“A minha mãe é como uma estrela de cinema cheia de glamour”

25 Março 20171.771

O documentário “Paula Rego – Secrets And Stories” estreia-se na TV britânica dia 25 e chega a Portugal em Abril. Falámos com o realizador, o filho da artista: "Quase fui à falência com este filme".

Sempre que o cineasta Nick Willing pedia à mãe – a pintora Paula Rego – para fazer um filme sobre ela, a resposta era invariavelmente a mesma: nem pensar nisso, filho (a resposta, aliás, era bem mais curta e em bom inglês: “F*** off!”). Em 2015, no entanto, tudo mudou. “Depois de chegar aos 80 anos, ela começou a contar-me histórias que eu nunca tinha ouvido. E, para surpresa minha, aceitou fazer o filme”, conta Nick.

O resultado final chama-se “Paula Rego – Secrets And Stories” e será exibido pela primeira vez na BBC2 na noite de 25 de Março. O documentário chega a Portugal no início de Abril, com uma ante-estreia marcada para o dia 4, na Fundação Gulbenkian, com a presença do Presidente da República e, talvez, da própria pintora. O filme será exibido a partir do dia 6 de Abril em cerca de uma dúzia de salas do país.

“Paula Rego, Histórias & Segredos”, na versão portuguesa, é um filme que combina um enorme arquivo de filmes caseiros e fotografias de família com entrevistas e imagens da artista a trabalhar no seu ateliê.

Neste documentário de 90 minutos, Paula Rego fala com uma franqueza surpreendente sobre uma vida de dor e de prazer, de paixão e de infidelidades, de êxitos e de fracassos. Aborda temas como a depressão, o sexo, os problemas financeiros, a timidez, os abortos (foram vários), o Estado Novo, a morte e, claro, a arte.

Tal como o título indica, não faltam histórias, nem segredos. Paula Rego, de 82 anos, revela a depressão profunda que a afectou em 2007 e os quadros extremamente perturbadores – de uma mulher solitária, reclusa e aferrolhada – que ela produziu nessa altura e que foram mais tarde escondidos numa gaveta.

Ela fala abertamente do tempo passado na Slade School of Fine Art, entre 1952 e 1956, e da forma como conheceu o colega Victor Willing (que se tornou amante e, mais tarde, marido dela) e da relação complexa entre os dois. Numa cena carregada de emoção, Paula Rego lê a carta que Victor lhe escreveu pouco antes da morte, em 1988, e que a artista guardou perto do coração desde então. Rego descreve com ironia a sociedade portuguesa de meados do século passado (“Os homens tinham almoços e depois iam às putas. As mulheres, quanto menos fizessem mais eram admiradas”) e aborda a questão do aborto com uma honestidade brutal (“Tive imensos abortos, tal como todas as miúdas na Slade. Não havia contraceptivos e os homens estavam-se nas tintas”).

A estreia do documentário em Portugal será acompanhada de um ciclo de cinema na Cinemateca Portuguesa, com filmes escolhidos por Paula Rego, e pela inauguração de uma exposição no museu Casa das Histórias, em Cascais, também designada “Paula Rego. Histórias e Segredos”, com 80 obras da artista e do marido Victor Willing (1928-1988). Além da pintura, a exposição incluirá objectos pessoais, filmes inéditos, documentos (como os relatórios que Rego escreveu quando era bolseira da Gulbenkian, em Londres) e a recriação, numa das salas do museu, do ateliê londrino da artista, com a sua miscelânia de telas, adereços, animais grotescos, esculturas em papier mâché e outras criaturas estranhas que povoam habitualmente o mundo de Paula Rego.

O realizador Nick Willing, de 56 anos – que dirigiu, entre outros, os filmes “O Caçador de Sonhos” (1997), “Alice no País das Maravilhas” (1999) e também séries televisivas como “Olympus” (2015) –, aproveitou imagens de vários filmes caseiros que o avô (pai de Paula Rego) realizou desde inícios da década de 1920 até quase à sua morte em 1966. Outras imagens caseiras foram captadas em filme pelo próprio Nick Willing, desde 1975, por vezes com as mesmas câmaras usadas pelo avô.

