Harry e Meghan: leiam estes livros antes de casar

09 Dezembro 2017

A propósito da novidade recente da família real inglesa, fomos à procura do que a grande literatura tem a dizer sobre o casamento. Entre desgraças e combinações, o que foi escrito pode fazer escola.

Faz jus ao ditado: se em casa de ferreiro espeto de pau, o casamento também casa mal com a literatura. Nos romances clássicos é o matrimónio que desmobiliza a atenção: depois das aventuras e dos desencontros, os heróis lá casam e a história acaba – o casamento já não merece crónica. No romance moderno, embora tenham suprido a lacuna – a vida conjugal já está no centro de Bovary, do Primo Basílio, da Corja… — fizeram-no com o ar triunfante de quem expõe uma lixeira encapotada.

Quem lê as cenas da vida íntima dadas pelos escritores do século dezanove percebe que desvalorizem as penas da revolução francesa: diante dos horrores domésticos, pouco vale o terror revolucionário. É uma colecção de ódios, raivas e ressentimentos, traições e vidas duplas, desejos ilícitos, mortes, discussões e desdéns, uma tal insistência nas fúrias e desgostos domiciliários, que a mónita parece clara: as noivas que icem a cauda branca do vestido, ao jeito de bandeira, e agitem-na em sinal de desistência antes da cerimónia; aos noivos, se não chegou a tradição oral, se julgam que a forca não deve ser interpretada à letra, leiam o destino do pobre Charles Bovary ou a relação da sonata a Kreutzer, em que a monotonia doméstica transforma um pacato burguês num criminoso.

Bem-vindos ao casamento: é uma colecção de ódios, raivas e ressentimentos, traições e vidas duplas, desejos ilícitos, mortes, discussões e desdéns

A literatura moderna gastou páginas e páginas a precaver homens e mulheres contra esta maldita aliança; ainda assim, o modesto papel do casamento, rabiscado pelos mais anódinos curas e notários, resistiu à ofensiva de todos os que enchem livros e livros da melhor lavra oitocentista. E se as pessoas, contra os conselhos mais sábios e mais eloquentes, diante das mais vivas imagens da tragédia, continuam obstinadamente a preferir o casamento à solidão, também haverá com certeza apologias sérias e sensatas do casamento entre as grandes obras literárias. Haverá com certeza, entre os espíritos mais altos dos séculos, quem se dedique a mais do que chorar sobre o dedo cindido; quem pergunte de onde vem este desejo de casar, quem queira tocar a essência do casamento, quem pense nos seus perigos e virtudes, quem perceba a ascética nobreza de levar um casamento a bom porto e pense no modo de proceder.

“Madame Bovary”, de Gustave Flaubert (Civilização)

Uma questão de virtudes

Há, de facto, para rivalizar com os maldosos detractores – como Bierce, que define no Dicionário do Diabo o casamento como o estado em que há um soberano, uma soberana e dois escravos, perfazendo um total de duas pessoas – alguma literatura interessada no casamento: não apenas como curiosidade antropológica, mas como um problema moral. Segundo Fidelino de Figueiredo, a literatura sobre o casamento surge na Península Ibérica no século XVI, quando um livro de João de Barros pretexta a junção do casamento a um dos géneros de livros mais populares dos séculos XVI e XVII, os espelhos. Há espelhos de Donas e espelhos de Príncipes, e espelhos de Princesas como haverá espelhos de maridos. Estes são livros destinados a um género ou a uma classe, em que se desenha o modelo perfeito do marido, do príncipe ou da princesa, como que a mostrar ao leitor qual devia ser a sua própria imagem.

João de Barros escreve então, em 1540, um Espelho de Casados, com o perfil do marido ideal e com um elenco das altas virtudes da mulher, em que elogia o casamento e as vantagens que o matrimónio traz a ambos os sexos.

A bibliografia, porém, continua de um modo ligeiramente diferente. É que se João de Barros descreve, de facto, a esposa ideal, também é verdade que não trata mais dela do que do marido; com a literatura sobre o casamento dos anos seguintes, porém, assiste-se a uma verdadeira apologia das virtudes domésticas. A historiografia tem baseado um dos mais importantes livros do género – La Perfecta Casada, de Frei Luís de Léon, um espanhol a mostrar que de Espanha até pode vir bom casamento – no fim do livro dos Provérbios, em que a mulher dona de casa aparece como um símbolo da ordem, e da boa e calma governança; e se, ao longo do século XVI, se assiste ao crescimento da literatura de devoção doméstica (aparecem livros como Vestir y calzar ou Como se há de ordenar el tiempo), também se assiste, a pretexto do casamento, a uma série de manifestos e libelos sobre a condição da mulher. Em Portugal, Ruy Gonçalves, uma espécie de posto atrasado da Querela das Mulheres do século anterior, escreve um texto sobre os privilégios das mulheres à luz das ordenações.

“La Perfecta Casada”, de Javier San José Lera

Todos estes textos, porém, já se afastam um pouco da tradição dos espelhos. Os espelhos são, regra geral, livros ascéticos; o livro de Frei Luís de Léon, porém, já é diferente. Não exalça um modelo de mulher para que a mulher anseie ser como o modelo; apeanha-a para o Homem perceber o dom que tem em casa e respeitar o casamento.

