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Anjos e demónios: o mundo dos coros de rapazes que esconde algumas histórias sinistras

30 Julho 2017124

As vozes puras e celestiais têm por vezes atrás de si histórias sinistras, como prova o escândalo de abusos sexuais com o coro da catedral de Regensburg, dirigido pelo irmão do Papa Bento XVI.

Em 2010 vieram a lume notícias sobre casos de abuso sexual e maus-tratos no coro de rapazes da catedral de Regensburg – os Regensburger Domspatzen. Não era a primeira denúncia envolvendo coros de rapazes ligados à igreja, mas esta tinha um picante adicional: Georg Ratzinger fora o director musical da catedral de Regensburg entre 1964 e 1994, período em que teriam ocorrido os abusos mais graves, e o seu irmão mais novo, Joseph, que, entre 1977 e 1981, fora arcebispo de Munique e Freising – de quem dependem os bispados de Augsburg, Passau e Regensburg – teria, alegadamente, encobrido os abusos e ter-se-ia limitado a transferir os padres suspeitos de abusos para outras dioceses.

Georg Ratzinger

Quando da eclosão do escândalo, em 2010, o padre Federico Lombardini, porta-voz do Vaticano, condenou veementemente a tentativa de associar Joseph Ratzinger – que então ocupava o trono papal, com o nome de Bento XVI – aos escândalos e falou mesmo de uma conspiração visando o papa, embora sem negar a ocorrência de abusos.

Gerhard Ludwig Müller, à data bispo de Regensburg (cargo que ocupou entre 2002 e 2012) e muito próximo de Bento XVI (este nomeá-lo-ia, em 2012, seu sucessor como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e elevá-lo-ia, em 2014, a cardeal), tentou desvalorizá-los, alegando que seriam casos com 40-50 anos e que tudo estava a ser empolado desproporcionadamente pelos media. Em 2012, Müller argumentou que “se um professor abusa de uma criança, a culpa não pode ser atribuída à escola ou ao Ministério da Educação”.

Gerhard Ludwig Müller

Vale a pena lembrar que Müller (que o papa Francisco fez substituir, este ano, por Luis Ladaria Ferrer como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé) já tinha sido forçado, em 2007, a pedir desculpas por ter procedido incorrectamente quando transferiu Peter Kramer, um padre condenado por abuso sexual de crianças, para uma nova paróquia sem informar esta dos antecedentes de Kramer. Em 2016 voltaram a surgir acusações de que Müller obstruíra sistematicamente as investigações de abusos no coro de Regensburg.

Catedral de Regensburg. A catedral está instalada neste local desde 739, mas passou por vários incêndios e reconstruções; a sua aparência gótica resulta de uma reconstrução em estilo retro realizada em 1828-41 e as torres e respectivas agulhas só foram concluídas em 1869

Pela mesma altura surgiram notícias de abusos sexuais em coros de rapazes na Áustria (Fügen e Viena). O líder da conferência dos bispos alemães transmitiu ao papa um conjunto de medidas para lidar com casos de abuso sexual, Bento XVI nem sequer se deu ao trabalho de exprimir solidariedade para com as vítimas e o caso de Regensburg foi desaparecendo dos noticiários. Até que em Julho de 2017 um relatório de 440 páginas veio reacendê-lo.

Os Regensburger Domspatzen, com a catedral de Regensburg ao fundo

“O uso antiquíssimo da Igreja”

Poderá pensar-se que a proibição de as mulheres cantarem nas igrejas seria coisa da Idade Média, mas ainda em 1903 o papa Pio X lembrava, em De musica sacra, que estava vedado às mulheres qualquer ofício litúrgico e que sendo o canto parte desses ofício”, as mulheres “não podem ser admitidas a fazer parte do coro ou capela musical. Querendo-se pois, ter vozes agudas de sopranos e contraltos, empreguem-se os meninos, segundo o uso antiquíssimo da Igreja”. Esta disposição foi reforçada por um decreto de 1907, estipulando que “as mulheres não devem fazer parte de um coro […] e também os coros estritamente femininos são absolutamente proibidos, excepto em casos muito particulares e com autorização do bispo” e outro de 1908, estabelecendo que “qualquer coro misto de homens e mulheres […] é absolutamente proibido”.