Além destas imagens, por vezes ternurentas – com as de uma Paula Rego, em criança, a brincar numa praia portuguesa, ou de Paula e Victor a dançar numa festa na quinta da Ericeira –, o documentário “Histórias & Segredos” inclui entrevistas com as duas irmãs e um cunhado de Nick, com Lila Nunes – assistente e modelo de Paula Rego há mais de três décadas – e com amigos da família como o crítico John McEwen, Luís Amorim de Sousa ou o ex-presidente Jorge Sampaio, entre outros.

O Observador esteve presente numa conferência realizada na Universidade de Oxford que incluiu o visionamento de “Paula Rego – Secrets And Stories” e participou na sessão de perguntas e respostas com o realizador Nick Willing.

Paula Rego e Victor Willing (foto: Manuela Morais)

Ao fazer este filme aprendeu alguma coisa que ainda não sabia sobre a sua mãe?
Aprendi muita coisa. A minha mãe é uma pessoa muito ciosa da sua privacidade. Não conhecia a maior parte das histórias que ela conta no filme. Sabia umas coisas aqui e ali, alguns detalhes. Por exemplo: em conversas com a família, ela costumava descrever a história do primeiro encontro com o meu pai sempre de uma forma muito romântica. Pelo menos era assim que eu recordava essa história. Mas no filme ela descreve o encontro de uma forma bem diferente. É provavelmente a única parte do filme onde parece ter algum desconforto. Ele simplesmente levou-a para um quarto vazio e disse-lhe: “Tira as cuecas!” E ela tirou. No filme ela explica que era virgem e que havia sangue por todo o lado e que ele nem se preocupou em chamar um táxi para a levar a casa. Ela deixa a impressão de que tudo aquilo se pareceu mais com uma forma de violação do que outra coisa. Era uma coisa perfeitamente normal naquele tempo. A sociedade mudou muito nos últimos 50 anos.

No filme, no entanto, fica bem clara a paixão que os unia.
A minha mãe amava-o mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. O que eu recordo, sobre a relação entre os meus pais, era a forma como eles eram incrivelmente ligados um ao outro. Apesar dos casos e das infidelidades mútuas – eu não sabia muito sobre isso, mas podia ver que as coisas nem sempre andavam bem entre eles –, eles permaneciam incrivelmente próximos e apaixonados. Falavam imenso sobre quadros. Ou melhor, ele falava e ela ouvia. A memória mais forte que guardo da minha mãe era a de uma pessoa que era muito tímida e que simplesmente não falava. Uma mulher muito submissa, que nada tinha que ver com a imagem da mulher artista, feminista e poderosa que ela desenvolveu anos mais tarde.

Quem olha para os quadros da sua mãe tem alguma dificuldade em imaginar uma mulher submissa.
Vou contar uma história. Em Portugal, por ocasião de uma das primeiras exposições da minha mãe, um dos críticos portugueses foi extremamente cruel e disse-lhe algo como “Você mete nojo! Os quadros que você pinta são nojentos. Sabe o que você é? Uma prostituta nojenta!” Ela respondeu: “Não. Está enganado. Prostituta? As prostitutas pintam quadros de igrejas”. A verdade é que o trabalho dela é uma forma de compensação para a falta de poder pessoal.

"Picasso ignorou por completo os filhos, mas só falamos dos quadros dele. A minha mãe não foi uma mãe muito presente, sobretudo quando pensamos na forma como hoje em dia essa presença é entendida ou esperada. Mas aos meus olhos, a minha mãe é como uma estrela de cinema cheia de glamour, sempre foi."

O filme é sobre a sua mãe, mas o seu pai está sempre muito presente.
Em primeiro lugar, este é o filme de Paula Rego porque a voz dela está sempre muito presente. É a voz dela. Mas a história que ela conta é igualmente – e muito – uma história sobre o meu pai. Quase todos os quadros dela, aliás, são sobre o meu pai. Alguns são retratos muito ternos dele. Uma percentagem muito grande dos quadros mais poderosos – das séries “The Dog Women”, “O Crime do Padre Amaro” ou os quadros sobre o aborto, por exemplo – é sobre a relação dela com o meu pai. Ele era a pessoa que tinha a presença mais forte na vida dela. Mas o pai dela, meu avô, também foi uma figura importante.

