“Uma divorciada, filha de sindicalista e neta de taxista, futura rainha de Espanha”. O jornalista espanhol Jaime Peñafiel, autor de vários livro sobre a monarquia dos Bourbon, arrepende-se de não ter escrito este título no El Mundo quando a plebeia Letizia casou com o príncipe herdeiro de Espanha, a 22 de Maio de 2004. Mas o título pode muito bem vir a ser utilizado.

Na verdade, desde que esta segunda-feira de manhã o Governo anunciou a abdicação ao trono do rei Juan Carlos, as atenções viraram-se para o casal Felipe e Letizia, que comemoraram há dias (e sem grandes festejos) dez anos de casamento. Letizia, ex-jornalista da TVE, tornar-se-á em breve a primeira rainha plebeia da história de Espanha. Mas não será um caso único na Europa, a argentina Máxima foi entronizada rainha da Holanda precisamente há um ano. Na geração anterior, encontram-se alguns casos: Sónia da Noruega (que supostamente terá ‘roubado’ um dos pretendentes da rainha Sofia, o príncipe Harald) e Sílvia da Suécia (a brasileira que conheceu o então príncipe herdeiro Carlos Gustavo durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972).

Em Espanha, porém, a notícia da entrada de uma plebeia da Casa Real não foi bem recebida. O rei Juan Carlos terá comentado, em 2003, que “o inimigo” acabara de se instalar na Zarzuela (Palácio Real). Felipe e Letizia tinham-se conhecido um ano antes, começaram a namorar de forma discreta (tendo como madrinha a princesa Cristina, uma das irmãs de Felipe) e o anúncio do noivado a 1 de Novembro de 2003 deixou surpresos os espanhóis.

Na primeira declaração do casal, Letizia aparece à-vontade frente às câmaras e interrompe príncipe. Seria uma das primeiras gaffes, que a Casa Real tratou rapidamente de polir. A ex-jornalista, de 31 anos, teve formação intensa em protocolo, idiomas, História de Espanha e renúncias pessoais.

Ao mesmo tempo, todo o passado da futura princesa era passado a pente fino. Todo? Bom, tudo aquilo de que havia rasto. Segundo assinalaram vários especialistas da Casa Real em Espanha, houve ordens para ‘limpar’ o passado de Letizia. Nunca foram divulgadas as fotos do anterior casamento (pelo civil) ou fotos de Letizia-mais jovem ou em festas ou momentos de descontração.

Filha de uma enfermeira e de um jornalista, com raízes familiares nas Astúrias, Letizia estudou jornalismo, passou pela imprensa e apresentava o programa Informe Semanal na TVE quando conheceu o príncipe. Já se tinha separado de um professor de Literatura, com quem namorou dez anos (o casamento duraria apenas um). Era uma rapariga normal com uma vida igual a qualquer outra, não fora o caso de poder vir a ser rainha de Espanha. “Ela teve um ordenado, apanhou o metro, sabe o que é a vida e talvez não tenha sido tão mal escolhida como pensámos inicialmente, porque pode fazer a ponte entre o príncipe e o povo”, comentou a jornalista espanhola Pilar Eyre, autora de uma biografia da rainha Sofia de Espanha.

O casamento ocorreu a 22 de maio, dois meses depois do 11 de março, o atentado terrorista em Madrid, que chocou o país e assustou os madrilenos. As tarjas negras foram substituídas então pelo cor de rosa e, apesar da chuva daquele dia de primavera, milhares de pessoas foram para a rua acenar ao casal de príncipes. “Felipe tourero, queremos uno herdero”, ouvia-se nas ruas de Madrid, cheias de polícia e grades de proteção. Depois do casamento, na catedral de Almudena, o Rolls Royce com os recém-casados deu uma volta pela cidade e, por momentos, parecia que todos eram monárquicos. E que não havia uma onda crescente de sentimentos republicanos naquele país ou de indignação com os gastos da Casa Real.

Em Espanha, Letizia tem fama de mandar no príncipe, de se dar bem com a sogra (a rainha Sofia terá estado sempre do lado do filho quando este lhe disse que se tinha apaixonado por uma jornalista), de quer manter um pé na vida normal (gosta de sair à noite com amigas, ir a concertos, embora nos últimos tempos essas saídas tenham diminuído) e de ter aderido à moda da operações plásticas (não faltam fotos a comparar o nariz e o queixo da princesa antes e depois do casamento).

O casal Felipe-Letizia teve duas filhas, Leonor e Sofia. No dia em que celebravam dez anos de casamento, visitaram Toledo e uma exposição de El Greco. Na altura, Felipe comentou aos jornalistas que os últimos dez anos “passaram muito rápido”. “A equipa Felipe-Letizia é um duo unido e concentrado. Trabalham a sério para tornarem-se reis de Espanha. É um projeto pessoal, político e institucional, em que ambos estão empenhados”, afirma José Apezarena, autor do livro Felipe e Letizia, A conquista do trono.

Em nome da transparência, a Casa Real espanhola fixou, este ano e pela primeira vez, um salário para a rainha Sofia e para a princesa Letizia. A rainha tem direito a uma remuneração anual (salário e subsídio de representação) de 125 mil euros, o equivalente a 45% do salário atribuído ao rei. Letizia receberá 102 mil euros.

Uma sondagem do El País, no ano passado, já dizia que 45% dos espanhóis defendiam a abdicação do rei e atribuiam nota negativa ao seu desempenho. Nos últimos anos, os defensores da monarquia em Espanha situam-se na casa dos 60% e uma das principais críticas é a de que se trata de uma das monarquias mais antiquadas da Europa (uma sondagem divulgada em 2012 concluia que apenas 46% dos espanhóis considerava esta uma monarquia moderna). Dia 21 de maio, um dia antes Felipe e Letizia completar dez anos de casamento, a Casa Real estreou-se no Twitter. Esta segunda-feira, depois de se saber da abdicação do rei, a conta colapsou com o tráfego. “Fora de serviço. A página solicitada não se encontra disponível”.