Populismos: do Homo Sapiens a Trump, querem os homens ser iguais a deuses?

02 Dezembro 2017

O Observador faz a pré-publicação do novo livro de Jaime Nogueira Pinto, "Bárbaros e Iluminados: populismo e utopia no século XXI", sobre os líderes e os regimes que ambicionam tudo.

“Populismo e utopia no século XXI” é o subtítulo do novo livro do historiador Jaime Nogueira Pinto: um perfil dos regimes e líderes que na atualidade são os exemplos maiores de filosofias populistas, as respetivas origens, causas e objetivos. O livro, que foi escrito em colaboração com Inês Pinto Basto, chega às livrarias no dia 5. O Observador faz a pré-publicação de um excerto em que é feito paralelismo entre a realidade política e as obras literárias de autores como Shakespeare, Aldous Huxley ou Yuval Noah Harari.

“Bárbaros e Iluminados: populismo e utopia no século XXI”, de Jaime Nogueira Pinto (D. Quixote)

Sereis iguais a deuses

Homo Deus: Breve História do Amanhã é um ensaio político-filosófico sobre a Humanidade e o que a espera no século XXI, escrito em 2015 (um ano depois de um outro best-seller, Sapiens: Breve História da Humanidade) por Yuval Noah Harari, o investigador e historiador futurologista, que vive num kibutz e lecciona na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Homo Deus é ambicioso no propósito: o próximo grande projecto da Humanidade será conquistar os poderes divinos de criação e recriação que farão com que o Homo Sapiens dê lugar ao Homo Deus. Diz Harari que, para os magnatas de Silicon Valley, «a igualdade está fora de moda e a imortalidade é que está a dar» e que o desenvolvimento da engenharia genética, da medicina regenerativa e da nanotecnologia tem vindo a alimentar «profecias cada vez mais optimistas». Assim, há peritos que dizem que a humanidade vai vencer a morte em 2200, outros que será em 2100, e outros ainda que «em 2050, uma pessoa saudável e com uma conta bancária igualmente de boa saúde terá sérias possibilidades de conquistar a imortalidade, ludibriando a morte, década a década».

Conclui o historiador israelita que, embora pouco se conheça sobre a consciência e a sensibilidade, com o desenvolvimento da inteligência artificial e com a gradual separação da inteligência da sua base biológica «a História da Humanidade chegará ao fim e um processo completamente novo irá começar». Não será, portanto, já só o fim da História mas também o fim da Humanidade, tal como a conhecemos.

Para Harari, a atribulada vida do Homo Sapiens, do Paleolítico até ao século XXI, é inseparável da sua capacidade de associação ampla, remota e flexível, assente numa peculiar aptidão para criar ficções agregadoras – religiões, mitos, narrativas identitárias, leis, direitos, reinos, nações, impérios, sistemas políticos, dinheiro, crédito, companhias, bancos, marcas, todas as realidades virtuais que nos fazem cooperar em larga escala. Foram estas realidades paralelas não tangíveis, estas «mentiras úteis» disseminadas e consentidas até que, pela sua operacionalidade, se tornassem «verdades», que conduziram o Homo Sapiens até hoje através de sucessivas revoluções – a agrícola, a científica, a industrial, a tecnológica e a última, a biotecnológica, patrocinada pelo capitalismo dominante e globalizante.

“Sapiens” e “Homo Deus”, os livros de Yuval Noah Harari, publicados pela Elsinore

Jennifer Senior começava assim a sua recensão desta História Breve do Futuro, para o New York Times: «Em retrospectiva, alguns livros parecem feitos à medida dos thought leaders do complexo industrial. Sapiens, A Brief History of Humankind, de Yuval Noah Harari, que saiu nos Estados Unidos há dois anos, foi claramente um desses livros». Jennifer lembrava que o livro promovera Harari a conferencista da Ted Global e a coqueluche da classe dominante, com o alto patrocínio de Barack Obama, Bill Gates, Mark Zuckerberg e de quase todos os poderosos líderes e gurus deste mundo. Agora, no novo livro, Harari revelava aos leitores que uma nova raça, uma nova espécie, podia estar nas calhas do futuro; e que enquanto nós e os Neandertais éramos, pelo menos, humanos, «os nossos herdeiros haviam de ser iguais a deuses».

