Greg Sestero: o homem que contou a história do “pior filme de sempre”

08 Outubro 2017

Este domingo ainda é possível (re)ver no Nimas "The Room", de Tommy Wiseau. Um dos piores filmes de sempre cuja história é contada no livro "The Disaster Artist", agora adaptado por James Franco.

Dar a volta. O que significa “dar a volta”? Tornou-se recorrente a expressão estar associada a eventos negativos. Por exemplo, quando algo é tão mau que se torna bom ou quando um caso de corrupção tem tantas camadas que o crime já se tornou a normalidade. Dar a volta pode ser usado num infindável número de situações. Mas “dar a volta” é também o que está a acontecer ao ciclo “Sessões de Culto” organizado por Filipe Melo no Espaço Nimas em Lisboa. E agora as explicações.

Ao longo de um ano trouxe filmes insólitos que, por diversas razões, se tornaram populares, objectos de culto que marcaram diferentes gerações ao longo das últimas décadas. Começou com “The Room” (2003), de Tommy Wiseau, passou por obras como “El Topo” (1970), de Alejandro Jodorowsky, “Gremlins” (1984), de Joe Dante, “Duel” (1971), de Steven Spielberg, “Dellamorte Dellamore” (1994), de Michele Soavi, “Midnight Run” (1988), de Martin Brest, e termina neste fim-de-semana (houve sessões na sexta-feira e no sábado, repete este domingo às 21h30) com um regresso a “The Room”.

Desta vez com a presença do actor e produtor do filme, Greg Sestero, também autor do livro (que escreveu a meias com Tom Bissell) The Disaster Artis”, sobre o seu envolvimento em “The Room” e as suas memórias, que serviu de adaptação para o filme homónimo de James Franco que estreará nas nossas salas no início do próximo ano. Estivemos com Sestero, conversámos com ele e demos a volta a uma série de questões.

O sonho

Dar a volta está bem presente na popularidade de “The Room”. Talvez a obra mais carismática deste século na lógica de coisas más que se tornam boas. Contudo há uma grande diferença em “The Room”: ultrapassa a ironia dessa lógica. É e será sempre um filme mau. É a convicção do seu realizador, argumentista e actor principal, Tommy Wiseau — latente em quase todas as cenas — de que está a fazer a sua versão de “Um Eléctrico Chamado Desejo” que tornam isto tudo especial.

Wiseau quis ser Tennessee Williams, Elia Kazan e Marlon Brando. Tarefa impossível à vista, pior ainda quando não há o mínimo de talento ou conhecimento para ser sequer um deles. Mas concretizou o seu sonho, materializou algo, mesmo que o seu “Eléctrico” só exista na sua cabeça. O seu momento “STEEELLAAAAAA” é só mais uma entre todas as cenas falhadas em “The Room”.

Tommy Wiseau e Greg Sestero

Greg Sestero conheceu Tommy Wiseau “numa escola para actores em São Francisco em 1998″, diz-nos. “Ambos queríamos ser actores. Era muito excêntrico e ninguém estava interessado em trabalhar com ele. Vi algo que me fascinou e isso aproximou-nos, tornámo-nos companheiros de cenas e percebemos que estávamos fora do sistema e que acreditávamos em algo que ninguém queria acreditar. Ele tinha um apartamento em Los Angeles que me alugou por duzentos dólares e isso permitiu-me mudar-me para lá, procurar um agente, ir a audições. Ao fim de uma semana já tinha um agente, em três meses um papel principal num filme de terror [‘Retro Puppet Master’]. A certa altura o Tommy também se mudou para Los Angeles, queria ser actor, mas não conseguia um papel, ninguém acreditava nele. Ele estava frustrado e queria mostrar ao mundo de que era capaz: decidiu fazer o seu filme. E como o cenário também estava algo seco para mim, decidimos fazê-lo juntos.”

Perseguir um sonho, concretizá-lo. Não é isso que é vendido recorrentemente aos rejeitados? Aqueles que têm uma ideia que pode mudar o mundo, mas no mundo não há lugar para eles nem para essa ideia. Sujam-se então as mãos, começa-se a construir ou a convencer o mundo de que essas ideias têm lugar. E depois entra o medo de falhar e é esse medo, do falhanço, do ser ridicularizado, que muitas vezes impede alguns de mover montanhas. Los Angeles rejeitou Tommy Wiseau e Wiseau fez “The Room”, o seu sonho, a obra-prima e o actor talentoso que todos rejeitavam. Só que Wiseau não era isso. E é aqui que “The Room” também conta uma história que reflecte os sonhos húmidos e flácidos de Los Angeles. E quando Los Angeles rejeita, a melhor resposta é provar de que estão todos errados.

