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A 5 de junho de 2010, a seleção realizou o último teste antes do Mundial da África do Sul. Correu bem: 3-0, vitória contra Moçambique, em Joanesburgo. O resto são suspeitas. O jogo é um de pelo menos seis encontros de preparação que a FIFA investigou por, alegadamente, terem estado na mira de um esquema de combinação de resultados para beneficiar apostas online. Questionada pelo Observador, porém, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) afirmou que “desconhece totalmente o assunto”.

O New York Times publicou no sábado várias conclusões de um relatório da FIFA, no qual a entidade que gere o futebol internacional defende que “pelo menos cinco jogos” amigáveis terão sido manipulados na África do Sul. No documento de 44 páginas, avançou o diário norte-americano, lê-se que até 15 encontros foram alvos de uma rede de corrupção orquestada pela Football 4U International, empresa sediada na Singapura.

O plano, conta o New York Times, passava por subornar árbitros e colocá-los a apitar jogos específicos para, deste modo, influenciar o resultado. A 25 de maio de 2010 – cerca de duas semanas antes do ínicio do Mundial – a Football 4U enviou um email à Federação Sul-Africana de Futebol, no qual “agradecia” que a entidade “utilizasse” os seus árbitros em seis jogos de preparação. O Portugal – Moçambique era um deles.

Seria isto possível? Pelos regulamentos da FIFA, sim. As regras ditam que, caso um encontro de preparação ocorra num país diferente ao das seleções que o disputam, a federação de futebol dessa nação pode “substituir os árbitros designados” para o encontro de acordo com “o seu próprio critério”. E o regulamento não obriga a que as equipas sejam sequer avisadas.

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Questionada pelo Observador, a FPF não quis “fazer qualquer comentário”. Já o Sistema de Alerta Antecipado, órgão da FIFA que, desde 2007, controla as apostas online durante todos os encontros internacionais – e que terá monitorizado essa atividade no jogo entre Portugal e Moçambique -, até ao momento, não respondeu ao email enviado pelo Observador.

O árbitro em causa

Na vitória de Portugal frente aos moçambicanos, a 8 de junho de 2010, o apito esteve na mão do sul-africano Matthew Dyer. E o árbitro, hoje com 35 anos, também é mencionado no artigo do New York Times.

Dois dias antes do encontro da seleção nacional, Dyer dirigiu o jogo entre a África do Sul e a Dinamarca. Não era ele, porém, o árbitro inicialmente designado para o encontro. A 6 de junho, horas antes de a partida começar, Charles Mbaga, oficial da Tanzania, retirou-se devido a “uma infeção alimentar”. Steve Goddard, responsável pela arbitragem da Federação Sul-Africana de Futebol, recordou ao New York Times que “estava preparado para que tudo pudesse acontecer” nesse dia – portanto, quando soube do abandono de Mbaga, chamou Matthew Dyer como substituto.

Quando Goddard chegou ao estádio, contudo, já lá estava Ibrahim Chaibou. Um árbitro do Níger que, segundo o diário norte-americano, teria recebido cerca de 73 mil euros da Football 4U para estar em vários amigáveis antes do Mundial e influenciar resultados. O oficial, aliás, esteve presente na vitória (5-0) da África do Sul no particular frente à Guatemala, a 31 de maio – Chaibou assinalou dois penáltis a favor da seleção anfitriã do Mundial 2010.

Goddard acabaria por impedir que o árbitro do Níger apitasse o encontro e seria mesmo Matthew Dyer a dirigir a partida.