«Sereis como deuses!», assim já rezava a tentadora promessa da serpente aos pobres e ingénuos Neandertais, Adão e Eva, encorajando-os a tornarem-se Sapiens, numa das «grandes narrativas» do princípio de todas as aventuras e desventuras da Humanidade. Agora era diferente, agora que, segundo Harari, se morria mais de obesidade do que de fome, de velhice do que de doença contagiosa; agora que o suicídio matava mais do que a guerra, o terrorismo e a criminalidade; vencidos que estavam assim três dos quatro cavaleiros do Apocalipse – a Fome, a Peste e a Guerra –, podíamos finalmente ser como deuses, destruindo o quarto cavaleiro, a Morte, e conquistando a felicidade aqui na Terra, até porque para Harari, materialista militante e capitalista simpatizante, não havia nada que se visse para além dela.

Era o caminho para um Admirável Mundo Novo; porém, como no livro que Huxley baptizou a partir de A Tempestade, de Shakespeare, nesse Admirável Mundo, também pleno de goodly creatures, a bonança seria só para alguns «Prósperos». Harari também não deixava de nos alertar para a possibilidade de uma distopia, para o perigo de uma «disrupção tecnológica» e para eventuais desequilíbrios irreversíveis que as incursões na ecologia interior do homem (que, admitia, continuava a ser território desconhecido) pudessem causar. Para os evitar, sugeria uma espécie de governo global, para acautelar perigos comuns e para que a «narrativa política» acompanhasse uma realidade económica e tecnológica já mundializada. As velhas narrativas tinham falido e o globalismo, como todas as revoluções, fizera muitas vítimas; alguns reagiam, querendo regressar a um passado mítico, a um antes de tudo ter começado a correr mal, para tentar começar de novo, arrepiando caminho (numa entrevista recente, Harari dava o exemplo do slogan de Trump «make America great again»). Mas para o futurologista israelita, esta luta dos nacionais contra os globais, dos bárbaros contra os iluminados, perdia-se na impossibilidade de voltar a erguer antigas barreiras e fronteiras e de regressar a comunidades fechadas.

O mundo que Harari deixava antever no seu ensaio, que ao contrário do de Huxley não era ficção satírica mas um ensaio prospectivo com pergaminhos filosófico-científicos sobre os cenários possíveis e prováveis para o futuro próximo, era sobretudo o retrato de uma possibilidade de a evolução do mundo e da sociedade se cumprirem ou seguirem algumas das tendências políticas, económicas e sociais dominantes.

Na utopia de Huxley, passada algures no século XXVI, a ciência e a técnica permitiam que todos vivessem felizes num Estado totalitário. Como na profecia de Harari, mas mais definitivamente, a pobreza, a doença, a dor e a guerra tinham sido abolidas. Deus também. E assim os homens podiam gozar a vida num novo Jardim das Delícias da sua forja.

Harari é admirador de Huxley e Admirável Mundo Novo é o seu livro de eleição, porque enquanto o Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de Orwell lhe parecia «claramente distópico e por isso pouco sofisticado», em Admirável Mundo Novo «não se sabia se era de uma utopia ou de uma distopia que se tratava». Tinha-se a sensação de que havia «qualquer coisa de terrivelmente errado naquele mundo, mas não se conseguia bem dizer o que era, porque toda a gente estava sempre feliz e satisfeita».