Greg Sestero confirma: “O Tommy sempre foi muito sério. Inicialmente, 'The Room' era para ser uma peça de teatro e todas as cenas teriam lugar num quarto. Mas depois ele decidiu transformá-lo em filme e nem ajustou o título. Talvez um título melhor fosse ‘O Apartamento’. Mesmo assim não faria sentido. Mas faria mais sentido.”

Para isso cria-se uma ilusão. E a ilusão de Tommy Wiseau é “The Room”, que continua convencido, fechado no seu quarto mental, de que o filme é uma obra-prima e de que ele próprio é um génio. E parte do fascínio da audiência para com o filme é perceber imediatamente o fracasso dessa ilusão. “The Room” precisa de ser visto do início para que o encadeamento do horrível faça sentido. Uma cena má como a do traficante de droga é má por si só, mas ganha outras proporções quando se percebe que não há qualquer contexto para existir ou seguimento. A repetição de cenas, de personagens a entrarem e a saírem, dizendo “olá” e “adeus”, tão bem condensada nestes dez segundos, expelem horrores sobre o que é um argumento para Wiseau.

Comédia ou drama?

A pergunta é parva e não é inocente. Tinha de ser feita a Greg Sestero. Ele, sempre presente durante toda a elaboração de “The Room”, próximo de Wiseau, e um protagonista fulcral para o culto que se gerou em sua volta desde a estreia em 2003. Claro que iria responder “drama”:

“Pela forma como a história é contada. Há momentos em que o Tommy está a gritar ‘socorro’. Penso que a comédia vem pela forma como é feita, como agarra a realidade de várias formas. A personagem do Tommy [Johnny] é um ideal de perfeição para ele e toda à gente à sua volta é que tem problemas: não é promovido no emprego, a noiva traiu-o com o melhor amigo [Mark, interpretado por Sestero], tudo à sua volta se está a despedaçar e ele é perfeito. Quando ele diz ‘dei-te sete anos da minha vida e tu destróis tudo em minutos’ é a sua raiva a vir ao de cima. Mas tem tanta piada…”

“The Room” não é uma comédia. É, de facto, um drama. É escrito como um drama, interpretado como um drama, o próprio lugar sugerido pelo título, um quarto, expressa uma intimidade que se associa a um drama. Pouca coisa se passa num quarto, ou “no quarto”, mas Wiseau responde muito seriamente em relação à escolha do título.

Greg Sestero confirma: “Ele sempre foi muito sério. Inicialmente, ‘The Room’ era para ser uma peça de teatro e todas as cenas teriam lugar num quarto. Mas depois ele decidiu transformá-lo em filme e nem ajustou o título. Talvez um título melhor fosse ‘O Apartamento’. Mesmo assim não faria sentido. Mas faria mais sentido.”

A ingenuidade, ou falta de noção, de Tommy Wiseau tornaram “The Room” num sucesso. E parte do fracasso do lado dramático vem da rigidez do protagonista, da impossibilidade de aceitar que também tem falhas, de que é responsável pela sua vida ser um fracasso. E isso correlaciona-se com o falhanço e o sucesso de “The Room”:

“O Johnny não reflecte sobre o que lhe está a acontecer, ele não percebe que também é responsável. Há algo de muito ingénuo, infantil, como se fosse uma criança a dizer ‘se não fizeres isto, suicido-me’. Há uma sinceridade que ele está a tentar trazer, uma intenção em mexer com os sentimentos das pessoas, só que é muito divertido porque não há qualquer noção. As pessoas riem-se mais do que em qualquer comédia. As pessoas riem-se durante todo o filme. Há algo ali que é simultaneamente credível e alienígena. Mas é um drama porque a paixão dele está toda ali. Funciona como uma comédia mas não é intencional.”

