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Entre a Eslovénia e Matosinhos: dois contos inéditos do festival LeV

12 Maio 2017

Começa esta sexta feira o festival Literatura em Viagem (e continua até domingo). O Observador faz a pré-publicação de dois contos escritos por autores que estiveram na edição anterior do LeV.

O LeV — Literatura em Viagem regressa esta sexta feira, numa nova edição que continua até domingo, dia 14. O festival que acontece em Matosinhos faz parte do Literatura Europe Live, um projeto do programa Europa Criativa que junta outros eventos semelhantes (cerca de duas dezenas de festivais) em diferentes países e tem como principal objetivo a “circulação e produção literária de jovens autores europeus”.

Ou seja, não é apenas a participação nos programas dos festivais que se pretende mas também a criação e a escrita, partindo da inspiração que as cidades que acolhem estes autores sugerem. Jon Gower (do País de Gales) e Ana Svetel (da Eslovénia) estiveram na edição de 2016 do LeV e os dois contos que o Observador publica em primeira mão são resultado desse processo criativo.

Ana Svetel nasceu em Maribor em 1990. Em 2015 publicou Lepo in prav, uma primeira coleção de poemas, . Vive em Ljubljana, onde é contadora de histórias, corista e professora de piano. Jon Gower é um antigo correspondente da BBC. Escreve e inglês em gaélico e estreou-se nos livros em 1996.

“O que traz a maré​”

por Jon Gower

Foi numa terça-feira que a maré transportou a coisa mais preciosa do mundo e foi depositá-la com cuidado na praia de Matosinhos. O velho Luís, que encontrou a garrafa, não calculava o valor da mensagem que trazia dentro. Era enigmática. «Para descobrir se alguém retribui o teu amor, basta perguntar-lhe o seguinte: posso ouvir o bater do teu coração?»

Luís meditou sobre a mensagem enquanto tomava café. Olhava de tempos a tempos para a senhora de idade que via ali todas as terças-feiras. O amor que lhe tinha aumentava com o passar dos meses, mas não sabia ao certo se ela dava sequer pela sua presença. Foi então que desvendou o segredo. Desenrolou a pequena tira de papel e voltou a ler a mensagem da garrafa. Encheu-se de coragem para se aproximar e pediu à senhora para escutar o seu coração.

O gesto que se seguiu foi tão inesperado como o pedido anterior: o velho inclinou-se para o peito dela, devagar, compenetrado. A senhora não interrompeu aquele movimento que tantas fronteiras atravessava de uma só vez, graus de intimidade, geografias pessoais, limiares de solidão e de ternura.

Jon Gower

Quando o velho encostou, por fim, o ouvido ao vestido dela, pareceu-lhe que se infiltrava na sua vida, e por isso ela amparou-lhe a cabeça e amassou-lhe os cabelos grisalhos.

A mensagem era um tesouro: ajudava os solitários a descobrirem o amor, e pouco haverá no mundo que tenha maior valor ou capacidade para transformar.

Como a dona do café era muito bisbilhoteira, a história do velho e da velha que se tinham perdido de amores por causa da mensagem misteriosa não tardou a disseminar-se pela cidade. Em breve, outros corações desamparados experimentaram seguir aquele exemplo, apesar do risco de desilusão. A mensagem tinha o seu encanto, tinha uma força inaudita.

Quatro dias mais tarde, já os principais meios de comunicação social emitiam em direto a partir da cidade. Rodrigo Guedes de Carvalho apresentava o noticiário das oito à porta da igreja, falava de milagres contemporâneos, especulava sobre quem teria escrito a mensagem. A vinte metros de distância, num estúdio improvisado, José Rodrigues dos Santos moderava um debate televisivo em direto com quatro convidados: um especialista em questões sentimentais, um bispo, e um casal unido por um mero gesto, quando um dos dois lançara aquela pergunta, simples mas espantosa, antes de baixar a cabeça e encostar o ouvido ao peito do outro, produzindo aquilo que ambos descreveram como uma pequena descarga eléctrica.

Cinco dias depois, às parabólicas portuguesas juntaram-se as da Al Jazeera, Russia Today, e CNN. Um milionário texano ofereceu-se para comprar a garrafa. Rejeitada a sua primeira proposta, ofereceu vinte mil dólares a todos os habitantes da cidade. Mas a mensagem da garrafa era inestimável, pois o amor não tem preço.