Da Tempestade ao Admirável Mundo Novo

Na Tempestade de Shakespeare é um bruxo-cientista quem desencadeia o temporal que causa o naufrágio e atrai para a ilha, como náufragos, os usurpadores do seu ducado de Milão. Caliban, o escravo deformado, e a mãe, rainha da ilha que Próspero usurpa como palco para reaver o seu ducado usurpado, são os bárbaros que manipulam a «magia negra» que enfrenta a «magia branca» de Próspero e do seu espírito diáfano, Ariel. É em A Tempestade que a filha de Próspero, Miranda, fala das «many goodly creatures» deste «brave new world» (Oh, wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O brave new world, That has such people in’t!).

Na Cena I do II Acto de A Tempestade, Gonzalo imagina-se por um momento rei da ilha. Na utopia por ele sonhada, e pelos outros parodiada, não haveria pobres nem ricos, todo o trabalho e todo o estudo seriam escusados e a própria soberania desnecessária, já que a natureza produziria por si mesma o necessário para alimentar um povo feliz, ingénuo e ocioso. Talvez venha desta utopia parodiada por Shakespeare e das novas criaturas que espantam Miranda a escolha de Huxley do título para o seu Admirável Mundo Novo. Na utopia de Huxley, passada algures no século XXVI, a ciência e a técnica permitiam que todos vivessem felizes num Estado totalitário. Como na profecia de Harari, mas mais definitivamente, a pobreza, a doença, a dor e a guerra tinham sido abolidas. Deus também. E assim os homens podiam gozar a vida num novo Jardim das Delícias da sua forja.

Para isso, os Dez Controladores, encarregados do governo do novo Estado Mundial, criavam humanos em laboratórios-fábricas, através do estado da arte da biotecnologia. A sociedade estava dividida em cinco classes, dos Alphas, que constituíam a elite governamental e geriam os laboratórios- -fábricas dos novos seres, aos Epsilons, que se dedicavam aos trabalhos mais braçais, que requeriam pouca cabeça.

É sobretudo através de um «selvagem», de um bárbaro, que, em Admirável Mundo Novo, subsiste e sobrevive, ambígua e discretamente, uma interrogação antiga: é preferível ser-se feliz e inconsciente, sem liberdade, sem sequer a noção do que é estar preso, ou sofrer, sofrer tudo – a paixão, a dor física, a repressão, a prisão, a tortura, a morte até – e poder escolher o próprio destino?

Quando Admirável Mundo Novo saiu, em 1932, a União Soviética estava a entrar no estalinismo e a Alemanha esperava Hitler. Huxley, com a intuição das tempestades e catástrofes que anunciavam abater-se sobre a Europa, mas com o distanciamento céptico e cínico de um escritor da upper-class inglesa, achou mais adequado optar pela ficção científica, por uma utopia negativa, ao modo das do seu compatriota H. G. Wells.

Aldous Huxley, autor de "Admirável Mundo Novo"

Ao tempo, Admirável Mundo Novo foi lido como uma distopia, um modelo de Estado futuro em que os homens e mulheres eram mantidos na redoma de uma infância feliz. Concretizava-se num Estado Único e pouco democrático a célebre profecia de Alexis de Tocqueville sobre os «vindouros tempos democráticos», e repetia-se o conflito exposto por Dostoievsky em Os Irmãos Karamazov, com a lenda do Grande Inquisidor: estávamos dispostos a trocar a liberdade pela segurança, e a possibilidade da dor e do prazer por uma morna felicidade inconsciente?

