste anel, diz Lagerflöf, pertence a este género, pois, ao longo dos tempos, “fora transmitida de um contador de histórias a outro, e cada um acrescentava ou subtraía um ponto a seu gosto” (p. 107). Admitindo ou não a hipótese de esta ser uma história que Lagerlöf ouviu em criança, é inegável que a autora sueca pretende inserir-se nesta família de contadores de histórias, dando o seu cunho pessoal à narrativa através de acrescentos ou de subtracções das mais variadas espécies.

Posto isto, talvez seja necessário relacionar este desejo com aquilo que é dito noutro passo em que a história é interrompida para dar voz a considerações, ainda que não totalmente explícitas, sobre aquilo que as histórias à lareira podem produzir, ou seja, sobre aquilo que um certo tipo de literatura ambiciona. Nesse passo diz-se que o carácter nobre das pessoas que enfrentavam tantas adversidades na região florestal de Värmland, na época em que a acção decorre, se devia ao ‘conforto’ que existia em todas as quintas. Esse conforto, esclarece Lagerlöf, não era algo…

“sublime ou solene como a palavra divina, a paz de espírito ou a felicidade no amor. E não se pense que era mesquinho ou obsceno, como o álcool ou os jogos de azar. Era apenas algo muito inocente e vulgar, pois o referido conforto não era mais do que uma lareira acesa numa noite de Inverno” (p. 57).

Mais à frente no texto, é dito que o fogo “instigava as pessoas e com elas brincava toda a noite” e ainda que “conseguia reavivar a jovialidade em todas as almas humanas”. Ora, no mesmo passo, é revelado como um dos ingredientes principais deste fogo são as “histórias acerca de grandes façanhas e aventuras”. Nesses parágrafos, a descrição que Lägerlof faz dos efeitos do fogo na alma humana em nada difere dos efeitos que as histórias de aventuras produzem sobre os homens. Ao fazê-los partilhar as propriedades e os efeitos, a autora torna o fogo e as histórias de façanhas indissociáveis.

Sendo assim, não será difícil perceber que O Anel dos Löwenskölds não almeja ser sublime como certos textos religiosos, não pretende simular a felicidade amorosa comum a tantos romances, nem sequer transmitir o êxtase da obscenidade. Se Lagerlöf tem algum objectivo, para além do de contar bem uma boa história, este parece ser o de aproximar o carácter dos leitores do carácter das pessoas de Värmland, que não eram “nem choramingas nem tacanhas” (p.57), oferecendo-lhes um ‘conforto’ que não deve ser confundido com “a paz de espírito” (p. 57), mas sim com aquela “jovialidade”, que “brinca com a alma humana” e que “dá vontade de viver”, uma vez que faz escorrer a mesquinhez “para fora do espírito” (p. 59).

Para Lagerlöf, a nobreza de carácter parece resultar do conforto que só a imaginação pode gerar. O Anel dos Löwenskölds é, pois, uma narrativa moral muito bem escrita também porque nunca deixa que a sua natureza moralizante se torne ensurdecedora, como acontece em tantas outras histórias que nunca se conseguem libertar das estridências provocadas pelas cartilhas morais que lhes servem de alicerces.

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