Aumentar as capacidades, sejam elas físicas ou cognitivas, é uma busca comum nos seres humanos. Fazem-se exercícios no ginásio para se ficar mais forte, tomam-se comprimidos para aumentar a concentração, bebem-se cafés para manter a atenção. Até aqui tudo normal. Mas tomar esteróides para aumentar a capacidade física não é tolerado entre atletas. E o que se dirá sobre a colocação de chips no cérebro?

O investigador Alexandre Quintanilha aproveitou o Congresso de Comunicação de Ciência, que teve lugar no Porto esta terça e quarta-feira, para plantar a dúvida na cérebro da audiência: quais serão os limites entre o que tem fins terapêuticos e o que pretende proporcionar capacidades adicionais? Os óculos para corrigir a visão em oposição aos óculos que permitem uma visão noturna. Ou os chips implantados no cérebro: uns permitem devolver a visão e audição a quem a perdeu, outros controlam remotamente um computador.

O melhoramento das capacidades do cérebro ou neuropotenciação (neuroenhancement) está a levantar ondas de preocupação, não devido às formas tradicionais como a educação ou o uso de fármacos, mas pela possibilidade de introduzir material biológico ou tecnológico no cérebro. “A possibilidade de mexer no cérebro vai preocupar muita gente. Vai causar grande curiosidade e grande receio”, prevê Alexandre Quintanilha.

O professor de biofísica na Universidade do Porto refere que o interesse na neuropotenciação aumenta com o surgimento da preocupação com doenças que afetam o cérebro, como Alzheimer ou Parkinson. Lembra ainda o caso de uma mulher que graças ao chip que tinha implantado no cérebro consegue dar ordens a um braço mecânico. Mas verbaliza a preocupação: “Até que ponto vamos mexer no cérebro e quais as consequências disso?”

Definir princípios éticos

Com o avanço da investigação e desenvolvimento de tecnologias ligadas às neurociências sentiu-se a necessidade de criar um consórcio que promovesse um diálogo entre os principais interessados na temática – pacientes, profissionais de saúde, investigadores e decisores políticos – para promover uma investigação e inovação responsável no melhoramento cognitivo (projeto NERRI – Neuro-Enhancement: Responsible Research and Innovation).

Um dos momentos de discussão entre especialistas (think tank) foi organizado a 5 de abril no Porto pelos parceiros portugueses do consórcio – Instituto de Biologia Molecular e Celular e Instituto de Engenharia Biomédica, da Universidade do Porto. Reuniu desde “filósofos a engenheiros, de economistas a escritores, de historiadores a designers, de advogados a neurocientistas”, lê-se na página do projeto. A diversidade de opiniões e experiências enriqueceu o debate que passou por temas como a igualdade no acesso à tecnologia, a identidade pessoal, a autonomia e capacitação.

As preocupações chegam também de outras entidades. O Instituto para o Futuro, na Califórnia (Estados Unidos), criou a Magna Cortica, um guião com princípios éticos, com direitos e restrições das tecnologias de melhoramento cognitivo. A incerteza do que poderá acontecer nos próximos dez anos é tão grande que vale mais prevenir do que remediar.