Em Antic Hay (1923) e After Many a Summer (1939) Huxley recriava personagens inspiradas no Marquês de Sade, que considerava o modelo de uma das piores vertentes do racionalismo iluminista. Sade, dizia Huxley, era o único revolucionário completamente consistente e consequente da História. Estava também atento aos riscos do iluminismo racionalista radical e à sedução da Ciência e da Técnica para os homens que queriam viver para sempre e reencarnar numa nova humanidade (como o milionário Jo Stoyle). Via nas segundas linhas dos Estados totalitários os tecnocratas de tudo, dos vindouros interrogatórios nas caves da Lubianka aos futuros exercícios de eugenia nos laboratórios das multinacionais. Tinha também consciência do perigo dos totalitarismos soviético e nazi, que se avizinhavam. No fim dos anos 40, numa carta a Orwell (a quem tinha ensinado francês em Eton, em 1917) escrevia:

As primeiras pistas da filosofia da revolução definitiva – a revolução que está para além da política e da economia e que visa a total subversão da psicologia e da filosofia individuais – encontram-se no Marquês de Sade, que se via como o continuador e o consumador de Robespierre e de Babeuf. A filosofia da minoria dominante em 1984 é um sadismo levado à sua conclusão lógica, indo para além do sexo e negando-o. É minha convicção de que a oligarquia governante vai descobrir meios menos duros e dilapidadores para governar e satisfazer o seu desejo de poder, e que estes meios se parecerão mais com os que descrevi em Brave New World […] Em parte por causa do materialismo, em parte por causa da respeitabilidade dominante, os filósofos e os cientistas do século XIX não quiseram investigar a psicologia dos homens práticos – políticos, soldados, polícias – e aplicá-la no campo do governo. Graças à ignorância voluntária dos nossos pais, o advento da revolução definitiva foi adiado por cinco ou seis gerações […] Estou convencido de que, na próxima geração, os governantes do mundo vão descobrir que o condicionamento desde a infância e a narco-hipnose são bem mais eficazes como instrumento de domínio do que os bastões e as prisões da polícia, e que o desejo de poder pode cumprir-se convencendo as pessoas a gostarem da servidão, tão bem ou melhor do que açoitando-as e forçando-as à obediência. O pesadelo de 1984 está destinado a evoluir para o pesadelo de um mundo que terá mais semelhanças com aquele que imaginei em Brave New World. E a mudança vai chegar com a necessidade de uma eficácia cada vez maior e resultar dela. Entretanto, é claro, pode haver uma guerra biológica ou nuclear em grande escala – e aí podemos ter pesadelos de outra e inimaginável natureza.

Os césares contra o dinheiro

Nas últimas páginas de A Decadência do Ocidente, Oswald Spengler escrevia, no seu estilo histórico-profético de pregador de grandes e últimas verdades, que se o dinheiro fosse tangível a sua existência seria eterna, mas como era «uma forma abstracta», havia de extinguir-se depressa: «o advento do cesarismo vai quebrar a ditadura do Dinheiro e da sua arma política, a Democracia», concluía. A ditadura do dinheiro tinha usado a democracia como arma política e Spengler via, no final da Primeira Grande Guerra, o fim do reinado do dinheiro e uma vontade de submissão voluntária à lei e à ordem de soluções políticas autoritárias que combatessem a plutocracia financeira.

Spengler tinha razão, mas teve-a por pouco tempo: o século XX ia ver o triunfo político das utopias totalitárias com as suas respostas populistas e respectivos césares; mas ia também ver, depois, o colapso sucessivo de todos eles, para voltar à casa da partida, ao domínio do dinheiro vivo e virtual. Obcecado pelas derrotas do Império Germânico e pelo cerco que os povos periféricos impunham à «civilização», Spengler temia então pela sobrevivência das «raças brancas». Em O Grande Gatsby (1925), Scott Fitzgerald, poria na boca do seu vilão, Tom Buchanan, os receios de Spengler. Por uma vez deprimido por um livro, Tom perguntava a Nick Carraway se tinha lido The Rise of the Colored Empires: era um excelente livro que todos deviam ler; a raça branca ia ser suplantada se não se fizesse nada contra isso; era «tudo científico, estava tudo provado».

No rescaldo da vitória, o Império Britânico chegava ao fim e a hegemonia passava para os Americanos, um povo curioso, repartindo entre Deus e o Bezerro de Ouro a sua escrupulosa devoção.

