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Michael Schumacher

Criar novos caminhos no cérebro para recuperar do coma

Sair do coma só permite uma celebração moderada. É preciso avaliar a extensão das lesões e perceber quais as áreas afetadas. Depois reeducar o cérebro.

Michael Schumacher caiu enquanto esquiava

STR/AFP/Getty Images

Passaram mais de cinco meses desde que Michael Schumacher sofreu um acidente de esqui nos Alpes franceses, a 29 de dezembro. O campeão de Fórmula 1 alemão acordou esta segunda feira do coma e foi transferido do Hospital Universitário de Grenoble, em França, para o Centro Hospitalar Universitário de Vaud, perto de Lausanne na Suiça. Mas a família e os médicos não dão mais informações sobre o estado de saúde do piloto.

Michael Schumacher caiu nos limites de uma pista na estância de Meribel e bateu com a cabeça numa pedra. Após ter sido transportado para o hospital foi colocado em coma induzido. Este estado de inconsciência provocada pelos médicos serve para proteger o cérebro, explica ao Observador Pedro Ferreira Alves, neuropsicólogo no Instituto Terapêutico Analítico Psicologia Aveiro (ITAPA).

A diminuição do metabolismo e do fluxo sanguíneo no cérebro durante o coma, diminui o risco de aumento da lesão ao mesmo tempo que permite que a extensão da lesão vá diminuindo. Um traumatismo craniano, à semelhança do que acontece quando se leva uma pancada numa perna, provoca um hematoma, ou seja, um inchaço causado pela acumulação de sangue. Tal como as nódoas negras nas pernas, os hematomas no cérebro também vão regredindo.

Durante o coma os médicos vão estimulando o doente, por exemplo, tocando nos dedos, para verificar se existe atividade elétrica no cérebro. A avaliação destes sinais elétricos permite perceber se a extensão da lesão diminuiu, ou seja, se a extensão da lesão regrediu ao local do impacto. Com base nesta informação os médicos poderão decidir se é oportuno acordar o doente do coma, justifica o neuropsicólogo.

A possibilidade de sair do coma depende da localização e extensão da lesão. Quando mais profunda a localização no cérebro, maior a probabilidade de afetar funções biológicas necessárias à preservação da vida e maior a dificuldade de sair do coma, refere Pedro Ferreira Alves. A reabilitação neuropsicológica só consegue atuar sobre o córtex, a camada mais externa do cérebro, responsável pelas funções cognitivas, como orientação, memória, personalidade e linguagem.

Avaliar que extensão do cérebro ficou danificada

Agora que acordou do coma, Michael Schumacher terá de realizar uma avaliação neuropsicológica para perceber que áreas do cérebro foram preservadas, apesar de, na realidade, a lesão acabar por afetar o cérebro como um todo (órgão sistémico). “Pacientes com traumatismo cranianos encefálicos costumam apresentar alterações cognitivas incapacitantes como elevada agitação psicomotora, depressão ou irritabilidade”, diz o médico. Já o tecido danificado dificilmente será recuperado.

Uma lesão no lobo pré-frontal, na zona da testa, responsável pela inibição dos comportamentos impulsivos, vai manifestar-se pela impulsividade e ausência de regras sociais, mas esta é das lesões com melhor prognóstico, porque é possível voltar a criar sistemas de inibição de comportamento, refere o neuropsicólogo. “A reabilitação faz um trajeto semelhante ao crescimento humano, reeduca o cérebro.”

A reabilitação neuropsicológica pretende devolver a capacidade de realizar determinada função ou controlar determinado comportamento treinando outras partes do cérebro que sejam capazes de dar ou veicular essa instrução. “Se a [área responsável pela] linguagem ficar incapacitada, a reabilitação fica comprometida. A linguagem é a principal ferramenta da reabilitação”, nota Pedro Ferreira Alves. Uma lesão nesta área leva a um prognóstico reservado.

Nos casos em que os comportamentos não necessitam de linguagem, comportamentos simples e automáticos, a previsão de recuperação é mais positiva. “Se é automático, não precisa de linguagem, depende apenas de memórias simples. Recruta áreas do cérebro mais fáceis de voltar a ensinar.”

Embora a idade possa condicionar a recuperação, esse fator só é relevante para uma pessoa com mais de 70 anos, não para Michael Schumacher com 45, como o Le Figaro propõe. “O que é determinante é a quantidade de sinapses criadas ao longo da vida”, diz Pedro Ferreira Alves. A aprendizagem e as relações sociais permitem criar mais ligações entre os neurónios (ligações sinápticas) e ligações mais fortes. Uma organização cerebral mais forte permite um melhor prognóstico. “Porque o cérebro é como um músculo, quanto mais se treina mais forte se torna.”

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