Detalhe de um balcão do coro (cantoria) da catedral de Florença, por Luca della Robbia, escultura realizada em 1431-38

Mas Pio X estava há muito a ser ultrapassado pela realidade: se a proibição de as mulheres cantarem nas igrejas vigorou no mundo cristão (católico e protestante) até ao final do período barroco, a partir do tempo de Mozart, as mulheres começaram a surgir como solistas, como atestam as primeiras presentações de duas obras-primas da História da Música: na estreia (parcial) da Grande Missa K427, de Mozart, em Salzburgo, em 1783, a sua esposa Constanze cantou uma das partes de soprano, e a estreia do Requiem de Verdi, na catedral de S. Marcos, em Milão, em 1874, contou com a soprano Teresa Stolz e a mezzosoprano Maria Waldmann. Porém, os coros nos ofícios litúrgicos continuaram a ser dominantemente de rapazes.

Este encarniçamento contra cantoras femininas nas igrejas parece ter origem, como tantos outros interditos e dogmas, numa interpretação literal de uma passagem da Bíblia, mais precisamente da Epístola aos Coríntios, de S. Paulo, que estipula que “as mulheres devem guardar silêncio na igreja”. Esta imposição foi confirmada pelo sínodo de Auxerre, em 578 e pelo papa Leão IV (847-855).

Não se adiantará muito em atribuir tal interdição à misoginia de S. Paulo, pois o Cristianismo, como as duas outras “Religiões do Livro”, está inquinado pela visão patriarcal e sexista que reduz a mulher a uma condição subalterna e se a Epístola aos Coríntios se tivesse perdido, haveria certamente outros trechos da Bíblia que pudessem ser invocados para justificar o silêncio das mulheres na igreja.

Virgem, Jesus e coro de anjos, por Sandro Boticelli, c. 1477

Os coros de rapazes na actualidade

Foi assim que, com excepção dos conventos de freiras, em que não havia alternativa senão que fossem as mulheres a cantar, os coros das igrejas foram exclusivamente masculinos durante muitos séculos.

Porém, hoje em dia, um maestro que queira empregar um elenco vocal estritamente masculino depara-se com uma dificuldade: em resultado dos progressos na alimentação e na saúde, os rapazes entram na puberdade – e começam a mudar de voz – aos 12-13 anos, quando no tempo de Bach tal poderia ocorrer tão tarde quantos os 17 anos. Joseph Haydn foi menino de coro da Catedral de Santo Estêvão, em Viena, até aos 17 anos, altura em que a imperatriz Maria Teresa fez ver ao mestre de capela, Georg von Reutter, que a sua voz de anjo se convertera num desagradável crocitar.

Meninos de coro, por William Frederick Yeames, 1891

O recuo da idade de mudança de voz significa que os rapazes sopranos de hoje têm um período de aprendizagem muito mais curto e dificilmente serão capazes de cantar satisfatoriamente os trechos mais complexos e exigentes. Assim, nas gravações e concertos, as solistas femininas impuseram-se nas partes agudas e os coros de rapazes deram lugar aos coros mistos, com as mulheres a assegurar as partes de soprano e alto e os homens a cantar as de tenor e baixo/barítono. Com a recuperação do registo de contratenor – em que Alfred Deller (1912-1979) desempenhou papel pioneiro – as partes de alto passaram, sobretudo nos coros mais empenhados na interpretação de música antiga, a serem repartidas entre mezzosopranos ou contraltos femininas e contratenores masculinos.