Passado o entusiasmo, depois de o frenesi mediático esmorecer, o presidente da Câmara Municipal de Matosinhos convocou os munícipes para uma assembleia onde se determinaria o que fariam a seguir. A cidade tornara-se famosa da noite para o dia e queria rentabilizar a situação. Discutiram várias alternativas, entre elas a possibilidade de mudar o nome da povoação para Cidade do Amor. Foi nessa altura que o amor da vida de Luís pegou no microfone para partilhar a ideia do casal…

Na Eslovénia, uma senhora chamada Ana encontrou uma garrafa na costa estreita do país, partiu em busca do homem com quem se cruzara em tempos num pomar e fez-lhe a pergunta. Um homem solteiro escutou o coração de uma mulher solitária na Costa Rica, e deixou de estar sozinho.

Nessa mesma semana, o primeiro carregamento de garrafas zarpou do terminal de mercadorias. Todos os capitães de todos os portentosos navios que partiram do porto imponente tinham recebido cinquenta garrafas, todas elas com a mesma mensagem, redigida por um dos munícipes e destinada a alcançar enseadas recônditas, locais onde a imprensa não chegava ou talvez nem existisse. Quando chegassem a alto-mar, os capitães lançariam as garrafas à água e estas seguiriam viagem à deriva.

E assim foi que correntes e marés levaram a mensagem aos quatro pontos da rosa dos ventos. Na Eslovénia, uma senhora chamada Ana encontrou uma garrafa na costa estreita do país, partiu em busca do homem com quem se cruzara em tempos num pomar e fez-lhe a pergunta. Um homem solteiro escutou o coração de uma mulher solitária na Costa Rica, e deixou de estar sozinho. Aconteceu o mesmo em todos os continentes, da Ásia à Australásia.

Foi esse o milagre de Matosinhos: preencheu o vazio que habita os homens, tornou vidas vãs, que não tinham rumo, absolutamente plenas.

[tradução do inglês de Carlos Duarte]

“Fogo-de-artifício​”

por Ana Svetel

A mochila pesada magoa o ombro de Inês.

— Qual era o valor da bagagem?
— Como assim?
— O que trazia lá dentro?

A funcionária anafada do aeroporto tinha sotaque irritante do Sul, mascava pastilha elástica, os seus dedos gordos revestiam o rato do computador como se fossem uma carapaça.

— Tudo. Trazia lá tudo.

Sente-se como se tivesse a língua inchada, o nariz entupido. O português, que devia passar gracioso e ondulante pelas vias nasais e orais, fica-lhe entalado na garganta, como um pedaço demasiado grande de batata. A sua própria voz soa-lhe estranha.

— Qual era o valor aproximado da bagagem? Diga-me o valor aproximado da bagagem em euros.

A funcionária olha-a como se tivesse um parafuso a menos. Mas o que quer realmente a mulher? Como poderia ela converter num número todas as horas que passara a vasculhar lojas de lembranças, a experimentar dezenas de camisolas para a mãe, a provar patês de peixe para o pai, a procurar a baleia de peluche mais bonita para o Paulo? Era como se lhe perguntassem: quanto vale o teu amor pela família em euros? Em quantos cêntimos se avalia a saudade? Qual a taxa de câmbio da melancolia?

Ana Svetel

Valia muito, muito. Qualquer que fosse a sua resposta, pecaria por defeito, mas ainda assim, tinha de lhe dar um valor alto.

— Mil euros.
— Trazia dinheiro, pedras preciosas ou vales?
— Não.

A mão gorda da funcionária descolou finalmente do rato para premir quatro números no teclado, devagar. 1 0 0 0.

***

— Inês!

Paulo, montado numa bicicleta frente à casa, foi o primeiro a vê-la.

— Então, já não andas com rodinhas?

O menino despejou a bicicleta no chão, com as rodas a girar, rompeu a correr na direção dela e lançou-se com toda a força para os seus braços.

— Já não uso rodinhas há taaanto tempo! Já ninguém usa, sabias? O Alex, o Filipe, nem o trapalhão do Jo! Queres ver o que fizemos hoje na escola?

Arrastou-a pela mão para o outro lado da rua — Inês não se lembrava da altura daquele passeio e tropeçou pelo caminho —, puxou-a até à porta e abriu-a de repente, com um gesto que já repetira muitas vezes.

