A campeã do mundo caiu com estrondo com a vice-campeã. Cinco-um, olés, um golaço de Van Persie, um supersónico Robben e um disparate de Iker Casillas. Esta partida teve de tudo. A Holanda não sabe o que é perder contra um campeão do mundo em título desde 1969, altura em que perdeu com a Inglaterra (1-0), que havia ganho o Campeonato do Mundo no seu território (1966). Van Gaal apostou em três centrais e contava (e bem!) que Robben e Van Persie fizessem estragos em contra-ataque. O que não esperava, certamente, seria a preponderância de Daley Blind, o filho do histórico Danny Blind, que vestiu a camisola do Ajax entre 1986 e 1999.

Vicente del Bosque ofereceu a titularidade a Diego Costa em detrimento de David Villa, o goleador máxido da La Roja em Campeonatos do Mundo (oito). Alonso e Busquets estariam mais preocupados com o trabalho defensivo e formariam com Xavi um meio-campo de luxo para a habitual posse de bola.

A partida começou bem disputada a meio-campo, sem que ninguém conseguisse tomar conta da bola. Com o passar dos minutos, foi ficando claro: a Espanha queria ser mais paciente com a bola e a Holanda ficava organizada no seu meio-campo à espera de uma aberta para contra-ataque.

O primeiro lance de perigo pertenceu a Sneidjer, que apareceu olhos nos olhos com Casillas; o espanhol voltou a ser santo Iker. Fez lembrar aquela falhanço de Robben na final do último Campeonato do Mundo. O extremo admitiu na quinta-feira que aquele lance o “vai acompanhar para toda a vida”. O primeiro golo da noite chegaria de penálti, depois deu um passe magistral de Xavi, pois claro — esse passe valeu-lhe o nosso prémio para “figura” espanhola. A Espanha é a seleção com mais penáltis em Campeonatos do Mundo (17). A falta sofrida por Diego Costa foi muito duvidosa mas Xabi Alonso não queria saber disso e aproveitava para fazer o um-zero.

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Ruud Gullit, um dos míticos jogadores daquela Laranja Mecânica de 1988, criticava, no Twitter, o estilo de jogo da Holanda. Foi algo do género: “Eu pensava que era a Inglaterra a que apostava em jogo directo. Agora a Holanda só sabe fazer isso?”. Bom, Van Gaal lá saberá…

O empate surgiu um minuto antes do intervalo. Daley Blind pegou na bola do lado esquerdo e, a fazer lembrar Frank de Boer em 1998 para Bergkamp, fez um passe inacreditável com olhinhos para Van Persie. O avançado do Manchester United voou em peixinho e marcou um golaço. O melhor até agora. O festejo, com o seu novo treinador em Old Trafford, foi efusivo. RvP tornava-se assim no primeiro holandês a marcar em três Mundiais (2006, 2010 e 2014). Intervalo: 1-1.

Não tardaria muito para a Holanda virar um encontro que acabaria por ser épico. Daley Blind, qual Maradona da defesa, encontrou Robben à entrada da área em boa posição. O extremo recebeu com classe, trocou as voltas a Piqué e enganou Casillas. A inveja costuma ser uma coisa feia mas esta não está mal: Robben tornava-se no segundo holandês a marcar em três Campeonatos do Mundo (2006, 2010 e 2014).

Guti, via Twitter, começara a profetizar algo de muito mau, queixando-se da forma física dos espanhóis e do facto de Diego Costa mais parecer uma ilha isolada. Aos 64’, novo golo dos holandeses. Sneijder bateu o livre do lado esquerdo e De Vrij cabeceou ao segundo poste. O encosto de RvP em Casillas deixa algumas duvidas. De qualquer forma, o guarda-redes fica mal na fotografia. Se falarmos de Facebook, a relação de Casillas com as bolas aéreas é, definitivamente, complicada. Não se perca: 3-1. Nunca na história dos Mundiais um campeão em título tinha sofrido mais de três golos no seu encontro inaugural. Nunca.

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Michael Owen, também ele entregue às maravilhas do Twitter, dizia-se maravilhado com o jogo. Já Ruud Gullit perdera o pio. Os contra-ataques da Holanda continuariam a fazer mossa na defesa espanhola. Aos 73’, um presentinho de Iker Casillas ofereceria o 4-1 à Holanda. Van Persie aproveitava para bisar. As pernas e a cabeça já estavam há muito desligadas para os lados espanhóis, mas a Holanda queria deixar a sua marca. Os primeiros “olé” começavam a ouvir-se. Incrível. Sete minutos volvidos e… golo! Cortesia de Robben, que mais parecia estar de mota numa correria desde do meio-campo. Sentar Casillas e escolher o lado com toda a tranquilidade não é para todos.

Não se marcariam mais golos até final, mas não seria por falta de oportunidades. A Holanda poderia ter saído de Salvador com uma daquelas goleadas dignas da década de 30. Vamos lá a uma lição breve de história. O campeão mundial em título não sofria cinco golos há 51 anos, altura em que a Bélgica atropelou o Brasil. Por outro lado, a Espanha não sofria cinco golos desde, curiosamente, 1963 também, quando perdeu com a Escócia num particular.

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Resta saber de que forma Vicente del Bosque vai mudar as coisas. Casillas ficou mal na fotografia e Diego Costa não justificou. A pressão de outros tempos não existe, o que poderá ser uma janela de oportunidade para Koke, um médio de grande qualidade e andamento do Atlético Madrid – mas pouco habituado ao tiki-taka da escola espanhola.