Cinema

“Ben Hur” e os outros: cinco filmes para o Natal

O primeiro é um clássico - desta época e de todas as outras. Mas há filmes que evocam o Natal que e que nem sempre são os mais vistos por estes dias. Miguel Freitas da Costa deixa sugestões.

Autor
  • Miguel Freitas da Costa
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Entre a mesa e o sofá, no Natal parece haver sempre uma televisão ligada, mesmo que seja por hábito ou porque sim, duas hipóteses que na verdade são a mesma. E nessa TV sempre operacional os filmes são uma constante. Mas para aqueles que não confiam no acaso da programação e preferem escolher o que vai passar, deixamos cinco sugestões em formato longa metragem para os querem Natal num filme e um filme no Natal. O primeiro é um título obrigatório, mas é uma introdução que não envergonha ninguém.

Ben Hur

William Wyler, 1959

Se bem me lembro, este “Ben Hur” protagonizado por Charlton Heston era habitual nas televisões por estas datas. É provável que me lembre mal. Nessa programação natalícia eram habituais, disso estou certo, “Música no Coração” (que volta mais uma vez este ano) ou o eterno “It’s a Wonderful Life”, de Frank Capra, a preto e branco (“Do céu caiu uma estrela”, 1946: por estes dias, gente séria discute gravemente na CNN se o filme “será sexista”; ó tempos, ó costumes!). Este “Ben Hur” é a terceira ou quarta versão – e a melhor e mais duradoura, bate de longe a nova versão de 2016 – de um romance de Lewis Wallace que foi um best-seller no último quartel do século XIX e um clássico da nossa meninice. O livro tinha como subtítulo “A History of the Christ”, ou seja, parece-me, não propriamente uma história de Cristo mas “uma história do tempo de Cristo”. Nos clássicos cinematográficos desta quadra distingue-se por se desenvolver todo em referência à Natividade e à vida terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo – uma celebração em vias de se transformar na “festa do cone iluminado”, na feliz expressão de Helena Matos. O espectacular filme de Wyler bateu records no número de Óscares que recebeu (onze, uma marca que só foi igualada quatro décadas depois, em 1997, pelo “Titanic” de James Cameron, e mais recentemente por “O Senhor dos Anéis”, em 2003) e no volume de receitas, (onde à época só ficava atrás de “E tudo o vento levou”, o qual, aplicada a chamada correção monetária ainda hoje está à frente de toda a concorrência). Diz-se que salvou da falência nessa altura a MGM.

O Apartamento

Billy Wilder, 1960

Inclui-se aqui por sugestão de Mark Steyn (Veja-se Mark Steyn Online). Peço licença para dar a palavra ao publicista canadiano, numa versão muito livre: “Não é propriamente um filme de Natal; trata-se apenas de um filme que se passa no Natal. No entanto, penso sempre nele nesta quadra e parece vir singularmente a propósito neste ano da “Queda de Weinstein et al”. Este filme também é sobre sexo e poder no local de trabalho mas pertence a uma era de costumes culturais muito diferentes – embora muitos aspetos da cena permaneçam absolutamente imutáveis passados sessenta anos (“toda a gente sabia”). Não sou o maior fã do mundo de Billy Wilder, nem de Jack Lemon, nem de Shirley MacLaine, mas todos três estão aqui no seu melhor. A propósito – diz mais à frente Steyn – sou um enorme fã de Fred Mac Murray e é fantástico neste filme. (E quem melhor do que ele – acrescento eu – podia ter interpretado o seu personagem de Pagos a dobrar, “Double indemnity”, 1944, outro dos melhores filmes de Wilder). O apartamento é uma fábula de Natal urbana, triste mas verdadeira. Mas do que mais gosto neste filme – continua Steyn – é que o cinismo wilderiano é redimido por uma das mais ternas cenas de Dia de Natal de qualquer filme.” Mark Steyn também homenageou a canção de Irving Berlin que deu o título a um clássico natalício: Natal Branco (“White Christmas”, Michael Curtiz, 1954: I’m dreaming of a white Christmas/Just like the ones I used to know, diz a letra; um poeta português escreveu muito antes, mais inspiradamente: “Natal, na província neva, um sentimento conserva os sentimentos passados”).