— Mãe! Mãe! A Inês está cá!

A mãe apareceu com a cabeça embrulhada numa toalha, como se fosse um turbante.

— O que aconteceu? Porque não nos disseste que já tinhas chegado? Sabes que te teríamos ido buscar ao aeroporto! Credo, filha, estás tão branca! Não apanhaste sol nenhum lá em cima? Tens comido bem? Tens cozinhado como deve ser?

Não se lembrava de o abraço da mãe ser tão forte. Sentiu-se asfixiada.

— Ai, mãe, deixa-me!
— Ninguém te abraça lá em cima, pois não, querida? Ainda te lembras de como se dá um abraço?

Sem esperar por resposta da filha, continuou a tagarelar ininterruptamente, a sala transbordava de palavras e perguntas, exclamações que a envolveram como uma enorme nuvem de calor. À noite, quando o pai chegou a casa, sentaram-se todos na sala de estar.

— Hoje ficas na poltrona, que és a nossa convidada de honra — disse ele.

O pai era o único que usava a poltrona. A mãe ficava sempre na cadeira de baloiço e o Paulo espojava-se no sofá quando se rendiam à programação da noite na TV. Era essa a constelação inimutável nas noites da família Martinez. A ordem natural das coisas que lhe parecera inalterável e eterna desde que era pequena. Era a primeira vez que se sentava na poltrona do pai. Os outros encolheram-se no sofá à frente dela, como três alunos aplicados na primeira fila da sala, a contemplarem a professora com admiração.

Não lhes falou do Oscar, que dias antes escondera a cabeça entre as suas pernas, não lhes falou das mulheres com quem trabalhava, que só falavam islandês umas com as outras, nem da solidão que sentia quando voltava sozinha da piscina, ou ao domingo, em que se instalava um silêncio horrível em sua casa.

— Agora conta-nos tudo — disse a mãe.
— A miúda é que sabe o que nos conta e não conta — reclamou o pai.

Inês sentiu-se quase envergonhada. O que seria tudo? Onde começava e acabava?

— Viste alguma baleia? — perguntou, por fim, o seu maninho, safando-a.
— Podes crer! A nossa empresa ofereceu-nos uma viagem de barco em que vimos baleias.
— E atacou-te, como a baleia assassina daquele filme?
— Deixem a rapariga contar o que lhe apetecer, por amor da santa! — teimou o pai.

E as palavras saíram-lhe em catadupa: falou-lhes das baleias e das noites brancas, do mar que nunca cheirava a nada, dos cavalinhos felpudos, das manifestações e da deposição do presidente, do skyr e dos doces de alcaçuz, do café aguado e dos cachorros quentes, disse-lhes meia dúzia de palavras islandesas e falou-lhes da aurora boreal, do patrão que era um homem feminista — «essa está boa!», exclamou o pai —, da sua amiga nova, a Alexandra, que era de Lisboa mas já ali morava há três anos. Mas não lhes falou do Oscar, que dias antes escondera a cabeça entre as suas pernas, não lhes falou das mulheres com quem trabalhava, que só falavam islandês umas com as outras, nem da solidão que sentia quando voltava sozinha da piscina, ou ao domingo, em que se instalava um silêncio horrível em sua casa.

— E tens emprego?
— Sim, entrei para os quadros.
— Mas pagam-te bem? Cuidado. Não te deixes explorar por não seres de lá.
— Recebo 200 000 coroas por mês.
— Quanto?
— 1500 euros.

Reparou que a mãe arregalou os olhos. Ela e o pai recebiam pouco mais do que isso em conjunto.

— Trouxeste alguma coisa para mim?
— Então, miúdo, o que julgas que estás a fazer? A tua querida irmã acaba de chegar e o que te interessa é saber se traz prendas! Achas isso bonito?!

Quando viu o irmão encolher-se, vergado pelo ralhete da mãe, as lágrimas deslizaram pelas faces de Inês abaixo.

— Não faz mal, fofa. Não estávamos a contar com nada. Só queríamos que voltasses a casa! Queríamos ver-te, ter-te um bocadinho connosco.