Os cesarismos e os césares tinham começado a aparecer – em Itália, na Rússia, na Alemanha e um pouco por todo o lado – para travarem a decadência, a ascensão de outras raças e, sobretudo, a roda livre do dinheiro, através da concentração do poder. Na União Soviética, onde o processo fora mais definitivo, o resultado seria uma das piores tiranias da História – um modelo concentracionário que se perpetuaria até quase ao fim do século XX. Na China, 30 anos depois, o César seria um camponês maquiavélico, impondo uma ditadura delirante que se iria moderando depois da sua morte; em Itália e na Alemanha, os césares, que governariam com as classes médias e populares, acabariam vencidos em guerras mal conduzidas.

Mas o dinheiro, refugiado na anglo-esfera, sobrevivera, graças à vitória militar dos povos anglo-saxónicos, à sua indústria e à tenacidade das suas oligarquias. No rescaldo da vitória, o Império Britânico chegava ao fim e a hegemonia passava para os Americanos, um povo curioso, repartindo entre Deus e o Bezerro de Ouro a sua escrupulosa devoção.

A vitória de 1945, dividida com os Soviéticos e a utopia socialista, levara a um novo e longo conflito de meio século que terminaria com nova vitória do Ocidente constitucional, liberal e capitalista. Nesse tempo de Guerra Fria, desfizeram-se os impérios europeus e multiplicaram-se os Estados, unificou-se a economia e surgiram novos projectos utópicos, como a União Europeia, que também para se bater com os Estados Unidos pretendeu acabar com as nações europeias e agregá-las numa federação ou confederação, num Super-Estado que professava em nova versão uma fé inabalável no discurso das Luzes.

Com o fim das utopias socialistas, o modelo do internacionalismo liberal vencedor, usando uma filosofia de Fim da História, tentava proclamar o modelo único e definitivo de um mundo sem limites para os mercados, um «Admirável Mundo Novo» de paz e comércio, sem deuses, sem fronteiras, sem identidades.

Mas vieram as dificuldades: vastas áreas do globo, marcadas por culturas e civilizações estranhas à tradição judaico-cristã, viram nascer, não só a recusa do modelo euro-americano de globalização democrática e liberal, mas a repulsa activa desse modelo, que o ataque da Al-Qaeda à América e a persistência de modelos híbridos, como o nacional-capitalismo (ou socialismo) chinês, simbolizavam.

A rejeição não era apenas do modelo político mas também de uma civilização racional laica, mercantilista, sem valores de orientação permanente, que procurava, mesmo inconscientemente, doutrinar ou «colonizar» ideológica e culturalmente os seus próprios povos e todos os outros.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan

Depois, sucessivamente, foram aparecendo as resistências e os movimentos identitários que, dessas periferias bárbaras, iam chegando ao centro iluminado: a Alemanha unificava-se apesar dessa opção nacional custar muito dinheiro aos alemães ocidentais; depois era a Rússia, com Putin, que se unificava sob os escombros da União Soviética, reconstruindo forças armadas capazes de lhe devolverem o poderio político-militar na Eurásia; a República Popular da China, com Deng Xiaoping, lançava-se numa política nacional de desenvolvimento, criando um modelo autoritário de economia mista; no Japão, que nunca deixara de ser um Estado nacional, um Estado nacional sem imigrantes, as tradições sobreviviam também ao milagre económico. E em Istambul, Erdoğan queria voltar a construir a Turquia Otomana, neutralizando opositores militares e civis.

À lista destes novos césares, que pareciam capazes de domesticar ou mesmo de controlar o poder do dinheiro, enfrentando a globalização, mesmo à custa da Democracia, acrescentavam-se outros um pouco por toda a parte – até na América.