O Evangelho Segundo São Mateus

Pier Paolo Pasolini, 1964

Pasolini foi escritor, publicista, argumentista e realizador. O crítico de cinema David Thomson, no seu Dicionário Biográfico do Cinema, põe antes de tudo o mais: “Marxista”. Pasolini nunca renegou o seu “marxismo”, embora o Partido Comunista Italiano o tivesse expulsado em 1949 por ser um homossexual declarado – e embora muitas das suas posições públicas fossem “politicamete incorrectas”, como a sua enfática oposição à apologia legal do aborto (vejam-se os Scritti Corsari.) A sua morte sórdida às mãos de um qualquer “rapaz de programa” selou a sua reputação de “mau rapaz”. Como cineasta, foi aquilo a que podemos chamar com propriedade um “abjecionista”, de “Accatone”, em 1961, ao incompreensível “Salò o le 120 giornate di Sodoma” de 1975, passando por “Porcile” – Pocilga, um “chiqueiro”, claro – e muitos outros. O Evangelho segundo São Mateus – em que não blasfemou nem se arrogou como outros a invenção de um Evangelho “novo” é, de certo modo, uma excepção – mas lá está presente, na escolha dos intérpretes e dos cenários, o seu pendor pelo grotesco e pelo disforme. Além de extraordinários momentos cinematográficos, o Evangelho lá está também – e assim o quis reconhecer o Office Catholique International du Cinéma, que o premiou no Festival de Veneza de 1964. Pasolini terá dito que fez este filme em reação ao conformismo marxista: “O mistério da vida e da morte e do sofrimento – e particularmente da religião… é uma coisa que os marxistas se recusam a considerar mas são questões que sempre foram e são importantes para os seres humanos.”

Fuga à Meia-Noite

Martin Brest, 1988

É célebre a frase final de “Casablanca” (de Michael Curtiz, o realizador também de Natal Branco; um húngaro que nunca falou bem inglês e fez de tudo em Holywood). É uma das muitas frases mil vezes lembradas e repetidas ou glosadas que o filme cunhou. Num aeroporto de estúdio, num Marrocos de pacotilha, mas estranhamente convincente, sacrificado o seu grande amor ao Bem Maior da “luta anti-fascista”, posto a salvo – rumo a Lisboa – o grande Resistente, o americano (Humphrey Bogart) de nobres sentimentos sob a couraça das suas atividades vagamente suspeitas, diz ao polícia francês (Claude Rains) corrupto e sinceramente oportunista: “Louis, parece-me que isto é o princípio de uma bela amizade!”. Em Fuga à meia-noite não há frases que fiquem na memória. Mas é, de facto, a história de como começa uma bela amizade entre um caçador de homens e a sua presa, um “odd couple” em ambiente de filme “semi-noir” tratado com humor mas sem facécia. O argumento é bem carpinteirado, a realização é segura (não parece um grande elogio, mas é, quando o timing, na expressão britânica impossível de traduzir exatamente, é of the essence) e os actores impecáveis, a começar por um perfeito Charles Grodin e um Robert de Niro que ainda não tinha desistido. A reconfortante redenção mútua dos dois pobres pecadores que protagonizam este filme sem pretensões está talvez mais próxima do espírito do Natal do que os entrechos de muitos outros filmes mais frequentes nesta quadra. Para adultos, substitui com vantagem o ‘Sozinho em casa’ proverbial e inconsequente.

Os Dez Mandamentos

Krzyszetof Kieslowski, 1989

Este “decálogo” veio da Polónia. (A propósito de polacos: também foi polaco Henryk Sienkiewicz, Prémio Nobel de 1905, o autor de Quo Vadis, “uma narrativa do tempo de Nero”, outra história edificante de cristãos no Império Romano que também fez parte das nossas “bibliotecas de rapazes” e também interessou o cinema “bíblico”. O livro saiu pouco antes do fim do século XIX e seria traduzido em dezenas de línguas). O “decálogo” de Kieslowski foi produzido para a televisão no lusco-fusco do regime comunista polaco, no ano em que caiu o Muro de Berlim, se estão bem lembrados. Trata-se de uma série de dez episódios de mais ou menos uma hora cada, todos dirigidos por Krzysztof Kieslowski e escritos por ele de parceria com Krzysztof Piesiewicz. Cada um deles se refere a um dos dez mandamentos. Mas nem sempre é óbvia a relação de uma coisa – a história que se cinematiza – com a outra, o mandamento em questão. O que é óbvio é a relevância da Polónia na história da Igreja Católica e da Igreja Católica para a história da Polónia, onde teve no século passado, sob o Pontificado mariano de João Paulo II, o papel que toda a gente sabe no ruir do sistema soviético. Os episódios da série são filmes duros, muitas vezes opacos, desconcertantes – uma impávida interpelação moral, cinematograficamente admirável, de um cineasta de raízes católicas, que se tornou sobretudo conhecido pela sua trilogia francesa dos anos 90: “Três cores: Azul”, “Três cores: Branco”, “Três cores: Vermelho”. Foram os seus últimos filmes. Dois anos depois de “Vermelho”, Kielowski morreu, aos 54 anos.

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