A mãe de Paula Rego, ao contrário, aparece muito pouco no filme.
O pai, meu avô, aparece mais. Quando acabei a primeira versão, o filme tinha quase duas horas e meia de duração. A BBC disse que estava longo demais e que tinha de cortar muita coisa. Deixei muito material de fora. Uma coisa de que tenho pena, por exemplo, foi ter cortado a parte sobre uma série de quadros que ela fez, num período mais tardio da vida, sobre a morte da minha avó. Foi a Lila [Nunes] quem me falou sobre estes quadros. São trabalhos incríveis. Era a forma de ela [Paula Rego] lidar com essa morte. Também ficou de fora uma conversa interessantíssima entre a Lila e a minha mãe. Lila veio para Londres em 1985 para cuidar do meu pai que já estava, nessa altura, muito doente com esclerose múltipla. Quando Lila saiu de Portugal, ela nem sabia que ia viver com artistas. Mas pouco depois já ajudava o meu pai a esticar as telas e a pintar em áreas [da tela] que ele não conseguia alcançar. Depois passou a ajudar a minha mãe e a servir de modelo. A minha mãe diz que Lila sabe tanto sobre quadros quanto ela.

O filme deixa entender, embora indirectamente, que Paula Rego foi uma mãe muito pouco presente durante a infância e a juventude dos filhos. Concorda?
Esse foi um tema que não quis abordar directamente no filme porque achei que seria injusto para ela e para todas as mulheres artistas. Se se tratasse de um homem artista nunca se falaria desse assunto. Picasso, por exemplo, ignorou por completo os filhos, mas só falamos dos quadros dele. A minha mãe não foi uma mãe muito presente, sobretudo quando pensamos na forma como hoje em dia essa presença é entendida ou esperada. Mas, aos meus olhos, a minha mãe é como uma estrela de cinema cheia de glamour, sempre foi. O facto de ela estar pouco tempo à nossa volta também ajudava a criar essa imagem de uma mulher mágica e extremamente poderosa. Não estávamos autorizados a entrar no ateliê dela e talvez por isso ela tornava-se ainda mais fascinante e misteriosa. Hoje em dia os pais são como helicópteros a sobrevoar permanentemente os filhos. Eu sou um bocado assim, talvez precisamente porque os meus pais nunca estiveram muito presentes. Mas muitas vezes pergunto-me: será que isso é o melhor para as minhas filhas, ou será melhor deixá-las em paz a tentar forragear sozinhas? Tem de haver um equilíbrio. Curiosamente, quando estávamos a fazer a pesquisa para a exposição que vai estar na Casa das Histórias, encontrámos uma troca de correspondência com a [Fundação] Gulbenkian. A minha mãe ia viajar para Londres e deixa entender alguma angústia por ter de deixar os filhos, mais uma vez, com os avós portugueses. Na carta da Gulbenkian lê-se mais ou menos isto: “Por favor, vá sem os filhos porque eles serão uma distração e irão atrapalhar e nós queremos os seus quadros”.

Paula Rego e o filho, Nick Willing

Do que se lembra mais da sua infância e da sua relação com Paula Rego?
Tenho alguns momentos em que ela esteve muito presente na minha vida. Uma coisa de que eu me lembro claramente era fazer desenhos ao lado dela. E de nos rirmos muito. Fazia desenhos de pessoas de quem eu me queria vingar. Fui muito maltratado na escola e ela dizia-me sempre “Faz desenhos, escreve os nomes dos ‘bullies’ e manda-lhes os desenhos!”. Lembro-me de estar a chorar ao telefone e de ela dizer isso. Ela achava que os desenhos iriam ajudar-me e que seriam uma solução mágica.

E foram?
De certa forma, sim. Os “bullies” deixaram de me chatear. Mas só ao fim de cinco anos [risos]. A minha mãe ensinou-me tanta coisa. O que sempre me impressionou mais foi a coragem dela. Ela nunca desistiu, apesar das dificuldades que teve de enfrentar enquanto estrangeira a viver em Londres e enquanto mulher num mundo da arte totalmente dominado pelos homens. Seguiu sempre em frente, apesar da timidez, da depressão e das dúvidas. Continuou sempre a melhorar e a procurar novos mundos.

