Logo Observador
Civilização

As relações humanas

Autor

Uma alternativa a tratar toda a gente da mesma maneira é tratar as pessoas de maneiras diferentes; mas a alternativa decente a tratar toda a gente da mesma maneira é não tratar ninguém mal.

Algumas pessoas acham que não há limite para o número de relações humanas. De um certo modo isso é verdade. Seria estulto, por exemplo, dizer que não é possível gostar muito e para sempre de mais de trinta pessoas. No entanto, há uma forma de exagero própria daquela posição. O resultado mais frequente desse exagero é a ausência de distinção entre a nossa relação com pessoas que são muito importantes para nós e pessoas que não são muito importantes para nós.   Quando alguém tem muitos amigos, todos os seus amigos acabam por se parecer com pessoas pouco importantes. Uma lei, descoberta pelo psicólogo Lorenzo da Ponte em finais do sec XVIII, e corroborada involuntariamente pelo astuto filósofo Zuckerberg, determina que a probabilidade de alguém ser realmente importante para nós é inversamente proporcional ao número de pessoas que achamos que são importantes para nós.

Outras pessoas acham que não é prático que as relações de curta duração, precisamente porque são de curta duração, sejam decentes. São as pessoas que maltratam os cabeleireiros, os cães dos outros, e os polícias. Deploram em público a hipocrisia do criado de um restaurante que, sem nunca as ter visto antes, lhes perguntou se passavam bem. Preferem em todas as circunstâncias a sinceridade à hipocrisia, isto é, as suas opiniões às dos outros. Terão talvez reservadas as suas melhores inclinações para aqueles de quem gostam realmente. Porém, como todos os conhecimentos começam por ser de curta duração, e como na curta duração tratam mal toda a gente, ninguém gosta realmente deles. A lei que descreve este comportamento é conhecida nas escolas por Lei de Foucault-Waugh: eu maçado, os outros aterrorizados.

Estas atitudes parecem à primeira vista muito diferentes. As pessoas que a lei de da Ponte-Zuckerberg descreve são geralmente pessoas inofensivas, embora por vezes amistosas; pelo contrário, as que a lei de Foucault-Waugh caracteriza são pessoas que passam a vida a ofender os outros com determinação, e a lamentar que os outros sejam tão ignorantes acerca dos seus próprios defeitos. Há no entanto uma semelhança de fundo entre as duas atitudes. São ambas exemplo de uma confusão entre relações longas e relações curtas. A confusão consiste em tratar toda a gente da mesma maneira: no primeiro caso, tratar os seus semelhantes como amigos íntimos; no segundo, tratar toda a gente como seres odiosos.

Uma alternativa a tratar toda a gente da mesma maneira é tratar as pessoas de maneiras diferentes; mas a alternativa decente a tratar toda a gente da mesma maneira é não tratar ninguém mal. O único ideal sensato na esfera das relações humanas é: as longas devem ser poucas, e as curtas devem ser decentes.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

As qualidades das qualidades

Miguel Tamen

Uma acção generosa a que se chega depois de uma análise ponderada tem qualquer coisa de deliberado que a faz parecer-se com a avareza; e pensar em ter coragem é uma variedade de cobardia. 

Crónica

A filosofia pelo fado (IV)

Miguel Tamen

Um grande fado nunca depende dos sentimentos de quem canta: depende de se achar que os outros não têm sentimentos.

Crónica

O arqueólogo

Miguel Tamen

Nem sempre nos lembramos de quem somos; de tudo o que fizemos; e de todos os pormenores das nossas vidas. O que quer dizer que somos muito mais do que aquilo de que nos lembramos.

Civilização

O homem que matou Liberty Valance

Paulo Tunhas

A fundação da sociedade ordeira não teve, ao contrário do que se pensa, origem no exemplar representante da lei. O verdadeiro herói fundador permaneceu desconhecido. Em sua substituição ficou a lenda.

Civilização

“Silêncio” não é “um retrato histórico”

José Miguel Pinto dos Santos
2.260

A nossa grande falha civilizacional é epistemológica. Já não se acredita que a realidade seja percetível objetivamente. Vivemos tempos em que todos somos Pilatos, prontos a ripostar “o que é verdade?"