É a procura da perfeição, ou insegurança, de Wiseau: “Ele queria ser um actor do Método, como o Marlon Brando ou o James Dean. Ele estava a tentar aperfeiçoar as suas falas, o que faz”. Quase nove mil caracteres e ainda nem se falou da voz e sotaque de Wiseau. É melhor ser o leitor a julgar.

“Ele não é tradicional, mas ele vê-se como alguém tradicional”, continua Greg Sestero. “E existe uma dinâmica que o torna interessante para as audiências, mas pelas razões erradas. Não havia lugar para ele em Los Angeles, por isso ele fez o ‘The Room’, porque era o que queria fazer, onde poderia definir o seu tom e performance como actor”. Uma das características que saltam à vista é a de que apesar de estar muito mal feito, não foi feito a despachar. Há algum cuidado, mesmo que seja um mau cuidado, a acontecer frequentemente em “The Room”. Há uma quantidade absurda de dobragem no filme, principalmente nas falas de Johnny.

É a procura da perfeição, ou insegurança, de Wiseau: “Ele queria ser um actor do Método, como o Marlon Brando ou o James Dean. Ele estava a tentar aperfeiçoar as suas falas, o que faz”. Quase nove mil caracteres e ainda nem se falou da voz e sotaque de Wiseau. É melhor ser o leitor a julgar:

O fenómeno

Outra vez, agora mais de nove mil caracteres e ainda nem se falou de quanto o filme custou: seis milhões de dólares. Seis milhões de dólares do próprio bolso do realizador (Wiseau sempre foi muito discreto sobre a proveniência do dinheiro) para um filme que apenas fez 1800 dólares aquando da sua estreia. O filme é quase todo rodado em estúdio (entre Los Angeles e São Francisco) com alguns exteriores e os cenários dariam para um outro artigo, por isso é melhor saltar essa parte. O fenómeno, sim, o fenómeno, como é que “The Room” se tornou neste fenómeno de culto?

Dois universitários desempenharam um papel importante. Reza a história que tudo começou graças aos estudantes de cinema Michael Rousselet e Scott Gairdner, que ao verem o cartaz de um filme em que não existia reembolso do bilhete seguido da seguinte citação de um crítico — “ver este filme é como ser esfaqueado na cabeça” — ficaram convencidos. A partir daí engataram outros amigos na conversa e a coisa descolou para o circuito universitário.

No final de 2008 um artigo na Entertainment Weekly fez a coisa descolar para outro patamar. Um artigo da Empire no verão de 2009 dinamizou o culto na Europa. “The Room” começou a estar em quase todo o lado. Em 2010 Greg Sestero tem a ideia de começar a escrever The Disaster Artist.

O culto cresceu. Começaram-se a organizar sessões especiais em Los Angeles, Nova Iorque, Londres. Em Los Angeles uma série de celebridades (Paul Rudd, David Cross, Seth Rogen, Kristen Bell, entre muitos outros) iam a essas sessões e ajudaram o culto a atingir outro nível. Surgiram várias actividades durante os visionamentos de “The Room”, desde o público atirar colheres de plástico (estarão à disposição no Nimas), cantar, vestir-se como as personagens, entre muitas outras coisas (que continuam a ser criadas). Há um bom episódio de “How Did This Get Made” em que tudo isto, e mais, é explicado e subentendido.

No final de 2008 um artigo na Entertainment Weekly fez a coisa descolar para outro patamar. Um artigo da Empire no verão de 2009 dinamizou o culto na Europa. “The Room” começou a estar em quase todo o lado. Em 2010 Greg Sestero tem a ideia de começar a escrever The Disaster Artist (que está disponível para venda no Nimas, juntamente com muito outro merchandising em volta do fenómeno “The Room), em 2013 o livro é finalmente publicado e em 2017 James Franco estreia a sua adaptação (chega às salas portuguesas no início de Janeiro), um making-of sobre as entranhas da origem e filmagens de “The Room”, que é também a história de dois amigos: Tommy e Greg.

The Disaster Artist

Greg Sestero confessa-se feliz pela vida que “The Room” lhe proporcionou. Gosta de viajar e de ser convidado para apresentar o filme, falar sobre o seu livro. Permitiram-lhe ir a sítios que não imaginava visitar. O livro surgiu da necessidade de contar a sua história com Tommy. Dois jovens adultos a tentarem triunfar em Los Angeles quando toda a gente lhes batia com as portas.