As vantagens das vozes de cantoras adultas foram levando muitos maestros a renunciar aos coros de rapazes, sobretudo quando a música põe exigências técnicas elevadas, como é o caso da música sacra de Bach. Há todavia quem tenha oposto resistência a esta tendência, sacrificando a precisão ao timbre ímpar das vozes de rapazes: os pioneiros da “interpretação historicamente informada” Nikolaus Harnoncourt e Gustav Leonhardt recorreram a coros de rapazes – Wiener Sängerknaben, Tölzer Knabenchor e Knabenchor Hannover – para a gravação integral das 193 cantatas sacras de Bach para a Teldec, que se estendeu de 1971 a 1990. Harnoncourt e Leonhardt levaram a ousadia ao ponto de dispensar solistas femininas e usar também os rapazes nas partes solistas destinadas a soprano e alto.

[“Von den Stricken meiner Sünden”, da Paixão segundo S. João, por Nikolaus Harnoncourt à frente dos Tölzer Knabenchor & Concentus Musicus Wien, em 1985 (DVD Deutsche Grammophon); o alto solista é Christian Immler]

Harnoncourt usou também coros de rapazes e solistas infantis na sua primeira gravação de Paixão segundo S. João, em 1965 (Teldec), e na segunda (em vídeo), em 1985 (Deutsche Grammophon), mas quando em 1993 gravou a obra pela terceira vez (Teldec) usou coro misto e solistas femininas. Também a primeira versão de Harnoncourt da Paixão segundo S. Mateus, em 1970 (Teldec), recorre só a vozes masculinas, mas quando regressou à obra em 2000 (Teldec) adoptou uma distribuição vocal “convencional”.

A gravação da Paixão segundo S. Mateus por Leonhardt em 1989 (Deutsche Harmonia Mundi) é um exemplo extraordinariamente bem sucedido de uma distribuição vocal estritamente masculina.

[Ária “So ist mein Jesus gefangen” e coro “Sind Blitze, sind Donner in Wolken verschunden”, da Paixão segundo S. Mateus por Leonhardt, à frente do Tölzer Knabenchor & La Petite Bande (1989, Deutsche Harmonia Mundi); os solistas na ária são Maximilian Kiener (soprano) e René Jacobs (contratenor)]

Entre as gravações mais recentes das grandes obras de Bach com coros de rapazes estão a integral das cantatas dirigida por Pieter Jan Leusink em 1999-2000 (Brilliant Classics), com o Holland Boys Choir e solistas femininas, a Missa em si menor dirigida por Robert King em 1996 (Hyperion), com os Tölzer Knabenchor a assegurar o coro e as partes solistas de soprano e alto, e a Paixão segundo S. João, dirigida por Edward Higginbottom em 2001-02 (Naxos), com o New College de Oxford a assegurar o coro e as partes solistas de soprano.

[Excerto da Paixão segundo S. João, dirigida por Edward Higginbottom, com The Choir of New College (Oxford) & Collegium Novum; a partir de 5’28, ária “Ich folge dir gleichfalls”, pelo rapaz soprano Joe Littlewood]

12 coros de rapazes de I Divisão

A Grã-Bretanha, a Alemanha, a Áustria e a Holanda são hoje os países em que a tradição dos coros de rapazes se mantém mais pujante. Entre os vários coros no activo, destacam-se em seguida 12, seis alemães/austríacos e seis britânicos, pela sua antiguidade e prestígio internacional.

Aachener Domchor
Fundação: Aachen (Aix-la-Chapelle), Alemanha, c.800

As origens do coro – o mais antigo da Alemanha – remontam à Schola Cantorum fundada pelo imperador Carlos Magno (742-814) e pelo clérigo e erudito Alcuíno de York (c.735-804), que integrou durante algum tempo a corte imperial em Aachen. Por esta razão, o coro é também conhecido como Cappella Carolina. Entre os directores do coro esteve Johannes Mangon (1525-1578), prolífico compositor franco-flamengo do Renascimento.

O coro ganhou projecção internacional e começou a fazer tournées regulares após a II Guerra Mundial, sob a direcção de Theodor Bernhard Rehmann (que o dirigiu entre 1924 e 1963); a este sucederam no cargo de Kapellmeister, Rudolf Pohl (1964-1986), Hans-Josef Roth (1986-2000) e Berthold Botzet (desde 2000).

