Faltavam cinco minutos para a bola começar a rolar no Jamor. As bancadas deviam estar a abarrotar, mas estavam meio despidas – afunilados à entrada dos portões de acesso ao recinto ainda estavam milhares de adeptos, sobretudo do Benfica. Uns empurravam, outros refilavam com a polícia e pelo meio muitos entravam no estádio sem mostrar bilhete ou serem revistados. As televisões mostravam isto – uma confusão com a bola prestes a rolar na final da Taça de Portugal.

Já o resumo da história entre Benfica e Rio Ave nada tinha de confuso. Falando de finais, claro. Numa ponte de 11 dias, foram os vila-condenses a controlar a entrada e a saída dos encarnados na corrida pelo triplete de taças (e já agora, por uma dobradinha, 27 anos depois). A 7 de maio, em Leiria, o Benfica fintou (2-0) a primeira portagem na Taça da Liga. Depois da final perdida em Turim, na quarta-feira, para a Liga Europa, restava a Taça de Portugal. E se em Leiria o Rio Ave arrancou a pregar sustos, no Jamor guardou-os para a segunda parte.

Nos primeiros 45 minutos, os vila-condenses fizeram tréguas. A bola era do Benfica e quanto a isso não houve querelas. O Rio Ave limitou-se a impedir que os lisboetas não acelerassem pelo meio do relvado e obrigou o Benfica a cortar caminho. Ou seja, as linhas laterais tiveram muita companhia e vários foram os cruzamentos que de lá partiram rumo à área do Rio Ave. Muitos e sem perigo.

Só aos 12 minutos é que uma bola cruzada por André Almeida quase dava um remate de Salvio. O argentino não chegou a tempo, talvez pesado por ser o único (sem contar com Oblak) a vestir uma camisola de manga comprida com 23º graus de sol à hora do jogo. Um pequeno susto. No minuto seguinte, surgia outro na área contrária. Um contra-ataque do Rio Ave acabou com Tarantini a ir buscar uma bola à direita do ataque e, à falta de pernas que o acompanhassem, rematou cruzado à baliza de Oblak. 1-1, em sustos.

Frio e impávido? Já não

Depois de mais uns quantos cruzamentos do Benfica, o marcador que interessava mexia-se. Aos 20 minutos, os encarnados fartaram-se de seguir atalhos pelas alas e tentaram ir pelo meio. Deu resultado: um ressalto foi parar a Gaitán que, de tão raro que era ter espaço à entrada da área, decidiu rematar logo à baliza. E com o pé direito (coisa ainda mais rara). Golo e 1-0 para o Benfica. Um ano depois, o clube da Luz voltava a ser o primeiros a marcar na final do Jamor. E outra vez por Nico Gaitán.

As tréguas do Rio Ave ainda duraram e até ao intervalo não reagiu. Enzo, Gaitán e Salvio foram jogando como queriam – com espaço – e a bola passava entre pés encarnados sem obstáculos. Na segunda parte, isto acabou.

Afinal, os sacrifícios não tinham sido poucos. Há 30 anos que os vila-condenses esperavam por um regresso ao Jamor e, como em 1984, os jogadores tinham alimentado a barba como crença para os ajudar a chegar à final. Aos 47 minutos, Tarantini disparou o primeiro remate às mãos de Oblak. Aos 48, Maxi Pereira quase deixava o capitão do Rio Ave marcar e aos 68 foi Pedro Santos a rematar ao poste, após cruzamento de Braga. Um minuto volvido e André Gomes, num canto, ficou na relva a olhar para Marcelo, que saltou à sua frente e cabeceou uma bola ao lado da baliza.

E pronto, Oblak não gostou. Por norma frio, tranquilo e pouco emotivo, o guarda-redes esloveno começou a esbracejar, furioso com os dez homens que à sua frente permitiam que lhe pregassem tantos sustos. “Na segunda parte, os meus jogadores estavam mortos”, justificou Jorge Jesus no final da partida em que só aos 75 minutos (por Markovic) o Benfica voltaria a incomodar Ederson Moraes – primo de Artur, que ficou sentado no banco.

Um ano à espera

O último quarto de hora foi a sofrer. Oblak em alerta, Enzo de rastos e Gaitán sem conseguir correr mais. Aos 87 minutos, o argentino saía para entrar Cardozo. O paraguaio que, há um ano, reagia à derrota na final da Taça de Portugal culpando André Almeida e empurrando Jorge Jesus. E para o treinador, o contraste não podia ser mais evidente.

Na época passada, o golo de Kelvin roubou-lhe o campeonato e fê-lo cair de joelhos, em pleno Estádio do Dragão. Este domingo, ao último apito do árbitro viu-se Jorge Jesus a juntar as mãos na cara e olhar para o céu. À terceira tentativa (depois de 2008 e 2013), conquistava a Taça de Portugal e tinha finalmente uma alegria no estádio onde, em 1967, com 13 anos, viu o avô falecer ao seu lado durante o Vitória de Setúbal-Académica.

Um ano depois de tudo perder no sprint final (campeonato no Dragão, Liga Europa em Amesterdão e Taça no Jamor), o Benfica de Jorge Jesus terminava a época só com uma maratona perdida (Liga Europa). Em 2008 a façanha tornou-se possível – quando foi criada a Taça da Liga – e o Benfica conseguia este domingo ser o primeiro clube em Portugal a levar um triplete para casa.

Como as coisas mudam. Quando já todos os jogadores do Benfica andavam pela pista de atletismo do Jamor, a passearem a taça e a festejarem com os adeptos, um fotógrafo parou Jorge Jesus e Óscar Cardozo. Juntou-os para uma fotografia e por momentos viu-se a imagem que deu o melhor contraste com o desfecho da final do ano passado – treinador e avançado, abraçados, a sorrirem e com cada a levantar três na mão.