Ora, quando Diogo de Paiva de Andrada escreve o seu Casamento Perfeito, já estuam nele os vários géneros e as várias influências de literatura casamenteira. Paiva de Andrada não terá o colorido literário que, pouco mais tarde, D. Francisco Manuel de Melo emprestará à sua Carta de Guia de Casados; no entanto, deixa-nos um livro bastante representativo do género. É moralista, mas com o sentido prático necessário para a boa condução do casamento; em tudo as virtudes cristãs são método e solução – é necessária paciência, atenção, recato, obediência – mas também é necessário um certo sentido prático: os noivos devem ser da mesma condição social, sob pena de a cobiça e a inveja se intrometerem no leito conjugal; todas as ideias são suportadas por histórias e lendas eruditas, ou por casos trágicos em que esposos pouco avisados não seguiram, para mal do seu casamento, as leis da prudência.

Diogo de Paiva de Andrada escreve com as virtudes que exige aos noivos; tem, assim, um livro pacato, no tom calmo de quem recomenda uma longa e serena vida sem sobressaltos. D. Francisco Manuel de Melo, ou não fosse ele um solteirão inveterado, é bastante diferente. A sua Carta de Guia de Casados é sobretudo um documento de observação, com pouca doutrina, que conta casos e casos de casamentos mal sucedidos por não se respeitarem as regras da boa coabitação. É quase um anedotário conjugal, embora sem a mesquinhez dos livros contra o casamento. D. Francisco não está a criar doutrina; está apenas a aconselhar um primo que vai casar, e fá-lo com exemplos extraídos da sua aventurosa vida.

O amor não é uma questão simples

Apesar de diferirem no tom, o Casamento Perfeito de Paiva de Andrada e a Carta de Guia de Casados não diferem muito na substância; aconselham que os noivos se amem, sim, mas que tenham gostos comuns; que partilhem interesses, sim, mas também a condição social; no fundo, ao arrepio da tese popular de que os opostos se atraem ou complementam, os prosadores do século XVI e XVII defendem sobretudo a igualdade entre os noivos.

Aspecto que hoje talvez nos pareça básico, mas que tem a sua importância e é sempre discutido nos tratados é a questão do amor entre os noivos. Não se trata apenas de uma hipocrisia ou da defesa de uma premissa básica constantemente contrariada; de facto, a questão do amor prévio entre os noivos não é, nos séculos XVI e XVII, tão simples quanto hoje em dia se põe. Se os casamentos se davam na maior parte dos casos por conveniência, também não eram feitos com um prazer malvado e insensível em sujeitar os filhos a uniões desagradáveis.

O que estava em causa era uma compreensão comum do amor como algo ético, isto é, não como uma paixão, que nos acontece, mas como uma virtude, que escolhemos. A ideia vem, obviamente, do Cristianismo: o Amor como mandamento implica a noção de que pode ser escolhido; não está dependente de sentimentos, mas da vontade. O homem que ama a sua mulher não seria, assim, o homem apaixonado, mas aquele que a trata com dignidade e com o respeito próprios do bom marido. Daí que não fosse contraditória a ideia de uma união premeditada e de um casamento por amor, ou que a paixão aparecesse apenas como mais um dos afectos que se haviam de ter em conta nos casamentos.

É deste dilema, aliás, que nasce um dos mais belos textos que a Humanidade já produziu a respeito do casamento. A segunda parte de Ou-Ou, de Kierkegaard (recentemente reeditado pela Relógio d’Água) começa com um longo texto sobre a validade estética do casamento. Neste texto, uma longa carta, o autor (que em Kierkegaard tem sempre uma função parecida com a dos heterónimos de Pessoa) dirige-se a um sedutor, a alguém que, nas categorias de Kierkegaard, leva a sua vida pelo ponto de vista estético. Ora, o objectivo da missiva é mostrar que o casamento, que tão insuportável parece ao esteta, concentrado apenas no instante, é o mais indicado para ele. Kierkegaard defende o casamento, mas contra todas as formas habituais de defesa. Explica ele que para o esteta, de facto, o casamento parece não servir. Aquele que casa pela paixão que não controla tem sempre a hipótese de se apaixonar de novo – o casamento não está nas mãos dele.

“Ou-Ou: Um Fragmento de Vida”, de Kierkegaard (Relógio D’Água)

Com o homem ético, porém, há um problema similar. Aquele que julga controlar o amor quase que, nas palavras de Kierkegaard, ludibria Deus; faz de si a segurança do casamento, já não se trata de uma partilha, de uma realização comum, mas de um acto apenas do próprio. O estádio religioso, o verdadeiro estado do casamento, é assim aquele que garante a eternidade do casamento e ao mesmo tempo recupera o prazer.

Não há, provavelmente, melhor exemplo do modo de viver a tese de Kierkegaard do que aquele que aparece em Os Noivos, de Manzoni. A obra capital do romantismo italiano, a história cândida de dois jovenzitos a quem o casamento é, por ínvios caminhos, permanentemente negado, tem a dimensão estética constantemente dada pela religiosa. Numa biblioteca nupcial, será com certeza o livro mais turbulento, mas é também aquele que resume da maneira mais viva aquilo que os tratadistas tentaram decantar em regras e regras curiosas.

“Os Noivos”, Alessandro Manzoni (Paulinas)

Há, com certeza, muito mais livros sobre o casamento; panegíricos a futuras-rainhas, terapêuticas à distância, apologéticas e longas genealogias de alianças familiares. Mas entre a grande literatura, é notória a falha: casamentos, só os arruinados, ou então nem vê-los. Não que os noivos se importem: afinal, são só papéis.

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