[Sanctus da Missa para dois órgãos e dois coros op.36 (1878) de Charles-Marie Widor (1844-1937), com direcção de Berthold Botzet]

Regensburger Domspatzen
Fundação: Regensburg, Alemanha, 975

Os “pardais da catedral” (é esse o significado de Domspatzen) de S. Pedro em Regensburg (ou Ratisbona, como também é conhecida em português) têm mais de um milénio de existência, embora tenham passado por um interregno durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-48), que devastou a Alemanha e suspendeu a vida de boa parte das instituições musicais. O coro foi fundado em 975 pelo bispo Wolfgang von Regensburg e reformulado em 1653 pelo bispo Franz Wilhelm von Wartenburg.

[Moteto Singet dem Herrn, de Johann Pachelbel (1653-1706), com direcção de Roland Büchner]

Theobald Schrems, que dirigiu o coro de 1924 a 1964, foi uma figura central na sua história, introduzindo reformas profundas na sua estrutura e funcionamento. Foi também durante a direcção de Schrems que o coro estabeleceu ligações dúbias com o regime nazi: actuou seis vezes para Adolf Hitler (que gostava de imaginar-se melómano), quer no Dia do Partido em

Nuremberga quer na residência do Führer em Obersalzberg. Com financiamento do Ministério da Propaganda, de Joseph Goebbels, fez tournées pela América do Sul e por países católicos da Europa, Portugal incluído. Após 1945, tudo isto valeu a Schrems acusações de, movido pela vaidade e pelo oportunismo, ter convertido o coro “num instrumento da política cultural externa do Ministério da Propaganda nazi”. Resta saber que capacidade teria Schrems para contrariar as pretensões do regime, mas a verdade é que o coro prosperou durante o nazismo, enquanto outras instituições eclesiásticas alemãs eram privadas de financiamento ou dissolvidas.

Theobald Schrems

Schrems foi sucedido por Georg Ratzinger (1964-1994) e Roland Büchner (desde 1994), sendo este o primeiro leigo a dirigir o coro em toda a sua história. Em 2009, os Domspatzen actuaram pela segunda vez na sua carreira na Capela Sistina, por ocasião do 85.º aniversário de Georg Ratzinger, evento que contou com a presença de Bento XVI.

[Os Regensburger Domspatzen na Capela Sistina, em 2009, com, da esquerda para a direita, Georg Ratzinger, o bispo Gerhard Ludwig Müller, o papa Bento XVI e o director do coro Roland Büchner]

Thomanerchor
Fundação: Leipzig, Alemanha, 1212

É superado em antiguidade pelos coros das catedrais de Aachen (Aachener Domchor), Regensburg (Regensburger Domspatzen) e Halle (Stadtsingechor), mas tem em seu favor a celebridade decorrente da associação à Thomaskirche (Igreja de S. Tomé) e aos compositores de renome que a dirigiram, sendo o mais conhecido Johann Sebastian Bach, que foi Kantor de S. Tomé entre 1723 e 1750 e compôs para o Thomanerchor a maior parte da sua vasta produção de música sacra.

O coro é dirigido hoje em dia por Georg Christoph Biller, que ocupa o cargo desde 1992 e é o 36.º Kantor da Igreja de S. Tomé. Como seria de esperar, a música de Bach está no centro do seu repertório.

[Excertos da Missa em si menor, a última grande obra vocal composta por Bach, pelo Thomanerchor e pela Orquestra Barroca de Freiburg, dirigidos por Georg Christoph Biller. O registo foi realizado na Igreja de S. Tomé em Leipzig]

Wiener Sangerknaben
Fundação: Viena, Áustria, 1498

O coro como hoje existe foi fundado em 1924, mas remonta ao imperador Maximiliano I, que deu instruções para a constituição de um coro formado por dois baixos, seis rapazes e um mestre de coro. Entre as suas muitas realizações está a histórica gravação integral das cantatas sacras de Bach por Nikolaus Harnoncourt e Gustav Leonhardt, que se estendeu entre 1970 e 1990 e é a única a recorrer exclusivamente a vozes masculinas, usando rapazes mesmo nas espinhosas partes solistas.