As histórias que contava na apresentação dos filmes tinham de chegar a toda a gente. E após o artigo na Entertainment Weekly tornou-se fulcral contar porque é que “The Room” foi feito: “Duas pessoas vão para Los Angeles e querem fazer algo juntas. Só que é algo muito mau e que se torna num sucesso pelas razões erradas. Achei que havia algo de especial, divertido e bizarro nisto tudo. Nós contávamos as histórias às pessoas e elas queriam saber mais. Fizemos algo, e o processo de fazeres algo é o mais difícil, porque não sabes o que vai acontecer quando estiver acabado. Eu achei que contar a nossa história poderia ser inspirador. Se correres atrás dos teus sonhos, algo de interessante pode acontecer. Eu queria contar duas histórias, a do filme, e do sonho que partilhei com o Tommy.”

E como estão as coisas com Tommy Wiseau? Acabaram numa luta? Ainda são amigos, sim. Tommy continua a olhar para o seu trabalho com toda a seriedade, Greg também, só que Greg foi um elemento essencial para a popularização do desastre de “The Room”. O livro e a adaptação de James Franco estão a colocar “The Room” num patamar que vai além do cliché do “tão mau que é bom”. Já deu a volta e agora continua a dar a volta a si mesmo. Continua a ser péssimo, mas é uma obra que se tornou um espaço de reflexão para essa ideia de “perseguir os sonhos” e de “vencer em Los Angeles”. É possível que o extremo do fracasso seja o sucesso. E é complicado de dizer se isso é bom ou mau.

Dave e James Franco em "The Disaster Artist"

Mas Greg diz que as coisas estão bem: “Conhecemo-nos há vinte anos e passámos por tudo isto juntos. O que é interessante é que eu vi o desastre. Quando decidi escrever o livro, ele foi a primeira pessoa a quem contei. E quando o acabei ele aprovou-o a 100%. Ele compreende que o livro é um tributo a uma amizade e ao que passámos para fazer ‘The Room’. Ele queria encontrar uma forma de ser actor, porque ninguém lhe dava uma oportunidade. E ele continua sem ter essa oportunidade e eu decidi retribuir-lhe o favor, escrever uma história que pudesse dar uma oportunidade ao Tommy de entrar num filme. Escrevi um filme, ‘Best F(r)iends’ (realizado por Justin MacGregor), em que trabalhamos juntos, foi a forma que encontrei de lhe pagar por todas as oportunidades que me proporcionou.”

Obra de arte incompreendida

Quase no fim e mais uma pergunta escusada, nada inocente: “Vê ‘The Room’ como um mau filme?” “É o que é. É algo que não encaixa no que categorizamos como um filme filmado de forma clássica. Mas é algo que as pessoas respondem e há algo de libertador nisso. É de loucos. As pessoas riem-se em cada cena porque é algo que não lhes é compreensível. É uma obra de arte incompreensível, feita por alguém que vivia no seu próprio mundo, com uma série de gente à sua volta a tentar encaixar as peças. Claro que há pessoas que se desligam imediatamente do filme, principalmente nas primeiras cenas de sexo, mas se ficares há algo ali de fascinante e que te cola ao ecrã porque queres saber para onde é que aquilo está a ir. Após catorze anos tens de dizer que é um sucesso. O público quer ver o ‘The Room’ catorze anos depois. É admirável.”

Greg Sestero está a dizer que “The Room” deu, de facto, a volta. E que continua no pico, num pico infinito, no vazio de outra realidade oferecida pelos olhos de um alcoólico: ele está a olhar para nós mas está a ver outra coisa. O quê? Não se sabe. O que se sabe é que “The Room” venceu a ironia associada ao visionamento destes filmes.

Sim, há público irónico para isto. Mas quem gosta de “The Room” é fascinado pelo desastre, como quando alguém pára para ver um acidente de automóvel e se questiona sobre o que levou aquilo a acontecer. A resposta da existência de “The Room” não está no filme, nem no culto que se lhe seguiu. É uma obra à parte pelas razões erradas e neste caso o erro deu certo para Tommy Wiseau e Greg Sestero. Se isso é questionável? Claro que é. O erro não é um factor de elevação em “The Room”. Mau, bom, obra de arte incompreendida ou elevação inusitada? “É o que é”, como tão bem expressa Greg Sestero.

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