Nacional versus Global

As reacções nacionalistas e populistas, ou nacionais e populares, lutam contra vários inimigos, identificados com os pilares da ordem estabelecida – o discurso do Progresso, do individualismo e do naturalismo radicais, a hegemonia dos mercados sobre as nações, a globalização, a roda livre das novas tecnologias. A resistência à globalização, a essa espécie de One World (o Estado Mundial das utopias de Wells), tem sido, sobretudo, uma resistência nacional e identitária.

Escreve Yuval Harari em Homo Deus que, com «a transição da autoridade dos humanos para os algoritmos» que está a acontecer à nossa volta, e que não se deve «a qualquer decisão dramática de um governo, mas a uma série de escolhas banais», ainda podemos acabar num estado policial «à maneira de Orwell», um Estado que «vigia constantemente e controla não apenas as nossas acções, mas até mesmo tudo o que acontece nos nossos corpos e o que está dentro das nossas cabeças». Harari teme o fim do liberalismo e o que poderão fazer desse poder os novos césares: «Basta pensar no que Estaline faria com sensores biométricos omnipresentes – e naquilo que Putin ainda poderá fazer». Mas como o próprio admite, os defensores da «singularidade humana» que temem os pesadelos do século XX, não vão ter pela frente os mesmos césares, os mesmos inimigos orwellianos:

A maior ameaça à singularidade humana vem do lado contrário. No século xxi, é mais provável que os indivíduos se desintegrem suavemente a partir do interior do que serem brutalmente esmagados por um Big Brother exterior.

Não estamos já nem em 1933 nem em 1973, quando «a tecnologia facilmente centralizada tornava possível o governo totalitário». Tudo isso mudou com a revolução informática, quando milhões e milhões de informações e notícias passaram a circular permanentemente, sobrepondo-se, digladiando-se, desmentindo-se, semeando suspeitas ou calúnias cruzadas.

O que resulta da afirmação de Harari é que a nova grande ameaça, o novo Big Brother, não são os novos césares mas a globalização anónima, tentacular e aparentemente espontânea, que mina por dentro a «singularidade humana», levando a humanidade à suave desintegração individual e colectiva, mediante uma submissão semiconsciente, manipulada pela mão invisível dos mercados, às maravilhas da técnica, à eficácia, à escolha fácil e banal alheada da ética, à roda livre de tudo.

Os movimentos fragmentados, mais de rejeição do que de afirmação, e até os novos césares, os bárbaros, os Putin os Trump, que se opõem aos iluminados, lutam contra as forças deste One World, que também os contaminam e que contaminam tudo e todos: dos bilionários da High Tech aos jornais de referência, da União Europeia às Nações Unidas, da esquerda libertária à direita conservadora.

Como escreve Niall Ferguson:

Podem rir-se bem alto, se se atreverem. A globalização está em crise. O populismo está em marcha. Os Estados autoritários estão a crescer. […] Na procura de respostas, muitos comentadores recorrem a respostas básicas. Para uns, Trump é Hitler, prestes a proclamar a ditadura na América. Para outros, é Nixon, nas vésperas de ser impeached.

Mas, continua Ferguson, não estamos já nem em 1933 nem em 1973, quando «a tecnologia facilmente centralizada tornava possível o governo totalitário». Tudo isso mudou com a revolução informática, quando milhões e milhões de informações e notícias passaram a circular permanentemente, sobrepondo-se, digladiando-se, desmentindo-se, semeando suspeitas ou calúnias cruzadas, retratando Donald Trump como um machista despudorado ou Hillary Clinton como uma megera corrupta e farisaica.

Na disputa eleitoral americana, a tecnologia global e liberalizada, a High Tech que atirou os seus inventores e gestores para o topo das fortunas da Forbes, serviu a ambos os contendores: foi também através dela que Trump e a sua equipa derrotaram os misteriosos global special interests que, segundo o conselheiro estratégico de Trump, Steve Bannon, suportavam e manipulavam um «establishment falhado e corrupto», personificado por Hillary Clinton.

