Paulo Pedroso, que em 2003 foi detido em direto nas televisões no Parlamento, reagiu com indignação à detenção de José Sócrates em circunstância idênticas, passados mais de dez anos e depois daquela detenção ter motivado tantas críticas ao sistema judicial e à violação do segredo de justiça.

“Ver 12 anos depois, noutra pessoa, a mesma encenação mediática e a mesma filtragem ‘noticiosa’ choca da mesma maneira”, escreveu Paulo Pedroso, ex-ministro do Governo de António Guterres, este domingo na rede social Twitter, sobre a detenção de Sócrates sexta-feira à noite à chegada ao aeroporto da Portela. Alguns jornalistas avisados com antecedência e à hora da saída do aeroporto tanto a SIC como o Correio da Manhã TV registaram as imagens do carro da polícia descaracterizado, transportando o ex-primeiro-ministro.

Em 2003, Pedroso foi detido para interrogatório, ficou em prisão preventiva vários meses e constituído arguido no âmbito do processo de pedofilia na Casa Pia, indiciado pela prática de 15 crimes de abuso sexual de crianças. Acabou por não ir a julgamento, ao fim desse tempo, e foi libertado por decisão da juíza Ana Teixeira e Silva. Mal saiu do Estabelecimento Prisional de Lisboa, dirigiu-se ao Parlamento, por ter sido ali que fora detido.

LIS20,

O regresso de Paulo Pedroso ao Parlamento, em outubro de 2003. Aqui acompanhado por Ferro Rodrigues

Mas o caso mediático tinha começado logo em maio, quando o juiz de instrução Rui Teixeira foi pelo próprio pé ao Parlamento pedir o levantamento da imunidade parlamentar de Paulo Pedroso para assim, o então deputado, poder ser detido e posteriormente preso preventivamente.

O caso duraria anos a ficar fechado e mais tarde, Pedroso chegou a ser constituído arguido e acusado, mas acabaria por ser ilibado pela juíza de instrução, Ana Teixeira e Silva, que disse não ter argumentos para levar o governante a julgamento. Depois de ilibado, Pedroso apresentou queixas contra o Estado por “erros grosseiros” na prisão preventiva. A última decisão do Supremo Tribunal de Justiça, de 2011, absolvia o Estado de pagar uma indemnização ao antigo governante, mas a marca na reputação política ficaria para sempre.

Já este ano, numa entrevista à revista Visão, Pedroso dizia ter fechado a porta à política uma vez que do processo Casa Pia ficou “o prejuízo à reputação”.

Em termos políticos, esta detenção foi vista então pela direção do PS (sob a direção de Ferro Rodrigues) como uma cabala para prejudicar o partido. Os dirigentes da altura multiplicaram-se em declarações nesse sentido. José Sócrates, à data deputado, nunca deu voz a esses argumentos.