O coro está hoje dividido em quatro sub-coros, baptizados com os nomes de Bruckner, Haydn, Mozart e Schubert, de forma a permitir realizar tournées durante todo o ano. O seu repertório é muito variado – de Bach a Mahler – e inclui uma proporção considerável de música pop, canções tradicionais, canções de Natal e “bombons clássicos” (como a Ave Maria de Gounod e valsas de Strauss). Em 1920 alguém teve a ideia peregrina de vestir os miúdos de marinheiros – apesar de Viena ficar muito longe do mar – e a fatiota e as boinas ficaram até hoje.

[Coro “Der Himmel lacht! Die Erde jubilieret”, da Cantata BWV 31, de Johann Sebastian Bach, na gravação de 1974, pelos Wiener Sängerknaben & Concentus Musicus Wien, com direcção de Nikolaus Harnoncourt]

Knabenchor Hannover
Fundação: Hannover, Alemanha, 1950

Heinz Hennig tinha apenas 23 anos quando fundou o Knabenchor Hannover em 1950 e dirigiu-o até 2001 – o seu posto foi então assumido por Jörg Breiding. O coro também participou na gravação integral das cantatas de Bach por Harnoncourt & Leonhardt e tem dado especial atenção à música seiscentista – Monteverdi, Rosenmüller, Hammerschmidt, Schütz, Schelle, Buxtehude e Praetorius. Nas gravações dos Kleine Geistliche Konzerte (1636 e 1639) de Schütz (na Capriccio) os rapazes sopranos têm uma prestação solista que desafia as melhores interpretações femininas.

[Meine Seele erhebet den Herren (Deutsche Magnificat) SWV 426 de Heinrich Schütz, pelo Knabenchor Hannover, em 2008]

Tölzer Knabenchor
Fundação: Bad Tölz, Alemanha, 1956

Gerhard Schmidt-Gaden era ainda mais novo – tinha 19 anos – quando fundou o Tölzer Knabenchor e é ainda o seu maestro. Foi um dos coros de serviço à gravação integral das cantatas de Bach por Harnoncourt & Leonhardt e tem colaborado com os maiores nomes da direcção musical, como Herbert von Karajan, Leonard Bernstein, Georg Solti, Simon Rattle, ou Daniel Barenboim. Um dos seus triunfos é a gravação da Paixão segundo S. Mateus, de Bach, por Gustav Leonhardt e La Petite Bande (Deutsche Harmonia Mundi), em que os rapazes assumem todos os papéis solistas de soprano sem uma vacilação.

[Excerto do moteto Jesu, meine Freude BWV 227, de Johann Sebastian Bach, por Thomas Timmer, Phlipp Mosch e Matthias Hansel (solistas) e o Tölzer Knabenchor, com direcção de Gerhard Schmidt-Gaden, ao vivo no Suntory Hall, Tóquio, 3 de Outubro de 2000]

Choir of New College, Oxford
Fundação: 1379, Inglaterra

O nome é enganador, pois o New College, fundado por William of Wykenham, Bispo de Winchester, é o mais antigo dos colégios de Oxford.

Sob a direcção de Edward Higginbottom (1976-2014), o coro fez dezenas de gravações, cobrindo um período que vai da Idade Média (John Taverner) ao nosso tempo (James MacMillan). A partir de 2003 têm sido editadas na etiqueta do coro, a Novum, cujo catálogo conta com discos que hoje poucos maestros têm a ousadia de empreender, como seja a atribuição a rapazes soprano de todos os papéis solistas no Requiem de Mozart e nas Vespro della Beata Vergine de Monteverdi. Para a Naxos, o coro e Higginbottom gravaram versões da Paixão segundo S. João de Bach e da oratória Messiah de Handel, também com todos os solos vocais por rapazes soprano.

