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O livro “Capital in the Twenty-First Century” tem sido a sensação editorial de 2014 na área da economia, mas, segundo o Financial Times (FT), os dados utilizados pelo autor francês para concluir que a desigualdade tem vindo a crescer não estão corretos. O jornal britânico afirma que as estatísticas em que Thomas Piketty se baseia “contêm uma série de erros”, semelhantes àqueles que afetaram a credibilidade do estudo sobre a relação entre a dívida pública e o crescimento de que foram autores Carmen Reinhart e Kenneth Roggoff.

A tese central na obra de Piketty, prossegue o FT, é a de que as desigualdades na distribuição do rendimento têm vindo a aumentar para níveis que não se viam desde o período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, numa análise que se estende pelos últimos 200 anos. O jornal refere, no entanto, que a base de dados construída pelo economista está ferida por erros de transcrição a partir das fontes originais e pelo uso de “fórmulas incorretas”, além de denunciar que existe informação cuja origem não é citada.

O FT adianta ter procedido à “limpeza” e “simplificação” dos números de que Thomas Piketty se socorreu para tirar as conclusões que expõe no seu livro e garante que os dados relativos à Europa não demonstram “qualquer tendência” de subida das desigualdades desde a década de 1970. Adianta, também, que um especialista independente na avaliação das desigualdades, contactado pela publicação, mas não identificado, afirmou partilhar as “preocupações” do FT.

Ao jornal britânico, Thomas Piketty explicou ter utilizado “fontes diversas e heterogéneas, sobre as quais foi necessário fazer ajustamentos a partir dos dados em bruto”. O investigador acrescentou “não ter dúvidas” de que as séries estatísticas usadas “podem ser melhoradas” e que “serão melhoradas no futuro”, mas afirmou que ficaria “muito surpreendido” no caso de estas alterações virem a afetar “substancialmente” as conclusões sobre a “evolução de longo prazo na distribuição do rendimento”.

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O livro que está agora a ser alvo de controvérsia tem recebido elogios generalizados, incluindo por parte de economistas que foram galardoados com o prémio Nobel, distinção que se admite possa vir a ser concedida a Thomas Piketty, precisamente pelo seu trabalho sobre a desigualdade. Paul Krugman afirmou ser “seguro” considerar que “Capital in the Twenty-First Century” será o “mais importante livro de economia do ano e, talvez, da década”, enquanto Joseph Stiglitz declarou que a “contribuição funamental” da obra está no fornecimento de dados sobre a distribuição da riqueza, de acordo com o FT.

O semanário “Expresso” publica, neste sábado, uma entrevista com Thomas Piketty em que o economista defende “um imposto extraordinário progressivo sobre o valor líquido das fortunas acima de um milhão de euros, com uma taxa de 1% entre um e cinco milhões e de 2% acima de cinco milhões, aplicada ao longo de um período de tempo como medida fiscal de emergência”. O jornal adianta que o entrevistado sustenta esta solução como alternativa às medidas de austeridade, que considera serem o pior caminho para diminuir o excesso de dívida pública.

A revista The Economist também já entrou na polémica e contesta as alegações do Financial Times, protagonizadas por Chris Gilles, editor de Economia e colunista do jornal.