Não se sinta enganado, caro leitor, se já passou longos minutos a folhear os catálogos do IKEA e a pensar como as mesmas peças de mobiliário que tem na sua casa ficam tão melhor quando expostas nas folhas daquele livrinho. É do enquadramento, da decoração, do tratamento da imagem, pensa. Sim, mas não só. É que a gigante sueca tem vindo ao longo dos últimos anos a incrementar a prática de usar imagens virtuais nos seus catálogos, por uma questão de facilitismo do trabalho e logística. A primeira imagem gerada por computador a ser utilizada pela empresa foi em 2006 – era uma cadeira -, em 2012, o Wall Street Journal dizia que já 25% dos produtos não eram fotografados, e hoje, o número fixa-se nos 75%.

Sim, isso mesmo: três em cada quatro produtos que vemos no catálogo do IKEA não são reais. E por produtos entenda-se não só as peças de mobiliário, mas também os dispositivos eletrónicos, as paredes, o chão, a luminosidade. E tudo porquê? Por uma questão de logística. Porque os protótipos dos materiais e produtos IKEA são fabricados em vários pontos do mundo e teriam de ser transportados para um único estúdio de fotografia – o que sairia mais dispendioso e mais demorado do que dotar os computadores da IKEA Communications AB (empresa que trata do marketing e que produz os catálogos da marca) com os programas de topo indicados para a arte do 3D.

Os melhores efeitos especiais são aqueles em que não se repara. E é com base nesta máxima que a IKEA se tem tornado provavelmente num dos mais habilidosos estúdios de efeitos especiais do mundo. Tudo começou em 2004, conta a CGSociety, quando a marca decidiu mudar o modo como produzia o produto das suas imagens. Há dez anos, deu-se a primeira tentativa de usar imagens geradas em computador em vez de apenas fotografias. “Fizemos cerca de oito ou dez produtos realmente muito maus em relação aos padrões atuais”, explica à CGSociety Martin Enthed, que lidera uma equipa da IKEA Communications AB.

“Mas espoletou qualquer coisa e continuámos a trabalhar naquilo. Só no outono de 2006 conseguimos chegar a um produto suficientemente bom para introduzirmos no catálogo. Era uma cadeira, de modelo ‘Bertil'”, conta.

 

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Cadeira ‘Bertil’, a primeira imagem feita em computador que apareceu num catálogo IKEA

A ideia não era a de “criar salas inteiras em computador”. Mas foi o que acabou por acontecer de 2006 até aos dias de hoje, conta Martin, que não vê qualquer problema com isso. Como qualquer outra empresa dos mais variados ramos, o objetivo é apenas um: tornar o processo mais simples, barato e rápido. E não se trata de enganar o consumidor, dizem, já que o intuito do desenho em 3D é aproximar o mais possível ao real.

“Com a fotografia tradicional precisas de transportar os protótipos que são construídos em todo o mundo para o mesmo local, onde serão fotografados. Tudo tem de estar pronto a tempo, o que pode ser logisticamente difícil, caro e pouco amigo do ambiente”, defende Martin Enthed.

Para garantir a máxima aproximação ao real, a IKEA tem um banco de 25 mil modelos de dispositivos elétricos e móveis construídos virtualmente a uma resolução extremamente elevada, de quatro mil por quatro mil pixeis (que arrebata qualquer ideia que possamos ter de alta definição). E as texturas são digitalizadas a partir da sua fonte analógica e depois transpostas para o mundo digital numa escala de 1:1, em vez de qualquer tamanho comprimido. Ou seja, é quase como a criação de mobília digital a uma escala real. Resultado: o detalhe é tanto que nos permite ver cada fio do tecido do sofá, não sendo de facto a imagem de um sofá real.

Em apenas oito anos, a IKEA passou assim para um catálogo onde a maioria das imagens já não era real. O processo foi intensivo, e tanto os especialistas em 3D como os fotógrafos aprenderam os ofícios um do outro para que as imagens parecessem cada vez mais reais e não baseadas no imaginário frio do computador.

Hoje sabe-se que é esse o caminho escolhido pela marca sueca, e, no caso de sempre se ter questionado sobre o facto de o mundo dentro dos catálogos do IKEA ser demasiado perfeito para ser verdade, bem, agora tem a prova.