[Excerto do Miserere de Gregorio Allegri (c.1582-1652)]

Winchester Cathedral Choir
Fundação: final do século XIV, Inglaterra

A data exacta de fundação é incerta, mas a menção mais antiga ao coro da catedral de Winchester data de 1402. Em tempos mais recentes, o coro ganhou notoriedade sob a direcção de David Hill (1987-2002), com o qual gravou numerosos discos para as editoras Hyperion e Virgin Classics. As gravações Hyperion que cobrem os dois períodos de ouro da música coral britânica: os séculos XVI-XVII – Blow, Byrd, Gibbons, Philips, Tallis, Tye, Weelkes – e os séculos XIX-XX – Howells, Stanford.

O coro é dirigido desde 2002 por Andrew Lumsden.

[O nata lux de lumine, de Thomas Tallis (c.1505-1585), seguida (a partir de 1’56) de O sacrum convivium, de Tomás Luis de Victoria (c.1548-1611), direcção de David Hill]

King’s College Choir, Cambridge
Fundação: 1441, Inglaterra

O coro foi fundado por Henrique VI com o fito de providenciar música para a sua capela. O compositor Thomas Tomkins foi seu director no início do século XVII e o coro é dirigido desde 1982 por Stephen Cleobury. Passaram por este coro o compositor Orlando Gibbons, cantores como Michael Chance, Gerald Finley, Mark Padmore, James Gilchrist, Christopher Purves, Robert Tear, Tim Mead e Stephen Varcoe e maestros como Andrew Davis, Stephen Layton, Simon Preston e David Wilcocks.

Após ter gravado para a EMI, passou, a partir de 2012, a gravar para a sua própria etiqueta discográfica, a King’s College.

[O magnum mysterium (1994), de Morten Lauridsen (n. 1943), gravação de 2009]

The Choir of St. John’s College, Cambridge
Fundação: 1511, Inglaterra; reformulado em 1670

O coro conheceu o seu período de maior visibilidade sob a direcção de George Guest (1951-1991), tendo realizado numerosas gravações para a Argo entre 1958 e 1981, recentemente reunidas na caixa de 42 CDs The complete Argo Recordings (Decca). Sob a direcção de Christopher Robinson (1991-2003) o coro gravou para a Naxos uma aplaudida série dedicada a compositores britânicos do século XX.

Muitos nomes relevantes da música de hoje cantaram no coro, como sejam os maestros Robert King e Andrew Carwood, o contratenor Iestyn Davies e o barítono Simon Keenlyside.

[Mini-documentário sobre o Choir of St. John’s College]

Christ Church Cathedral Choir, Oxford
Fundação: 1526, Inglaterra

O coro foi fundado pelo Cardeal Wolsey e o seu primeiro director foi John Taverner (c.1490-1545), o mais eminente compositor inglês de então. A passagem pelo coro, entre 1912 e 1918, foi decisiva para que William Walton (1902-1983) descobrisse a sua vocação musical – tornar-se-ia num dos mais importantes compositores britânicos de música sacra do século XX. O coro foi dirigido entre 1970 e 1981 por Simon Preston e desde 1985 que tem por maestro Stephen Darlington. Com este, o coro efectuou dezenas de gravações, entre as quais está uma série na editora Avie dedicada ao Eton Choirbook, um precioso repositório de música sacra inglesa do século XV (contém peças de 24 compositores) e uma das poucas colecções que escapou à fúria “anti-papista” da Reforma em terras inglesas.