A sua mãe já viu o filme? O que é que ela achou?
Viu três vezes e adorou. Na primeira não sabia bem, mas da segunda vez adorou. Fiquei muito aliviado. Ela nunca me deu instruções ou coisas do género. Não é desse tipo. Tal como diz no filme, ela é muito obediente e nunca ousaria questionar o meu trabalho ou dar-me sugestões. O grande objectivo do filme era captar, finalmente, a verdadeira voz de Paula Rego. Uma das coisas que ela sempre evitou, ao longo da vida, foi explicar o que se passava, explicar as coisas como elas realmente são. Em quase todas as entrevistas em que lhe fizeram perguntas sobre os quadros ela inventou uma história diferente. Eu não queria fazer um filme a falar sobre os quadros. Em vez disso, queria falar sobre a vida dela. Perguntar o que é que ela fazia em determinada altura? E só então olhar e falar sobre os quadros que ela fazia nessa mesma altura. Tentar perceber [a vida] através deles. Todos os quadros são muito pessoais.

"Filmo a minha mãe desde 1975, quando peguei pela primeira vez numa câmara. Sempre quis fazer este filme porque ela é uma pessoa tão fascinante. No passado ela respondera-me sempre com um rotundo 'F*** off!' Agora não. Desta vez ela aceitou fazer o filme."

Os quadros de Paula Rego começam, quase sempre, com uma história.
Veja o exemplo de “The Pillowman”, um enorme tríptico que é, talvez, o melhor quadro de sempre da minha mãe. Quando lhe perguntam sobre o quadro, ela fala sempre sobre a peça muito famosa “The Pillowman” [O homem almofada] do irlandês Martin McDonagh e da história da menininha que pediu aos pais para ser crucificada como Jesus. A minha mãe identificou-se muito com a menina. Mas na verdade este quadro é sobre o meu avô e sobre o Portugal salazarista dos anos 40. Depois de ver a peça, a minha mãe passou dias no Imperial War Museum de Londres a ler sobre a guerra e sobre Portugal daquela década. Desenterrou fotos dela em menina com o uniforme da Mocidade Portuguesa. O homem almofada, na verdade, é Salazar. E a menina que quer ser Jesus é ela própria.

Tríptico “The Pillowman”, de Paula Rego

A minha mãe sempre se identificou mais com Jesus do que com a Virgem Maria. Ela nunca quereria ficar com o papel secundário. A minha mãe costumava dizer que os livros, as fábulas e os contos de fadas que inspiram os quadros nada tinham que ver com a vida dela. Não é bem assim. O quadro “The Pillowman” tem muito mais que ver com ela do que com a peça. Ela transporta todas as suas experiências secretas para as suas histórias. E é essa experiência que faz com que o trabalho dela seja tão poderoso e ao mesmo tempo tão autêntico e verdadeiro.

Como é que convenceu a sua mãe a participar no filme?
Fruto do meu charme, talvez [risos]. Nos últimos anos fui muitas vezes a Portugal por causa da crise e das dificuldades de financiamento do museu de Cascais. Estive em imensas reuniões com advogados e com o presidente da câmara e as conversas, claro, eram sempre em português. Tive de reaprender – e melhorar – o português da minha infância. A verdade é que nos últimos três anos passei a falar sempre em português com a minha mãe. Passámos horas a rir e a rir e a rir. É uma língua bem mais engraçada do que o inglês. Como eu gostava do Raul Solnado! E dos Parodiantes de Lisboa! Foi numa dessas tardes de conversa e de galhofa, em português, que a minha mãe começou a contar histórias incríveis sobre a vida dela. Aí eu pedi-lhe, de novo, para fazer um filme sobre ela. Filmo a minha mãe desde 1975, quando peguei pela primeira vez numa câmara. Sempre quis fazer este filme porque ela é uma pessoa tão fascinante. No passado ela respondera-me sempre com um rotundo “F*** off!” Agora não. Desta vez ela aceitou fazer o filme.

Paula Rego no estúdio (foto: Lila Nunes)

Foi fácil filmar a sua mãe?
O mais incrível é que passámos 18 meses – quase dois anos – a fazer o filme e ela permaneceu sempre muito focada e sagaz. Nunca cancelou uma sessão. Ao longo de quase um ano fui todos os sábados a casa dela para a entrevistar. Além disso passava dois ou três dias por semana no ateliê dela a filmá-la. Tive de deixar o meu trabalho na América e quase fui à falência. Mas fazer este filme foi a experiência mais fantástica da minha vida.

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