A mãe levantou-se de um pulo, a esbracejar ansiosa para a filha em lágrimas. O pai continuou a ralhar com o filho. O papagaio gritava na gaiola. Mas Inês não conseguia parar de chorar. Imaginava a sua mala a dar voltas e mais voltas num tapete rolante num aeroporto desconhecido, abandonada depois de todas as outras terem sido resgatadas pelos donos. Imaginava os trabalhadores do aeroporto a pararem o tapete passada uma hora, e a abrirem a mala, a repartirem entre si o recheio que lhes interessasse e a despejarem o resto num caixote do lixo. Imaginou, por um instante, a funcionária gorda vestida com a bela camisola islandesa que escolhera com tanto carinho para a mãe.

— No aeroporto, no aeroporto — acabou por balbuciar. — Perdeu-se. A caminho de cá. A mala. As prendas… — Voltou a ser dominada pelas lágrimas.

— Perdi-as.
— Oh, Inês. Já sabes que não faz mal, querida.
— E preocupei-me tanto a escolhê-las — soluçou.
— São coisas que acontecem. Por sorte, não foi nada mais valioso — disse o pai, num tom que pretendia sossegá la. — Conheço uma pessoa que perdeu uma mala quando voltou de Cuba. E vinha cheia de charutos e garrafas de rum. Imaginas?

— Talvez tenha ido parar à China! — sugeriu o Paulo, com um brilho nos olhos.

Como se as ondas que lavavam a areia da praia ao pé de casa tivessem levado embora a tristeza de uma só vez e tivessem trazido novas emoções, os três distraíram-se imediatamente a conversar sobre as aventuras de conhecidos em vários aeroportos. Inês assoou-se. Já se tinha esquecido da velocidade a que tudo mudava ali.

***

— Despacha-te. Já só temos cinco minutos. Mexe-te, Paulo, vai mudar de camisa! — disse a mãe. Bateu com a porta, aplicou uma camada rápida de sombra arroxeada nas pálpebras e calçou um par de sapatos altos, enquanto o pai enfiava a carteira no bolso de trás das calças de ganga.

— Vamos a pé? — perguntou o pai.

— Claro que sim. Como haveríamos de ir? A cidade está à pinha e não há onde estacionar. Anda daí, Paulo! Se não vens já, ficas em casa! Pouco me importa!

Mas o braço de Inês continua a parecer-lhe tolhido por uma certa melancolia e naquela noite tudo lhe cheira bem, as maçarocas e o peixe assado na rua, os homens que fumam à sua frente, toda a gente com pressa, a caminho do fundo da rua, onde se consegue vislumbrar qualquer coisa pelo meio da multidão. Rápido, está quase a começar.

Saíram a correr — o pai a cheirar à cerveja que bebera depois de jantar, a mãe a perfume adocidado e enjoativo, o Paulo a inocência e Inês a amaciador de tecidos islandês. Um misto estranho de aromas, talvez tão harmonioso como o de qualquer grupo de quatro que se tivesse reunido por acaso. Mas o braço de Inês continua a parecer-lhe tolhido por uma certa melancolia e naquela noite tudo lhe cheira bem, as maçarocas e o peixe assado na rua, os homens que fumam à sua frente, toda a gente com pressa, a caminho do fundo da rua, onde se consegue vislumbrar qualquer coisa pelo meio da multidão. Rápido, está quase a começar.

Quando um autocarro se atravessa no caminho deles, param no passeio, com alguma relutância.

— Quem são estes imbecis, a acelerar a estas horas? — pergunta a mãe, fulminando os passageiros com um olhar indignado.

— São aqueles escritores. Estão cá há vários dias. Vieram para um festival qualquer — resmunga o pai.

— Até podia ser o Papa! Por amor de Deus. Porque tiveram de vir para aqui de autocarro a estas horas? — barafusta a mãe, mais para ela própria do que para quem a acompanhava. Arrancam de imediato para o outro lado da rua, onde um grupo de pessoas se reunira em volta de um eucalipto. Vizinhos, colegas de escola, amigos da família.

A aragem transporta o aroma quase imperceptível do Oceano Atlântico. E o céu não tarda a iluminar-se com a primeira detonação. Uma chuva de mil fagulhas seguida de mil mais. Inês sente que naquela noite o céu mais bonito do mundo é o que cobre Matosinhos. Esteja a bagagem onde estiver, ela está ali, por inteiro, e naquele instante não pensa em mais lugar nenhum.

[Traduzido do esloveno para inglês por Nada Grošelj; versão portuguesa de Carlos Duarte.]

Todas as informações sobre o Literatura em Viagem no facebook e no site oficial.

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