1,9%. Leu bem, 1,9. Foi esta a taxa de participação dos portugueses no estrangeiro, quando faltam ainda apurar 12 dos 71 consulados. Em relação a 2009, o número de eleitores inscritos cresceu em 52.671 mas os votos desceram (505 a menos). Contas feitas, a taxa de abstenção situou-se em 98,1%.

“Eu recebi uma carta do Governo holandês a perguntar se queria votar aqui ou em Portugal, e que na ausência de resposta teria de votar em Portugal”, começa por explicar Ricardo Afonso, um português que trabalha em mercados financeiros em Amesterdão, onde vive há três anos. “Dava muito trabalho ter de responder, então deixei passar. Já ter que votar custa, quanto mais responder a cartas, etc. Se tivesse em Portugal votava, seguramente. Não me desligo assim, mas não votaria mais na minha vida em PS, PSD e CDS. É altura de abrir os olhos e acreditar que há alternativa, que este caminho está falido, levou-nos ao desastre”, explica.

A indignação está presente nas palavras, mas como explicar então a decisão de não recorrer às urnas para ajudar a mudar o seu país de sempre? “Tenho a consciência que o voto é um passo muito pequeno rumo à mudança necessária. É preciso muito mais, acho que o problema está enraizado na nossa cultura. (…) Se olharmos para a campanha, foi uma coisa lamentável e penosa ter que ouvir os argumentos de uns e outros”, defende-se. “Convém-lhes manter o ruído”, conclui.

Joana Oliveira, estudante de mestrado em Imagem e Cultura no Rio de Janeiro, também optou por não votar. “Estou longe dessa realidade. Vivo no Rio de Janeiro e o meu interesse pela política passou a ser a do Brasil. Não sei o que se passa na Europa. Este é o quarto país onde vivo. Se não desligo, dou em doida. Não sigo a política portuguesa”, explicou.

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Em 2009, PSD e CDS concorreram em separado, garantindo 2679 votos num total de 4824 votantes — o CDS somou apenas 228 votos. Cinco anos volvidos, agora juntos, perderam 662 votos. O Partido Socialista, que tinha conquistado 1133 votos em 2009, perdeu 123. Os partidos do arco da governação perderam votos para os novos partidos, como o Livre (146 votos), Partido pelos Animais e pela Natureza (117), Partido Trabalhista Português (39) e o Partido Democrático do Atlântico (34). O Partido da Terra passou de 50 para 108 votos.

O total de inscritos para estas eleições europeias fixou-se nos 227.684, sendo que 98,1% deles optaram por não votar. Em comunicado, o Partido Socialista já responsabilizou o Executivo por esses valores. “O Governo é o primeiro responsável por essa abstenção motivada pela distância de centenas de quilómetros até às mesas de voto e os partidos da maioria PSD/CDS são os principais beneficiados por essa abstenção”, pode ler-se na nota do PS assinada por Paulo Pisco, eleito pelo círculo da emigração na Europa, e o secretário nacional socialista para as comunidades, António Galamba.