[Magnificat de Walter Lambe (1450-1504), um dos compositores mais representados no Eton Choirbook]

Westminster Cathedral Choir
Fundação: 1902, Grã-Bretanha

Entre os grandes coros britânicos, este é uma dupla excepção: surgiu apenas no século XX e está associado a uma igreja do culto católico. Sob a direcção de David Hill, James O’Donnell e Martin Baker (que o dirige desde 2000), o coro tem realizado uma série de gravações para a Hyperion. cobrindo um arco temporal que vai da polifonia renascentista italiana e ibérica – Allegri, Anerio, Guerrero, Morales, Palestrina, Victoria – à música do século XX – Bingham, Britten, Janáček, Kodály, Langlais, Martin, Pizzetti, Poulenc, Vaughan Williams. O coro tem estreado obras dos mais conceituados compositores do nosso tempo como James MacMillan, Peter Maxwell Davies, Jonathan Harvey e Judith Bingham e o seu apetite por repertório menos conhecido levou-o até ao período de ouro da polifonia portuguesa, representada no CD Masterpieces of Portuguese polyphony (Hyperion), com obras de Manuel Cardoso, João Lourenço Rebelo e Pedro de Cristo.

[In Monte Oliveti, de Orlando Lassus (c.1532-1594), numa transmissão radiofónica de 2009]

“Olhar para o lado e não intervir”

Na entrada da Wikipedia referente aos Regensburger Domsptazen lê-se que este coro “tem conhecido vários altos e baixos na sua história de mais de mil anos”. Julho de 2017 marcará certamente um dos momentos mais baixos, devido à divulgação de um relatório de 440 páginas, encomendado pela Diocese de Regensburg, que mostra que as denúncias vindas a lume em 2010 eram fundadas.

Em 2016, o advogado Ulrich Weber, que tinha sido encarregue pela diocese de conduzir as investigações, anunciara, num relatório preliminar, ter identificado 231 casos de abusos, concentrados no final da década de 1970 e envolvendo pelo menos uma dezena de agressores, mas o relatório final agora divulgado contabiliza 547 rapazes vítimas de violência psicológica, física e sexual entre 1945 e 2015.

Domspatzen

O relatório atribui a Gerhard Ludwig Müller enquanto bispo de Regensburg em 2002-12 “claras responsabilidades nas falhas da igreja em termos estratégicos, organizativos e comunicacionais” na resposta às primeiras denúncias de abusos.

Em 2010, numa entrevista, Georg Ratzinger admitiu ter dado alguns tabefes aos rapazes do coro – antes de a punição física ter sido proibida pela lei bávara – mas deixou claro que nunca ouvira falar de abusos sexuais enquanto dirigiu o coro. Em 2016, Ratzinger, então com 91 anos, reafirmou nunca ter ouvido rumores sobre abusos sexuais, mas é agora acusado pelo relatório de “olhar para o lado e não intervir”. Com efeito, atendendo à escala dos abusos e ao facto de Ratzinger ter dirigido o coro durante 30 anos, as suas alegações de desconhecimento do assunto são pouco credíveis.

Rudolf Voderholzer, sucessor de Müller como bispo de Regensburg, anunciou a intenção de indemnizar as vítimas de abusos com quantias entre 5.000 e 20.000 euros. Parte dos padres identificados como agressores sexuais já terão, entretanto, falecido, como é o caso de Friedrich Zeitler e Georg Friedrich Zimmermann, que ocuparam o cargo de directores do internato associado ao coro.

Domspatzen

Acaba por ser irónico que Theobald Schrems – o director musical entre 1924 e 1964 – seja elogiado por ter feito as reformas estruturais que revitalizaram o coro, melhoraram o seu desempenho e lhe conferiram projecção internacional, pois foi o regime de internato dos rapazes entre os 10 e os 19 anos que ele criou que favoreceu, na ausência de humanidade e supervisão, a implantação de um ambiente sufocante, dominado por punições físicas sádicas e de abuso sexual de crianças pela parte daqueles que teriam a obrigação de os educar e proteger.

Domspatzen

Tempo de penitência

Durante boa parte da sua história – da Idade Média ao final do Barroco – a Igreja foi a empregadora dos mais talentosos compositores. Muitos deles tiveram como atribuição não só compor, preparar e dirigir a execução de música para os ofícios religiosos, como instruir e ensaiar os coros de rapazes. Entre tantos compositores que desempenharam tais tarefas, só de um compositor de primeiro plano há indícios que terá estado envolvido num caso de abuso sexual e que terá sido punido por isso – foi Nicolas Gombert, considerado como o mais talentoso e influente compositor da “geração perdida” entre Josquin Desprez e Giovanni Pierluigi da Palestrina.