Os maus da fita

A «revolução americana» que fez do hoteleiro, do agente imobiliário, do businessman, do showman, do playboy maduro Donald Trump o homem mais poderoso do mundo, deve muito a Steve Bannon.

Bannon é um polimetis, um homem de mil ofícios, católico, académico, oficial de Marinha, banqueiro, cineasta, grande leitor e grande cinéfilo; foi ele o mago e o estratega que, com profundo conhecimento da América e dos Americanos, pôs ordem na caravana Trump para que se arremessasse contra os poderes do grande Dinheiro e da grande Imprensa.

Donald Trump, o Presidente dos EUA

Sabendo que, nas guerras duras e sem quartel em que se tinham transformado as campanhas eleitorais, valia tudo; e que para os eleitores cépticos e descrentes da oferta, mais que os méritos da própria causa, contavam os deméritos do adversário, Bannon partia com Trump para o ataque. Hillary seria dali por diante a «crooked Hillary», com Clinton Cash, de Peter Schweizer, o best-seller que expunha a trama financeira do casal e da Fundação Clinton, como principal arma de arremesso e prova de acusação.

A ideia do livro viera do próprio Bannon que, com Schweizer, pusera uma equipa de jornalistas e de investigadores a desenterrar factos chocantes sobre o financiamento da Fundação, no tempo em que Hillary ainda era secretária de Estado. Bannon e Schweizer concentraram-se nas «centenas de milhões de dólares» doados à Fundação. O estudo fora depois devidamente executado pelo GAI – Government Accountability Institute –, uma instituição privada de pesquisa com sede em Tallahasee, Flórida.

Clinton Cash fora a bomba que dinamitara a reputação da candidata, ao enumerar a longa lista de doadores da Funda- ção Clinton, como o canadiano Frank Giustra, o patrão da Uranium One, com interesses no Cazaquistão, que comprara jazigos de urânio nos Estados Unidos.

Como o urânio é um mineral estratégico, a compra teria de ser aprovada por uma comissão em que Hillary, como secretária de Estado, participava – e Giustra dera 31 milhões à Fundação. Embora a lei obrigasse a Clinton Foundation a declarar a origem dos donativos, os da Uranium One não constavam nos relatórios.

Comentando o resultado das eleições na manhã de 9, o estratega de Trump tentava explicá-la:

Trump é o chefe de uma revolta populista… O que Trump representa é uma restauração – uma restauração do verdadeiro capitalismo americano e uma revolução contra o socialismo financiado pelo Estado. As elites guardaram o melhor do bolo e deixaram o pior para os americanos da classe média trabalhadora. […] Trump percebeu-o e o povo americano também.

E na euforia da vitória, à sugestão de um jornalista de que a história da campanha e do desfecho da campanha «tinham todos os ingredientes de um filme de Hollywood», Bannon respondera, ao estilo de Gregory Peck em Twelve O’Clock High: «Brother, Hollywood doesn’t make movies where the bad guys win!»"

E se do livro Clinton Cash se fizera também um filme e uma série televisiva, para que os Americanos vissem os Clinton, em todo o seu deslumbramento, ambição e corrupção, a «guardarem o melhor do bolo», era porque Bannon sabia que, se não fossem eles a fazê-lo, ninguém o faria. É que para os iluminados do novo moralismo hollywoodesco, os maus da fita, os selvagens, os deploráveis, eram Trump e todos os que se opunham ao progresso do mundo global – a última utopia que subtilmente e tentacularmente esmagava tudo e todos a partir do interior, rumo a uma qualquer humanidade nova.

E na euforia da vitória, à sugestão de um jornalista de que a história da campanha e do desfecho da campanha «tinham todos os ingredientes de um filme de Hollywood», Bannon respondera, ao estilo de Gregory Peck em Twelve O’Clock High: «Brother, Hollywood doesn’t make movies where the bad guys win!»”

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