[Moteto Hodie beata virgo, de Gombert, pelo Ely Cathedral Choir, ao vivo na Catedral de Ely a 2 de Fevereiro de 2016. O Ely Cathedral Choir é um dos mais reputados coros britânicos e as suas origens remontam ao ano 1000]

Os escassos dados biográficos sobre Gombert (c. 1490-c.1560) indicam que nasceu perto de Lille, no Norte de França, junto à fronteira com os Países Baixos Espanhóis, e que em 1526, como tantos outros músicos franco-flamengos, se mudou para Madrid, ao serviço do imperador Carlos V. Três anos depois foi nomeado mestre do coro de rapazes da capela imperial e o seu desempenho foi certamente muito apreciado, pois foi sendo recompensado com várias prebendas. Nestes anos viajou intensamente, acompanhando Carlos V nas suas deslocações pela Europa. A produção de Gombert inclui 10 missas, 160 motetos e 70 canções (os números variam consoante as fontes, por haver várias obras de atribuição incerta) e poderia ser mais vasta, não fosse o brusco interregno na sua carreira.

[Moteto In te Domine speravi, de Gombert, pelo Huelgas Ensemble (um coro misto), dirigido por Paul van Nevel (Sony Vivarte)]

A partir de 1540, o nome de Gombert desaparece dos registos – da capela imperial ou de quaisquer outros – e só volta a ter-se notícia dele através de uma carta que remeteu em 1547, a partir de Tournai, para Ferrante Gonzaga, comandante do exército de Carlos V em Itália. Segundo o Theonoston, publicado em 1560 pelo polímato Girolamo Cardano, tal interregno deveu-se ao facto de Gombert ter sido condenado às galés por ter abusado de um menino de coro (“damnatus ad triremes rursus Gombertus musicus stupro pueri principalis”). A pena nas galés ter-se-á estendido até 1547, altura em que, a dar crédito a Cardano, terá conseguido obter o perdão de Carlos V, mediante o envio a este de várias partituras (“cygneas cantiones”) cuja beleza comoveu o imperador. Aparentemente, Gombert terá sido autorizado a instalar-se em Tournai, onde detinha uma prebenda, e aí terá passado o resto da vida. Alguns musicólogos identificam essas “canções do cisne” com um manuscrito contendo oito Magnificats da pena de Gombert, enquanto outros sugerem que seriam os seus motetos de temática penitencial, que terá composto como forma de expiação dos seus pecados. Numa das suas peças mais sombrias, Tribulatio ed angustia, o texto suplica “livrai-me do lago infernal e da lama fétida” (“ut educas me de lacu inferni et de luto faccis”) e a música ilustra o abismo com uma vertiginosa escala descendente. Um dos motetos de Gombert que mais frequentemnet figura nos programas de concertos e nas gravações é Media vita in morte sumus, cujo texto começa assim: “A meio da vida a morte rodeia-nos/ A quem pediremos ajuda/ Senão a Vós, Senhor/ Que pelos nossos pecados justamente Vos irais?”

[Moteto Media vita in morte sumus, de Gombert, pela Oxford Camerata (um coro misto), dirigida por Jeremy Summerly (Naxos)]

No que diz respeito aos Regensburger Domspatzen, vai sendo altura de a indiferença pelos sofrimentos dos mais fracos, que permitiu décadas de abusos continuados, e a arrogância, as desculpas burocráticas e a hipocrisia, com que, depois, se tentou ocultá-los ou menorizá-los, dêem lugar à penitência e à expiação. Afinal de contas, as pessoas com responsabilidades neste caso acreditam que há vida após a morte e que aos pecadores está reservada uma eternidade de lagos infernais e lama fétida.

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